Com vista a dar um enquadramento mais seguro ao investimento na UE após 2008, a directiva relativa à gestão de fundos de investimento alternativos lançou o pânico na City de Londres ao pôr em perigo o seu futuro como centro financeiro internacional. Na recente deslocação a Bruxelas, para defender a sua causa, o presidente da Câmara de Londres, Boris Johnson, descobriu uma cidade futurista onde, segundo declarou, mesmo em detrimento de Westminster (Parlamento britânico), reside o verdadeiro centro do poder.

Se calhar é assim que acontece nos filmes. Uma pessoa adormece 10 minutos e acorda 200 anos mais tarde. Saímos na Gare du Midi, em Bruxelas, e a transformação foi incrível. Há 20 anos, fui enviado à capital belga como correspondente do Daily Telegraph para o Mercado Comum. Nessa época, a Gare du Midi era um local escuro, mas lindíssimo, cheio de gatos selvagens e batatas fritas pisadas pelo chão e comboios que partiam lentamente para destinos da I Guerra Mundial, como Poperinge, na Flandres.

 

Mas o futuro chegou. Um imenso terminal do Eurostar futurista impera sobre o antigo quartier e, à medida que nos dirigíamos para o centro da cidade europeia, eu nem queria acreditar. Ao chegar à zona das prósperas instituições europeias, é como se umas gigantescas naves espaciais extra-terrestres de vidro e aço tivessem aterrado na cidade. À sua volta, as ruas empedradas são minúsculas e as patisseries e os barzinhos escuros de que eu tanto gostava desapareceram.

No meu tempo, o Parlamento Europeu ficava num edifício pequeníssimo na Rue Belliard. E agora, vejam só. Chamar-lhe palácio, é uma afronta. É uma série de palácios, uma cidade dentro da própria cidade, com bares e restaurantes e passerelles em arco a ligar todas aquelas monstruosidades modernistas. No meu tempo, o Parlamento Europeu era um simpático retiro, a ‘sogra’ dos parlamentos, onde a agenda consistia basicamente em fazer uns almoços em Estrasburgo antes de publicar umas denúncias energicamente formuladas e cosmicamente irrelevantes sobre a fome em África ou os terramotos na América Latina.

Bar do Parlamento cheio de "jovens lobos"

Tudo isso acabou. É provável que houvesse um bar no velho edifício do parlamento europeu de Bruxelas, mas nem mesmo o mais desesperado dos jornalistas lá teria ido em busca de uma boa notícia. Hoje, nesse bar do parlamento mal se pode romper com tanta gente nova e animada, de ambos os sexos, com os seus óculos Christian Dior a brilhar de desejo de – de desejo de quê? Poder, é isso mesmo. Pela primeira vez em 30 anos de história desta instituição tão criticada tive a sensação do poder que se solta das paredes castanho moleskin e, ao olhar para os huissiers, sempre a correr de um lado para o outro, vi um grupo de pessoas recém-abastadas e a brilhar com um rico béarnaise de auto-confiança.

E não pude deixar de os comparar, claro está, lamentavelmente, com os deputados de Westminster que têm sido tão perseguidos e massacrados pela comunicação social que parecem ter tido um colapso nervoso colectivo. Muitos estão a chegar à reforma, em estado de choque pelo escândalo das despesas, com a confiança destruída para sempre pela explosão de fúria popular. Quanto aos seus substitutos, vão ter de enfrentar um parlamento antiquado e detestado, onde continuam a ser obrigados a utilizar a arcaica forma de tratamento na terceira pessoa e a ter de votar segundo um procedimento antigo que significa 15 minutos a arrastar os pés por um compartimento bafiento todo forrado a madeira.

Que enorme contraste com Bruxelas e Estrasburgo, onde os deputados europeus aparecem e votam carregando num botão, rodeados de todo o tipo de conforto e contactos mínimos com os seus eleitores. Enquanto aqui o tamanho e o esplendor físico do parlamento vão crescendo, com perto de 750 eurodeputados nas suas sete quintas, em Londres a tendência é exactamente no sentido contrário. Para além do plano de redução do Parlamento, de 659 para cerca de 400 lugares, os deputados britânicos enfrentam a enorme humilhação de se verem forçados a preencher estranhos formulários de pré-primária com o relato minucioso sobre o modo como ocupam cada hora dos seus dias.

Equilíbrio de poderes mudou

E a grande questão é que esta mudança não é apenas simbólica. Reflecte a realidade que lhe é subjacente – a alteração no equilíbrio de poderes e o facto de que as leis deste país já não são determinadas pelo Parlamento de Westminster. Uma pessoa não precisa de saber ao pormenor o teor da Directiva Europeia sobre Gestão de Fundos de Investimento Alternativos , por exemplo, para perceber que atinge o centro financeiro de Londres e se arrisca a causar danos irreparáveis nas empresas britânicas, e o nosso Parlamento de Londres é totalmente irrelevante. Claro que há razões para uma regulação prudente, e ainda estamos a tempo de melhorar essa directiva. Mas quem irá ter esse trabalho?

Não serve de nada aos investidores de capital de risco e aos fundos de investimento especulativo pressionarem os ministros britânicos. Ao abrigo dos poderes de co-decisão do parlamento europeu, essas reformas cruciais serão feitas em Bruxelas por eurodeputados.

De facto, com a perspectiva de mais directivas, é provável que o futuro de todo o ramo de serviços financeiros do Reino Unido esteja nas mãos deles. Talvez por isso seja tão revelador ver o contraste físico entre os dois parlamentos: o definhado de Westminster e o elegante e auto-confiante de Bruxelas. O poder passou, está a passar e, com o Tratado de Lisboa, irá passar ainda mais para o parlamento europeu.