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Justiça

Portugal indigno

2 março 2012

A leitura do editorial do Público de hoje motivou este post indignado, de revolta e até de vergonha. Vergonha de viver num país que trata assim os seus idosos, que lhes tira o direito de viverem com dignidade os últimos anos das suas vidas. Foram abandonados, há nove anos, dentro de um contentor como se de uma casa se tratasse, um cubículo que não oferece sequer condições para cozinhar, obrigando-os a deslocar-se às ruínas de outra casa, nas proximidades – ao frio, à chuva, no meio da lama -, para pôr uma panela ao lume e preparar as refeições. O sistema judicial português tarda e não atua, os lesados morrem muito antes que se faça justiça. Ou veem, como neste caso, os processos serem arquivados. E todos assistimos impávidos a situações como esta, acreditando que, um dia, os tribunais decidirão correta e rapidamente para corrigir erros crassos como este. A solidariedade morreu na Europa e, arrisco-me a dizer, vai morrendo aos poucos dentro de cada um de nós, presos a este sistema viciado, sem saber como sair dele. Infelizmente, a austeridade que se abateu sobre o país não é de hoje. A austeridade sente-se em cada história como a que aqui se conta. Editorial do Público de 2 de março de 2012: "Portugal mora inteiro num contentor O caso tem vindo a ser falado, ora nas televisões ora nos jornais, e de cada vez que é contado parece ainda mais inacreditável. Um casal de idosos viu a sua casa inutilizada em 2003 por via das obras para construir um viaduto na A10, no troço de auto-estrada que liga Bucelas a Benavente. As paredes racharam, o chão fendeu-se, o poço, a garagem e a arrecadação ficaram destruídos. Perante tal cenário, os idosos avisaram os engenheiros no local. Instalaram-nos então num contentor, com tudo o que havia em casa, mobília e outros haveres, dizendo- -lhes que "era só por dois meses". Ora a A10 ficou pronta, mas o contentor ficou ali, com dois seres humanos lá dentro, até hoje. Accionado o seguro, quiseram oferecer aos idosos 30 mil euros pelo estrago. Não aceitaram, alegando que isso não chegava para nada. E o caso foi-se arrastando pelos tribunais, com um processo metido em 2003 em que se pedia uma indemnização de 203 mil euros. Muito? Pouco? A justiça decidiria. Mas o que foi judicialmente decidido, este ano, foi arquivar o processo. Porquê? Porque o empreiteiro faliu em 2007 com um rol tamanho de credores que, entre eles, o casal de idosos ficaria sempre para trás. Pior: entre os credores estão o dono do terreno, o dono do contentor e até o dono dos aparelhos de ar condicionado ali instalados "provisoriamente", que até já foi buscá-los para "amortizar" a dívida. Resultado: o casal de idosos decididamente está a mais. Num país onde só paga quem quer, onde é possível falir e desaparecer, onde a justiça demora anos a decidir o que devia ser decidido em semanas, é um casal de septuagenários (que estava muito descansado em sua casa até lha destruírem) que entope o sistema. Portugal, é caso para dizer, mora inteiro naquele contentor."