Economia Euro

Angela, o único patrão a bordo

24 outubro 2011
Presseurop

A imprensa europeia é unânime: na cimeira de Bruxelas de 23 de outubro, a chanceler alemã ditou aos parceiros – incluindo a França – as condições para tirar o euro e os países mais endividados da crise.

"Nicolas Sarkozy cede a Angela Merkel, para permitir uma resposta à crise do euro": eis como o diário português Público resume o resultado da cimeira de 23 de outubro. O Presidente francês cedeu à "intransigência alemã" e os debates limitaram-se a “avaliar as linhas de fraturas”:

Público, Lisbonne

Ontem, o debate chegou a ser se se devia pedir ajuda à China... O que ficou também do ambiente que rodeou estas cimeiras foi a determinação de Merkel de não se deixar desviar da sua própria estratégia. Que não mudou, no essencial, e que varia em torno da fórmula de sempre: impor a austeridade e a disciplina aos prevaricadores é o caminho para resolver a crise. Sejam eles Lisboa ou Atenas, Roma ou Madrid, ou, eventualmente, a própria França. A novidade é que se ouvem cada vez mais vozes de protesto. Os países da União reveem todos em baixa as suas previsões de crescimento. A ameaça de uma recessão adensa-se. Berlim continua absolutamente indiferente.

Na Grécia, o Eleftherotypia considera que o primeiro-ministro George Papandreu e o seu ministro das Finanças, Evangelos Venizelos, foram "meros figurantes em Bruxelas", onde “os europeus montaram deliberadamente [a] guilhotina” para a Grécia. O seu homólogo To Ethnos denuncia, por seu turno, na primeira página, "a chantagem de Merkel":

To Ethnos, Athènes

A chanceler fez tudo para impor o seu sistema de rigor e não se apercebe das consequências. E para os gregos, isso significa uma austeridade de muito longo prazo.

Outro “mau pagador” veio à baila, a Itália. A analista Marta Dassù reconhece, em La Stampa, que o único país que tem peso e instrumentos para tirar a Europa da crise do euro é mesmo a Alemanha, que, nestas questões, "está de pés e mãos atados ao seu Parlamento nacional":

La Stampa, Turin

A União Monetária só poderá superar a atual crise se os países que hoje a lideram – a começar pela Alemanha – aumentarem a sua taxa de solidariedade [...] e os países endividados aumentarem a sua taxa de credibilidade – com reformas – e a disciplina fiscal. Deste ponto de vista, a dupla cimeira desta semana marca um potencial progresso, pelo menos no papel. Se o plano alemão funcionar, nascerá uma Europa a vários níveis, com um núcleo duro baseado no euro e em instituições europeias parcialmente separadas das da Europa dos 27.

Em Espanha, El Periódico traz na primeira página "O euro rende-se a Merkel". Para o diário catalão, a chanceler "impôs a sua tese" na cimeira de domingo:

El Periódico de Catalunya, Barcelone

Angela Merkel e o BCE opuseram-se categoricamente à possibilidade [de um financiamento praticamente ilimitado aos países em dificuldades], porque, na sua opinião, isso constituiria uma violação do Tratado da UE, que proíbe o BCE de financiar a dívida pública dos Estados-membros. O Presidente francês, apesar do apoio da Espanha e da maioria dos países da zona euro, viu-se forçado a ceder ao bloco formado pela Alemanha, Holanda e Finlândia com o BCE.

Do lado alemão, para o Süddeutsche Zeitung, a Europa olha, pela primeira vez desde o início da crise, para o espelho da verdade. E o que vê não é animador, é mesmo um "abismo", lê-se no diário de Munique:

Süddeutsche Zeitung, Munich

Apesar dos milhares de milhões de euros que estão disponibilizados no papel, importa não esquecer que, independentemente do montante que se mobilize, isso não vai salvar o euro. Apenas se ganha tempo para resolver os problemas de fundo. Há que travar o afastamento económico dos 17 Estados-membros; para tal, há que ter uma gestão forte. Como o tempo é curto, a cimeira da próxima quarta-feira deve introduzir mudanças reais, como a criação do poderoso e independente Comissário para o Orçamento, que muitos países reivindicam. Berlim, que quer primeiro a alteração dos tratados, faz correr o risco de que a derrapagem do euro se transforme em desastre.

Die Welt, por sua vez, defende o ponto de vista do Governo alemão:

Die Welt, Berlin

Se alguém pretende imprimir dinheiro em vez de tornar a sua economia sustentável, outros terão de pagar a fatura. A confiança dos cidadãos e dos mercados só será recuperada quando todos os membros do euro aceitarem seguir as regras da estabilidade – ou saírem do clube.

Em França, o Libération considera que a crise do euro revelou a assimetria da dupla franco-alemã, com vantagem para Berlim:

Libération, Paris

Neste velho casal franco-alemão, um domina agora claramente o outro. Não é nada de muito recente: o euro foi concebido, desde o início, com base no marco alemão e com uma cultura singular sobre a moeda, marcada pelo drama da hiperinflação da década de 1930 e a falência da política. Mas esta dominação foi temperada pela força e coragem da aventura coletiva da moeda única. Com a violência da crise financeira, a máscara caiu. Do outro lado do Reno, o lugar, a palavra e a influência da França degradaram-se. As soluções preconizadas pelo Palácio do Eliseu para tentar resolver a crise do euro – por mais pertinentes que possam ser – passaram a ter mais dificuldade em impor-se. Pese embora o ativismo do Presidente francês, que se cola à chanceler em todas as ocasiões, a nossa credibilidade financeira levou um duro golpe.