Só 21% dos austríacos contam ir às urnas a 7 de Junho. Sinónimo de abertura das fronteiras, a União Europeia mete-lhes cada vez mais medo, explica Barbara Coudenhove-Kalergi.
Um dia, um colega jornalista estrangeiro perguntou-me: "Porque é que tantos austríacos se opõem tanto à União Europeia, se o país aproveitou com a sua adesão à UE? E porque há tantos austríacos a votar em partidos de extrema-direita?" Perguntas que os observadores estrangeiros correm o risco de colocar de novo nas próximas semanas, com a aproximação das eleições europeias. Eis uma tentativa de resposta.
Ao longo das últimas décadas, a Áustria perdeu progressivamente as suas referências. Após a Segunda Guerra Mundial, os austríacos foram-se isolando gradualmente, afastando-se de uma História Mundial cujos primeiros capítulos foram, para eles, sinónimo de malogro. A Primeira República [1919-1938] foi construída sobre as ruínas de uma nação multicultural seccionada pela Primeira Guerra Mundial. Então, o país associou-se, para o bem e para o mal, ao Império Alemão – vindo a naufragar com ele na derrota. Resultado: os austríacos fecharam-se no seu pequeno país tranquilo. Ao abrigo da neutralidade, sentiam-se protegidos de toda a injustiça que reinava no estrangeiro. A Áustria tinha-se tornado um "oásis de felicidade". Mas um dia, a História Mundial voltou a apanhá-la. A adesão à União Europeia abriu as fronteiras do país ao Ocidente, com todas as consequências daí decorrentes, associadas à globalização e à concorrência. Os imigrantes chegaram e em grande número. A Áustria deixou de ser o tão apreciado “oásis”.
Hoje como ontem, muitos consideram a UE não como uma grande pátria, mas como uma força de ocupação, e os seus vizinhos orientais – nomeadamente a Turquia – como inimigos ameaçadores. No fundo, estão saudosos dos velhos tempos, quando a Áustria se assemelhava a um "Schrebergarten" [bairros de casinhas modestas rodeadas de espaço para um pequeno jardim e horta – versão austríaca do modelo da “casa portuguesa”].
Os partidos de direita movem-se bem neste sentimento de medo. As respostas simples a questões complicadas são sempre sedutoras. Neste caso, resumem-nas da seguinte forma: os responsáveis por todas as desgraças são, à escolha, os estrangeiros ou a UE. Sem eles, tudo estaria melhor no melhor dos países. Os partidos no Governo são em parte responsáveis por este estado de espírito. Nunca contradisseram as palavras desses políticos sem escrúpulos, que têm a arte de simplificar tudo. A coligação de conservadores e extrema-direita (no poder de 2000 a 2006] acabou por dar legitimidade à xenofobia, ao racismo e a um provincianismo confrangedor.
Não falta muito tempo até às eleições europeias. É agora ou nunca o momento de pronunciar discursos claros. Caso contrário, após as eleições de 7 de Junho, a Áustria arrisca-se efectivamente a aparecer como o patinho feio da Europa – o único país a pender para a extrema-direita – , tal como a Caríntia [a província de que Jörg Haider era governador] foi em tempos a vergonha da Áustria.
