Apesar de não fazer parte da zona euro, a Confederação não está ao abrigo das consequências da tempestade que se abate sobre a moeda única. A começar pela supervalorização do franco suíço, uma catástrofe para as exportações e para o turismo.

“36,50 francos suíços a noite para duas pessoas, tudo incluído. Monika Abplanalp, a gerente do parque de campismo, quer dizer com isto que, aqui na Suíça, os preços não aumentaram, é apenas na vossa terra, nos países da zona euro, que tudo parece ter mudado. “Há quatro anos, quando abrimos, 36,50 francos suíços valiam 22 euros. Agora, valem 33”.

O resultado, para o parque de campismo de Monika Abplanalp, situado nos Alpes Berneses: “Menos turistas, muito menos. Normalmente, os alemães, os suíços e os holandeses são os nossos principais clientes. Mas, este ano, não há praticamente turistas alemães e muitos suíços passam férias no estrangeiro onde, neste momento, tudo é muito mais barato”.

Pobres suíços: estão fora da moeda única, têm as finanças públicas perfeitamente em ordem e, no entanto, são vítimas da crise do euro. O franco suíço, outrora tão estável, atingiu, nas últimas semanas, máximos sem precedentes, uma catástrofe para as exportações e para o turismo. Para fugirem aos problemas da zona euro e às inquietações nos Estados Unidos, os investidores viram-se maciçamente para o franco suíço, um porto de abrigo. Um franco suíço vale, atualmente, 92 cêntimos de euro, ou seja, subiu 13% em apenas um mês. Quando estava em baixa, antes da crise do crédito de 2007, comprava-se a 60 cêntimos de euro.

Um cocktail no terraço a 20 euros

Isto torna o franco suíço a moeda mais sobrevalorizada do mundo, segundo os cálculos da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) no início de agosto. O valor natural da moeda situa-se entre os 71 e os 77 cêntimos de euro, afirmou o porta-voz do banco central suíço. Esta situação tem vantagens para os suíços que vivem nas zonas fronteiriças, que podem fazer compras, a preços mais baratos, no estrangeiro. Os parques de estacionamento dos supermercados do outro lado da fronteira estão a transbordar de carros com matrículas suíças.

Mas, para a economia suíça, esta subida da moeda nacional não tem nada de interessante. O número de turistas europeus já tinha diminuído no primeiro semestre de 2011: menos 9,5% de belgas, 8% de holandeses e 7,6% de alemães, segundo os números publicados a 5 de agosto pelo Gabinete Federal de Estatística. A Suíça nunca foi um destino barato, mas a atual cotação do franco suíço atingiu um nível inigualável desde há 40 anos. Uma noite na suite mais acessível do Beau Rivage, o hotel de luxo de Genebra, que em novembro custava o equivalente a 582 euros, custa hoje 740. E se, este verão, beber um cocktail numa esplanada da Suíça, terá de pagar uma conta que rondará os 20 euros.

A indústria suíça também está a sofrer pressões. As empresas exportadoras têm cada vez mais dificuldade em concorrerem com as suas rivais estrangeiras. As grandes marcas suíças, como a relojoeira Swatch e o grupo tecnológico ABB já anunciaram que contam com uma diminuição do volume de negócios. Algumas empresas mais pequenas pedem aos seus funcionários que trabalhem mais horas em troca do mesmo salário para compensar as perdas de lucro.

A obcessão da Suiça

O banco central suíço, perante a intensificação das pressões políticas, reduziu a sua taxa diretora para próximo de zero. Espera, assim, conter a escalada do franco suíço. A paridade com o euro é a obsessão dos suíços: se a tendência se mantiver, em breve, a moeda helvética valerá tanto ou mais do que o euro. A Suíça está a pagar o preço da sua estabilidade financeira. “Se estamos com este género de problemas é porque vivemos uma situação muito positiva, enquanto a Europa e os Estados Unidos se veem confrontados com grandes problemas”, declarou Philipp Hildebrand, presidente do banco central suíço, à televisão do seu país. A Suíça é um dos raros países europeus que tem excedente orçamental, a sua balança comercial apresenta um confortável excedente e a taxa de desemprego, de 3%, é ainda mais baixa do que a da Holanda, o melhor aluno da turma da UE.

Se o franco suíço continuar a subir, o crescimento económico, superior a 3% no primeiro trimestre, muito provavelmente registará uma forte contração. Os especialistas não excluem mesmo a hipótese de recessão. Apesar de tudo, a sorte dos países da zona euro não é invejável, dizem os suíços, um pouco irónicos. “A Holanda e a Alemanha pagam pelos outros países da zona euro”, diz Monika Abplanalp. “A Suíça é linda, limpa e segura. Esperemos que assim continue”.