Foi anunciado na passada semana que 117 mil portugueses foram instados pela segurança social a devolver subsídios recebidos de forma alegadamente irregular desde 2004. Trata-se, em muitos casos, de pensionistas idosos que, de um momento para o outro, são confrontados com a obrigação de pagar centenas ou milhares de euros. Têm dez dias para contestar e um mês para pagar, posto o que entram em ação penhoras de bens ou descontos noutras prestações sociais que os atingidos porventura estejam a receber.

O argumento oficial apresentado é que o dinheiro indevidamente pago, contabilizado em 570 milhões de euros faz falta para ajudar outras pessoas necessitadas. É dinheiro, mas nada que se compare, por exemplo, aos 4,6 mil milhões que o Estado português já injetou no Banco Português de Negócios (BPN) desde 2008 para o salvar da falência depois de uma sucessão de escândalos e episódios de má gestão e crime puro e simples.

O Estado português parece ter-se transformado numa máquina predadora impiedosa quando se trata de cobrar dinheiro aos contribuintes individuais. Em novembro e dezembro foram cobradas milhares de multas de € 15 a automobilistas que, tendo pago o imposto de circulação, o fizeram fora de prazo, o que pode significar poucos dias ou até poucas horas de atraso.

É fácil falar grosso com reformados, pensionistas e desempregados para lhes reclamar meia dúzia de tostões. Mas perante a banca que apostou em investimentos especulativos e agravou a crise financeira, quando não branqueou capitais ou desviou fundos, a atitude é a oposta: subserviência total.

Para além do que este mesmo Estado que persegue os contribuintes até ao último tostão falha clamorosamente quando tem de prestar serviços àqueles que o sustentam: a lista de espera nos hospitais para intervenções cirúrgicas voltou a crescer, tanto em número de doentes, como em tempo de espera.

A médio prazo a perceção de que só se exigem sacrifícios a quem menos pode e de que o Estado só funciona na vertente de cobrador coercivo de impostos vai alimentar ressentimentos que, de uma forma ou doutra vão explodir à luz do dia.

Hoje parece-nos estranho que, em 1848, a revolta da Maria da Fonte tenha começado por o Governo ter proibido os enterros nos adros das igrejas. Mas para quem está triste, revoltado e descontente qualquer pretexto pode servir. Olhem para a História antes que seja tarde…