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Mercado Único

Mario Monti: "Os Estados devem assumir as suas responsabilidades"

23 maio 2011

Antigo Comissário Europeu, primeiro responsável pelo Mercado Interno, Serviços Financeiros e Política Fiscal e depois pela Concorrência, Mario Monti é um dos grandes especialistas – e defensores – do Mercado Único europeu. Foi nessa qualidade que, em 2010, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, lhe encomendou um relatório sobre "Uma nova estratégia para o Mercado Único". O Presseurop falou com ele em Florença, por ocasião do Festival d'Europa. Será que Mario Monti considera que o facto de serem postos em causa alguns princípios do Mercado Único, como a livre circulação, resulta da crise atual ou revela uma tendência mais profunda? "As presentes dificuldades económicas contribuem evidentemente para isso", responde. Também lamenta a "tendência para se viver com menos aceitação, com menos entusiasmo" do que no início do Mercado Único. O presidente da Universidade Bocconi, em Milão, refere a existência de um "cansaço da integração", que se manifestou designadamente quando dos referendos de 2005, em França e na Holanda, e de um "cansaço do mercado enquanto tal". Por causa da crise financeira, "muitas pessoas interrogaram-se sobre se a economia de mercado seria a solução ideal". Para o antigo comissário, "essa é, evidentemente, a única solução", ainda que o seu funcionamento e a sua supervisão precisem de ser aperfeiçoadas. A complexidade do Mercado Único e, também, dos processos políticos e legislativos europeus contribui em muitos casos para o desinteresse ou mesmo para o euroceticismo dos europeus. "É difícil explicar os benefícios frequentemente invisíveis mas reais do Mercado Único", admite Mario Monti. É por isso que, em seu entender, é preciso "alterar de forma controlada algumas políticas para o Mercado Único". "Muitas das minhas sugestões foram objeto de propostas específicas da Comissão", congratula-se o autor da Nova Estratégia para o Mercado Único. Falta obter o apoio dos Estados-membros e dos seus dirigentes, que enfrentam desafios eleitorais ou dificuldades económicas. Mario Monti não tem ilusões e considera que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, deveria dedicar uma sessão do Conselho ao Mercado Único, "para fazer com que fosse assumida uma responsabilidade visível, ao mais alto nível dos nossos governos". O antigo comissário pensa que, nesse caso, "seria um pouco mais difícil alguém demarcar-se e ficar na sombra" perante "o esforço comum requerido pelo crescimento, pelo emprego e pela solidez do euro a longo prazo". Alguns dias após o anúncio do plano de ajuda a Portugal e num momento em que a situação da Grécia suscita muita preocupação e muitos boatos sobre uma eventual saída da moeda única, deverá a Europa recear o agravamento da crise? "Espero que o pior já tenha passado", diz Mario Monti. E acrescenta: "Aconteça o que acontecer, a Europa está agora numa melhor situação para lhe fazer face". O antigo comissário congratula-se por a Europa ter "recuperado os seus atrasos com uma rapidez notável" e dispor agora de uma governação "muito mais eficaz".