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Poupar no farelo e gastar no bife

29 novembro 2011

Além de levar a cabo a maior e mais violenta alteração na distribuição do rendimento nacional de que há memória no Portugal democrático, reduzindo dramaticamente os rendimentos do trabalho a favor dos do capital, o Governo português insiste em cortes cegos na despesa. Um dos mais caricatos é o fim das entradas gratuitas nos museus públicos ao domingo. Quanto pode o Estado arrecadar com esta medida? Coisa de uns 200 mil euros, no máximo, ou seja sem qualquer impacto real nas contas. Em contrapartida, aquilo que poderia ser uma coisa boa em tempo de crise – visitar a rede de museus públicos – passa a ser desincentivada. Os avós poderiam levar os netos ao Museu de Arte Antiga e mostrar-lhes o melhor da pintura quinhentista portuguesa. Assim sai-lhes do bolso. Os desempregados ou os estudantes (a estes retiraram os descontos nos passes sociais) poderiam ser tentados a ver, ou rever, os azulejos setecentistas (no Museu do Azulejo) ou a memória do passado colonial português (Museu de Etnologia). Mas não. Passa a custar dinheiro, que já é pouco nos bolsos de boa parte dos portugueses. Perante as críticas, a Secretaria de Estado da Cultura (deixou de ser Ministério com este Governo) esgrime um argumento genial: os operadores turísticos já tinham percebido que havia borlas e concentravam as visitas dos estrangeiros, nomeadamente dos que desembarcam dos grandes paquetes, aos domingos. Se o problema fosse este, talvez fazer uma separação na bilheteira entre nacionais e estrangeiros que, podendo parecer desagradável ou xenófoba, já vigora, por exemplo para o Castelo de São Jorge (Câmara de Lisboa) ou para o Convento dos Capuchos (Parque de Sintra/Monte da Lua). Há múltiplos modelos de exploração e gestão dos museus por essa Europa fora. Por exemplo, todos os grandes museus britânicos são gratuitos, da National Gallery à Tate Gallery, do British Museum ao Imperial War Museum. Quando muito paga-se, apenas, a visita às exposições temporárias, o acervo geral é de acesso livre. Pelos vistos, os talibãs do liberalismo quando vão a Londres não passam das lojas de Oxford Street…