A 1 de julho, a Polónia passa a presidir à UE. O principal jornal diário de Varsóvia acredita que, graças à sua bem-sucedida transformação política e económica, ela poderá ajudar a Europa a sair da crise.
A presidência polaca da União Europeia começa sob bons auspícios. Há algum tempo que a Polónia está em ascensão, faz o que tem que fazer, pelos seus próprios meios, sem recorrer aos magnatas da publicidade ou das relações públicas.
Por agora, tudo está bem. Mas, com a campanha eleitoral para as legislativas (em outubro), bastará a mínima coisa para que os órgãos de comunicação social europeus, embora bem-intencionados, comecem a desenterrar estereótipos acerca da “desordem à moda polaca”. Para além das questões técnicas, a Polónia tem que gerir as suas alianças e cuidar das suas relações com o Parlamento europeu.
Se o governo polaco pretende dar um sentido à sua presidência, precisa de refletir sobre a marca que esta poderá deixar. A presidência belga (entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2010) deixou uma boa impressão apesar de a Bélgica não ter governo! Tratou de questões difíceis, com negociações árduas, como o problema das patentes.
Não falta espaço para ideias grandiosas, pois os problemas que a Europa enfrenta são imensos. Poderemos questionar se um país cujo PIB representa apenas 5% do da União e que ainda espera entrar no euro poderá tratar as questões económicas em pé de igualdade com os maiores? O governo polaco não pode negar as evidências: a Europa encontra-se numa encruzilhada. A periferia europeia está a ferro e fogo devido à falta de perícia económica dos últimos anos e à revolta social em risco de transbordar.
Novo contrato favorável ao Norte e ao Sul
A Polónia poderia afirmar que nada disso lhe diz respeito, pois tem uma boa prestação em termos económicos. A tentação de agir seria cada vez mais forte com a aproximação do início das negociações orçamentais, envolvendo montantes enormes. Seria mais fácil dizer aos parceiros para deixarem tudo como está e pedirem 100 mil milhões de euros aos países ricos, a título de justa contribuição (devida à adesões mais recentes, ou seja, aos países da antiga Europa de leste).
A Polónia agita a bandeira da solidariedade há anos, pedindo fundos à Europa para os novos países membros. Hoje, coloca-se o problema da solidariedade financeira para salvar os países do sul, que influenciará a solidariedade tradicional de que a Polónia beneficia. Podemos defender os nossos interesses e calarmo-nos, apostando numa sequência de acontecimentos favoráveis. Mas podemos também lançar uma “narrativa nova”, para nos tornarmos os defensores do espírito europeu e os artesãos de um novo acordo, favorável tanto ao sul como ao norte do continente.
O segundo tema é, indubitavelmente, a vizinhança da Europa. Lemos com vontade e admiração o discurso de Barak Obama sobre as mudanças no Médio oriente e no norte de África. Uma obra-prima. Apresenta a revolução árabe como sendo um capítulo novo da luta pela independência americana. Barak Obama diz aos jovens árabes que eles são como os americanos. Os dirigentes europeus deviam seguir-lhe o exemplo. Mas a Europa está cheia de dúvidas quanto a este assunto: mais próxima destas regiões, faltam-lhe garantias quanto à finalidade destas mudanças.
Importância dos próximos seis meses para a Polónia e Europa
Para a Polónia, é um desafio. Devemos demonstrar que a história da Europa não é a do domínio sobre outros continentes mas a de uma democratização bem-sucedida que, há vinte anos, estava longe de existir nas nossas regiões.
A Polónia deve apresentar a experiência da sua própria transformação e insistir na criação de um representante especial encarregue das reformas no mundo árabe. Este cargo deveria ser ocupado por um político de grande notoriedade da Europa central. Deveríamos forçar a UE a estabelecer um plano ambicioso para sustentar a transformação, incluindo a liberalização do comércio e auxílio financeiro, mas assegurar também a sua participação no estabelecimento de instituições de um Estado de direito, de órgãos de comunicação social independentes, em suma, de todos os mecanismos que contribuíram para o sucesso da nossa transformação.
É a opinião pública, os media e os analistas, e não os responsáveis europeus, quem dará o veredicto final sobre o sucesso da presidência polaca. Todos se lembram do discurso de Tony Blair no Parlamento europeu, em 2005. Foi aplaudido, até, por deputados a quem agradava pouco. O Primeiro-ministro Donald Tusk deve seguir esta pista, falar da visão que tem para a Europa e não dos aspetos técnicos da presidência.
Os próximos seis meses serão mais importantes do que pensamos para a Polónia na Europa. Diz-se que um país só é membro da união depois de a ter presidido. Os Romanos pensavam que só os ricos sabem olhar para a realidade com coragem. Na União europeia, os principiantes refugiam-se muitas vezes num programa mínimo, para evitar revezes. Geralmente, nada de especial fica para a história. A Polónia tem que demonstrar que, embora principiante, tem consciência da sua força e do seu valor.