“Mandela aprendeu a manejar armas na Argélia”
“Estive em Reguengos de Monsaraz e pareceu-me que estava na Argélia. Senti-me em casa. O vosso país está virado para o Atlântico, mas é mediterrânico”, diz Fatiha Selmane, embaixadora da Argélia em Portugal desde o início deste ano – falando um português já muito razoável: “É importante conhecer a língua do país onde se trabalha. Como existe uma proximidade cultural entre os nossos países, isso facilita a relação. Na década de 60, havia bastantes refugiados políticos portugueses em Argel; o meu pai conheceu alguns. Nesse tempo, a Argélia era uma espécie de Meca dos refugiados. Quando fui embaixadora na África do Sul, Nelson Mandela contou-me que foi na Argélia que aprendeu a manejar armas. A Argélia apoiou muito o ANC e a cantora Miriam Makeba até tinha passaporte argelino”.
Filha de um professor universitário – doutorado na Sorbonne – , recorda o pai como um homem “privilegiado, porque teve oportunidade de estudar na época da colonização francesa, o que não aconteceu com a maioria dos argelinos. Fomos muito discriminados pelos franceses. Ao contrário da Tunísia e de Marrocos, a Argélia era considerada parte da França”.
Chick Bouamrane, o pai de Fatiha, percorreu todas as etapas da carreira de professor: deu aulas no ensino primário, secundário, e terminou a carreira ensinando Filosofia na Universidade de Argel. “Eu e os meus dez irmãos concluímos todos a nossa formação universitária”.
Depois de acabar o liceu, entrou para a Escola Nacional de Administração. Ao fim de dois anos, optou pela área da Diplomacia: “Quando entrei para o ministério dos Negócios Estrangeiros havia poucas mulheres. Fui promovida a embaixadora em 2001, quando o actual Presidente nomeou as primeiras mulheres” como representantes do país no estrangeiro.
Foi uma das avós quem a ensinou a falar espanhol: “No tempo dela havia muitos refugiados da guerra de Espanha na Argélia. Estas bases foram-me úteis quando fui trabalhar para Madrid, em 1996: “Também gostei muito de viver em Espanha. Encontrei a mesma afinidade cultural que sinto em Portugal”.
Mãe de duas filhas – uma com 17, outra com 21 anos – é casada com um auditor financeiro argelino, que suspendeu a actividade profissional para acompanhar a mulher, cuidar das filhas, e assumir as tarefas de cônjuge de embaixadora: “Como sou diplomata, o meu marido está proibido de trabalhar quando está comigo no estrangeiro. Mas tem muitas outras tarefas, incluindo as de organizar recepções...”.
Texto de Manuela Goucha Soares