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Crise da dívida

A culpa é dos guarda-freios...

Presseurop
10 outubro 2011

Ouvimos recentemente um ex-líder do partido governamental fazer na televisão uma diatribe contra os responsáveis pelo estado em que as finanças do país se encontram. E a quem apontou Marques Mendes um dedo acusador: Aos banqueiros que especularam sem pensar nos riscos? Aos empresários que não modernizaram tecnologias nem processos de gestão? Ao sistema de ensino que não forma mão-de-obra qualificada? Ao sistema judicial que leva anos a julgar um processo, quando não o deixa, pura e simplesmente, prescrever?

Nada disso! Os verdadeiros culpados da crise são os maquinistas do Metro porque têm um prémio de condução. Os marinheiros da Transtejo porque têm prémios de assiduidade. Os guarda-freios da Carris porque as suas irmãs solteiras podem ser transportadas gratuitamente.

Finalmente se percebeu a raiz da crise portuguesa e, quem sabe, mundial. É por um pobre de Cristo levar para casa mais 50 ou 100 euros em subsídios ao fim do mês que o país se endividou. Suspeito, aliás, que os lucros destas inqualificáveis mordomias tenham sido aplicados em Wall Street ou em «offshores», contribuindo para a bolha especulativa e para a falência da Lehman Brothers e quejandas.

Nada mal as observações de Marques Mendes num país onde, desde que o atual Governo começou a aplicar o programa de ajustamento financeiro, se assistiu à mais violenta e brusca transferência de rendimentos do trabalho a favor do capital de que há memória no Portugal democrático.

Um dia depois das extraordinárias declarações de Marques Mendes percebeu-se ao que vinham: depois de ter aumentado indiscriminadamente os preços dos bilhetes sem proteger o passe social, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira ia ao Parlamento, supostamente para anunciar novas medidas no setor dos transportes. Não o fez porque, segundo disse, ainda não tinha o dossiê suficientemente estudado mas deu uma resposta lapidar quando um deputado lhe perguntou que pensava das mordomias dos marinheiros, maquinistas e guarda-freios zurzidas na véspera pelo seu correligionário: «haverá alguma coisa que estará mal nesse campo mas estou mais ralado com as mordomias dos gestores das empresas dos transportes...»