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Desinvestimento no caminho-de-ferro

Portugal em contra ciclo

27 janeiro 2011

Dois dos diversos boicotes às eleições presidenciais de 23 de janeiro tiveram um denominador comum: o protesto contra a falta de comboios. Em Serpins, no centro do país, protestou-se por causa duma situação caricata: a CP acabou com os comboios no Ramal da Lousã para os substituir pelo Metro. Desde há meses, não há comboio, nem metro e as pessoas que moram na Lousã e trabalham em Coimbra passaram a viajar de carro ou de camioneta. No Muro, freguesia da Trofa (Minho) o comboio de via estreita terminou há nove anos, também para se instalar uma linha de metro. Até hoje… São os casos mais mediáticos mas não passam da ponta do icebergue. A CP e a REFER que exploram, respetivamente, o material circulante e a infraestrutura, anunciam a iminente desativação de, pelo menos, 600 km de vias férreas, do Alentejo ao Norte do país. Como sempre são as linhas com interesse regional as mais sacrificadas. Com o pormenor caricato de a via estreita no Douro acabar de vez, sacrificando traçados ferroviários com enorme potencial turístico e interesse regional, caso das linhas do Corgo e do Tua (na primeira destas a circulação fora interrompida há um ano para obras de melhoramento). A crise, pelos vistos, é má conselheira e encoraja soluções de curto prazo em detrimento duma visão de futuro. Por um lado, faz-se o discurso ecológico, apelando às energias renováveis e às alternativas ao petróleo. Por outro sobre-investe-se na rodovia, nomeadamente nas autoestradas que, depois, têm de ser portajadas, e no automóvel que, embora cada vez mais evoluído tecnologicamente, continua a gastar petróleo importado e a emitir gases de estufa. Pelo preço de 1 km da autoestrada sob a serra do Marão repunha-se em funcionamento o troço final da Linha do Douro, do Pocinho a Barca d’Alva, com potencial turístico de ligação a Salamanca (Espanha). Fazer política é escolher e, infelizmente, as escolhas portuguesas em matéria de transportes são más. Não é só o TGV que é crítico para o desenvolvimento do país. Os comboios regionais, também. Contanto que sejam explorados de uma forma moderna e ao encontro dos interesses locais. E toda a política europeia de transportes vai no sentido de apostar na ferrovia, de alta, média ou baixa velocidade, por razões ambientais e energéticas. A vizinha Espanha não tem só TGV. Não só não acabou com a via estreita, como a modernizou e unificou a sua gestão numa empresa à escala nacional. Portugal arrisca-se a ficar famoso como o país das autoestradas… desertas.