A demissão de Jürgen Starck, economista responsável pelo BCE, deixa a Alemanha perante uma realidade: o modelo de estabilidade financeira que o país sempre defendeu já não se adapta a estes tempos de crise, estima o Frankfurter Allgemeine Zeitung.

As instituições representam uma inércia que segue sempre o mesmo cenário rotineiro. É isto que provoca a confiança nos resultados da sua ação. Estas instituições detestam a incerteza e adaptam-se mal à mudança. Muitas vezes, é uma coisa que dá lugar a debates sobre a sua razão de ser. Para que servem, exatamente? Jürgen Stark – que se demitiu das suas funções no BCE dia 9 de setembro – também colocou esta questão.

O BCE sempre foi considerado o filho legítimo do Bundesbank, totalmente votado à estabilidade monetária. Jürgen Stark tem uma opinião bem clara sobre o facto de o BCE adquirir em grande escala dívidas de Estado de países endividados até ao pescoço: "No contexto atual, a aplicação de um política financeira rigorosa deveria ter inúmeras repercussões positivas na confiança, a confirmar os estudos de caso: programas ambiciosos de recuperação são rapidamente acompanhados por efeitos positivos no crescimento". Jürgen Stark propõe, assim, que se façam economias e mais nada.

Sob este prisma, o sistema financeiro depende monetariamente da economia real. Os cidadãos põem de lado e as empresas investem. Só nestas circunstâncias é que a redução de despesas públicas pode ter, a longo prazo, repercussões totalmente positivas.

Última euforia de um sistema destruído

Mas será que ainda vivemos num mundo assim? O problema grego é bem diferente. O ciclo económico depende dos rendimentos disponíveis e dos investimentos, sejam do Estado ou do setor privado. Se toda a gente apertar o cinto ao mesmo tempo, a economia entra numa espiral de recessão.

Os gregos estão cada vez mais pobres. Porém – e consequentemente – continuam endividados. A Grécia deixou de ser um caso isolado: a zona euro e a economia mundial estão agora ameaçadas pelo contágio. Todos se tentam adaptar, como exige Jürgen Stark. Adaptar-se, de acordo, mas a quê? Na indústria automóvel e na metalurgia, por exemplo, existem novas tecnologias, ou grandes indústrias em más condições? A China já superou todos os seus concorrentes? Longe disso. 

O problema não reside nas mutações da economia real, mas na vontade de assegurar o funcionamento de uma dívida acumulada pelo sistema financeiro nestes últimos quinze anos e que abrange igualmente as dívidas do Estado. É a última euforia de um sistema destruído. Os Estados só conseguem reduzir a sua dívida se tentarem assegurar o funcionamento da dívida passada em detrimento do tempo presente. Com efeito, as velhas dívidas sempre foram substituídas por outras. O desendividamento só é possível se o Estado investir menos em fase de crescimento do que as suas capacidades permitem. 

Eis a pedra europeia no sapato alemão: Jürgen Stark pretende financiar o consumo de ontem – e, por isso, a dívida – com o consumo de hoje.

Autodestruição da economia

Infelizmente, a Grécia não é o único país a dar problemas. Atualmente, todos os países ocidentais estão em crise, ou prestes a soçobrar a ela. Se todos os países equilibrassem o seu orçamento ao mesmo tempo, todos se encontrariam na mesma situação: aumento das despesas resultante de uma subida do desemprego, de uma descida das receitas e de investimentos a meio gás. Crise total. E por que motivo fazemos isto? Não é para proceder a ajustamentos estruturais da economia real, mas porque, entretanto, pessoas como Jürgen Stark descobriram que o nosso endividamento era demasiado alto e que tínhamos de o reduzir. Ora, reduzir a dívida não leva a nada: é por isso que o investimento está em ponto morto. De facto, as empresas não investem, a menos que entrevejam benefícios potenciais, ou o Estado ocupe o lugar dos investidores em tempo de crise. Mas o Estado não pode investir porque tem de consolidar as finanças do país.

O processo de autodestruição acaba por tomar toda a economia. Sem confiança, o sistema desaba. Eis a promessa de futuro. E que quer Jürgen Stark, juntamente com inúmeros alemães? Um BCE que encontre a sua razão de ser num objetivo há muito esvaziado de sentido: impedir que os Estados entrem em bancarrota através de uma política de estabilidade. De facto, é uma missão impossível. Estas pessoas vivem num mundo irreal, num passado há muito desaparecido. Enquanto primeira potência económica do continente, a Alemanha é agora a única potência capaz de garantir a confiança nas capacidades da UE. Um colapso da Grécia só será possível se conseguirmos garantir, ao mesmo tempo, que aos outros[a] países da zona euro não aconteça o mesmo. Algo pouco provável: os alemães não têm a determinação necessária. Preferem acreditar na razão de ser de uma instituição que há muito se volatilizou. É verdade que os alemães sempre se adaptaram mal a um mundo em mudança.