URSS não gostava de Peter Pan
3 setembro 2009
Os ucranianos, em Portugal, são a segunda maior comunidade migrante, com 53 mil pessoas cuja situação está legalizada, e vêm sobretudo da Ucrânia ocidental. Pouco depois de este país ter comemorado 18 anos de independência [24 de Agosto, o EXPRESSO falou com o embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko, um homem que nasceu num país que se diluiu quando ele já tinha 29 anos Peter Pan, um dos mais famosos filmes de animação da Disney, aos 47. Não que a história do rapaz que esvoaçava pelas janelas fosse perigosa para o equilíbrio das crianças soviéticas, mas porque até à queda do Muro de Berlim os governantes das terras que ficavam para lá da 'cortina de ferro' olhavam a Disney como um símbolo do império americano, personae non gratae na velha Europa de leste.
Diga-se em abono da verdade que o imaginário infantil de Rostyslav não permaneceu alheio às fantasias de James Matthew Barrie. O livro que conta a história de Peter Pan estava traduzido em russo e disponível para as crianças da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pátria do socialismo e da “igualdade na falta de muitas coisas”, como refere Rostyslav Volodymyrovych, embaixador da Ucrânia em Portugal, que conversou com o Expresso dois dias depois de ter visto o filme Peter Pan pela primeira vez, na companhia da filha de cinco anos.
No tempo em que cresceu, “o Estado cuidava de tudo”. Rostyslav recorda com ternura os tempos da infância e juventude porque “temos sempre saudades dessas épocas. Mas agora há liberdade e os meus compatriotas são livres de poderem vir para o vosso país”, e aqui fazerem a sua vida. “A Ucrânia foi sempre uma ponte entre a Europa e a Ásia e um local de encontro de muitas culturas. Isso faz-nos parecidos com os portugueses. Na Ucrânia até temos uns lenços parecidos com os do Minho”, que lá devem ter chegado num desses movimentos de transumância humana.
Na universidade, foi obrigado a decorar versos de Os Lusíadas: “Grande parte da minha carreira está ligada à lusofonia. Trabalhei como intérprete em Moçambique nos anos 1980 e numa Associação de Amizade com Países Estrangeiros”. Tudo isso aconteceu antes de entrar para a carreira diplomática, e de o seu país recuperar a independência.
O pai, doutorado em Economia, com uma tese sobre o socialismo em Cuba, não sai da Ucrânia há mais de três décadas, mas sempre disse ao filho que este deveria estar atento ao mundo. E nunca desistiu de o motivar para a área da diplomacia, mesmo quando Rostyslav escolheu cursar Línguas Modernas na Universidade Estatal de Kiev para, numa tímida contestação juvenil, picar os progenitores. Este Verão, o pai de Rostyslav vem visitar o filho, as netas e a nora brasileira, e conhecer Lisboa. A sua primeira viagem em 34 anos.
Manuela Goucha Soares