Economia Indústria e comércio

Roménia: Febre do ouro atinge Bucareste

15 setembro 2011
Revista 22 Bucareste

A mina de ouro de Roşia Montană

A mina de ouro de Roşia Montană

Nadia Shira Cohen

A crise económica fez subir o valor do ouro nos mercados mundiais. Associado a uma empresa canadiana, o Estado romeno pretende aproveitar o fenómeno, reabrindo a mina de Rosia Montana. Um projeto controverso.

Diz-se que todas as casas dos mineiros de Rosia Montana ocultavam uma passagem que conduzia aos filões de ouro. Já não é possível confirmar essa história, porque a Romania Gold Corporation comprou-as todas. Para poder começar a exploração em Rosia Montana, esta sociedade mista, formada pela companhia canadiana Gabriel Resources e a empresa pública romena Minivest, espera apenas um certificado ambiental. 

A guerra é total. O núcleo duro dos opositores à reabertura da mina – fechada em 2006 – defende que o projeto vai eliminar do mapa o aglomerado de Cârnic, reduzindo a pó um património cultural que data da Antiguidade, quando os romanos exploravam o ouro da região, e que pode ser gravemente afetado pela tecnologia da extração com cianeto. A Gold Corporation defende, por seu lado, que vai tomar boa conta dos espaços arqueológicos…

Uma boa razão para ter medo

A crise financeira fez o preço do ouro subir de forma vertiginosa e os analistas apostam num crescimento contínuo do valor do precioso metal. Assiste-se, assim, a uma batalha clássica entre a civilização industrial e os representantes da civilização pós-industrial, que se opõem à exploração selvagem da natureza. A batalha desenrola-se num território fortemente marcado por um historial mineiro cujos efeitos ecológicos são uma herança difícil de gerir. As águas dos riachos próximos das minas são vermelhas [devido à poluição com cianeto] e as vertentes esventradas parecem ter sido atingidas por um cataclismo. Durante a Era do Ouro [denominação dada pela ditadura de Ceausescu], controlar a poluição não era uma prioridade do regime comunista. A qualidade de vida das pessoas não contava. Daí haver todas as razões para se ficar assustado.

Um dos principais problemas do projeto de Rosia Montana é, portanto, a falta de confiança que suscita. O perfil dos principais acionistas da Gabriel Resources [empresa-mãe da Romania Gold Corporation], cotada na Bolsa de Toronto, é típica: multimilionários com grande apetência por especulações financeiras. Entre eles, a Paulson & Co. e a Electrum Strategic Holdings são fundos de investimento especializados em ouro. A Newmont Mining Corp (dos Estados Unidos), um dos principais produtores de ouro do mundo, conta entre os seus acionistas o multimilionário George Soros. 

A república das bananas e os investidores sem escrúpulos

O Estado romeno, através da empresa Minvest, é o maior acionista na exploração, com 19% das ações. Mas a sua participação parece subavaliada. Assentar numa montanha que, de acordo com as estimativas, esconde nas suas entranhas cerca de 300 toneladas de ouro, deveria incitar a uma participação mais avultada. O contrato da participação do Estado romeno neste projeto continua em segredo e a Roménia parece estar a ser tratada como uma república das bananas por investidores sem escrúpulos. 

Também noutras regiões da Europa se explora ativamente o ouro, como na Suécia e na Noruega. O Estado sueco emitiu concessões sobre as suas jazidas e limita-se a ganhar dinheiro com impostos, taxas e direitos. Sem qualquer agitação aparente ou subjacente. A questão é tratada como um negócio gerador de lucro, e a indústria mineira representa 0,3% do PIB do país. O respeito pelas normas está sujeito a um controlo estrito, coisa que falta na Roménia. O desafio permanece a corrida ao ouro. O projeto de Rosia Montana promete extrair um valor de mais de 16 mil milhões de dólares [cerca de 11,7 mil milhões de euros] em 16 anos. Mas se o investidor canadiano for mandado embora, pode exigir ao Estado romeno indemnizações alucinantes.

Rosia Montana corre o risco de permanecer fantasmagórica, porque 80% dos edifícios pertencem hoje à Gold Corporation. Os vestígios arqueológicos, situados em lugares de difícil acesso, não bastam para atrair turistas. A população local não tem muitas alternativas de trabalho nem fundos para investir em turismo. A pequena oferta de alojamentos da região está longe de ser rentável, e a povoação só chamou as atenções com esta controvérsia…