O Tratado de Lisboa, que entra em vigor em 1 de Dezembro, deixa felizes pelo menos 736 pessoas: os deputados europeus, cujos poderes onovo texto alarga. Os eurodeputados vão ter uma influência como nunca tiveram nas áreas da Justiça e dos assuntos internos e, sobretudo, no que se refere ao orçamento e à política agrícola. Embora ainda não seja claro de que modo isso irá alterar o funcionamento da UE.

"Creio que, neste momento, se estará a pensar: ‘Meu Deus, que foi que nós fizemos?’", salientava recentemente o politólogo Hugo Brady no euobserver.com. De facto, o Tratado de Lisboa abre as portas para que os Estados voltem a estar no centro do jogo: o fim das ambições federalistas, um presidente da Comissão (José Manuel Barroso), um presidente do Conselho (Herman Van Rompuy) e uma Alta Representante para os Negócios Estrangeiros (Catherine Ashton), escolhidos para não fazerem sombra aos dirigentes dos grandes países. Tudo – menos o reforço dos poderes do Parlamento.

Dar mais peso aos únicos eleitos de toda a máquina comunitária é, evidentemente, uma coisa boa. Mas, na ausência de uma verdadeira representação europeia – com partidos, programas e campanhas eleitorais que ultrapassem os âmbitos locais –, esta nova força do Parlamento poderá muito bem ser exercida apenas de um modo político.

O primeiro exemplo de que assim será poderá ocorrer nas audiências dos comissários europeus. Sabemos que as nomeações de Van Rompuy e Ashton foram sobretudo fruto de negociações entre a direita e a esquerda europeias. E os deputados europeus já estão a preparar as armas para fazer cair um ou dois candidatos a cargos de comissários. Conforme refere o Gazeta Wyborcza, o checo Štefan Füle e o húngaro László Andor estão na calha, devido ao seu passado sob o comunismo. Num momento em que se espera que tomem posição sobre problemas concretos, seria pena que os eleitos europeus pusessem as querelas nacionais e o seu desejo de afirmação à frente do interesse geral. E.M.