Irracional, um absurdo sentimental – e natural. Não só a monarquia britânica sobreviveu ao século XX, como ainda é a base da nação, escreve com deslumbramento o muito tradicionalista Daily Telegraph, na véspera do casamento do futuro Rei.

Há quase exatamente 100 anos, as cabeças coroadas da Europa reuniram-se em Londres para a coroação do Rei Jorge V, avô da Rainha Isabel II. Apesar da magnificência da ocasião, muitos observadores perspicazes acreditavam que o sistema de governação ali exibido não tinha viabilidade para passar do século XX.

O dramaturgo George Bernard Shaw desdenhou da monarquia, considerando-a uma "alucinação universal", que em breve desapareceria. H.G.Wells, escritor radical, advertiu que a monarquia tinha tanta possibilidade de sobrevivência "como o Lama do Tibete de se tornar Imperador desta terra".

Estas previsões pareciam perfeitamente razoáveis. No início do século passado, as antigas monarquias da Europa eram feudais, despropositadas e completamente fora de sintonia com o espírito democrático da época. Aliás, os críticos estavam prestes a ver brutalmente provado o seu ponto de vista. Poucos anos depois da coroação de Jorge V, muitas das grandes dinastias foram destruídas. O arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, foi morto a tiro em Sarajevo, ao lado da esposa, apenas três anos mais tarde. O primo do Rei, o Kaiser Guilherme II, foi votado ao exílio, no final da Primeira Guerra Mundial. Os Romanov, na Rússia, foram assassinados.

Os Windsor tiveram sempre um instinto preciso

No meio desta carnificina, porém, a Família Real britânica sobreviveu. Houve momentos difíceis, de que a crise da abdicação de 1936 e a convulsão popular que se seguiu à morte de Diana, Princesa de Gales, em 1997, se revelaram os mais ameaçadores. Mas a monarquia resistiu – e poucas vezes pareceu mais forte do que esta semana, à medida que se aproxima o casamento do príncipe William e Catherine Middleton. Por isso, é importante colocar a questão: o que explica a sobrevivência do que parece, à primeira vista, um anacronismo?

Parte da resposta releva de um pragmatismo inteligente. É vulgar dizer-se que os Windsor são estúpidos. Mas na verdade, eles tiveram sempre um instinto preciso sobre quando e como se adaptar. Os modernos monarcas britânicos fizeram compromissos, seja cedendo às pressões e pagando impostos sobre os rendimentos (como a Rainha faz desde 1993), ou concordando, como na semana passada, em encarar uma alteração às leis da sucessão de modo a refletir as noções contemporâneas de igualdade de género (embora uma tentativa de permitir o casamento com católicos na Família Real tivesse sido abandonada por objeções da Igreja de Inglaterra).

No entanto, essas táticas políticas, por mais astutas, não chegam para explicar o forte carinho que o povo britânico manifesta em relação à monarquia. Somos um país que valoriza os rituais, a tradição, os costumes. Temos um orgulho profundo do nosso passado, frequentemente glorioso, por vezes trágico e episodicamente vergonhoso. A monarquia é a expressão nacional da nossa reverência comum por essa experiência.

Mas a relação entre a Rainha e os seus súbditos vai mais fundo. Isso porque a monarquia não se limita a definir-nos como uma nação: define-nos como indivíduos. O nosso respeito e carinho pela Rainha estão enraizados no nosso inconsciente coletivo.

Monarquia funciona porque humaniza

É irracional. É sentimental. É absurda. Por vezes é completamente tola. E no entanto, a monarquia funciona. Porque humaniza aquilo que, de outra forma, poderia parecer distante e impessoal. As pessoas que consideram muito difícil aderir a uma lei do Parlamento, uma diretiva de Bruxelas, um jurista ou um secretário permanente (tudo peças essenciais da governação), sentem empatia com a Família Real. Partilhamos as suas tragédias, alegrias e dramas familiares.

Apenas um grupo fica de fora: os intelectuais. Sejam de esquerda ou de direita, sempre desprezaram a instituição da monarquia. Não há maneira de ela alguma vez caber nos seus grandiosos esquemas abstratos de transformação da sociedade. Tony Benn, o mais distinto republicano da Grã-Bretanha, costuma perguntar se depositaríamos a nossa confiança num comandante de voo ou num médico hereditários. Não há resposta para esta pergunta. A instituição é ilógica.

Mas isso não significa que a monarquia não tenha um propósito. Pelo contrário: ela ocupa o espaço público que de outro modo seria tomado por partidos políticos rivais. A alternativa à Rainha, como chefe de Estado, seria provavelmente uma Thatcher ou um Tony Blair, ambos divisionistas e faccionais.

A presença de uma Família Real no centro dos assuntos nacionais é uma das principais razões para a extraordinária estabilidade política da Grã-Bretanha nos últimos 200 anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor socialista George Orwell reconheceu-o, quando observou que a presença da realeza tinha ajudado a salvar a Grã-Bretanha do fascismo, durante a crise dos anos trinta.

Quando a Rainha falecer, os republicanos voltam ao ataque

A esquerda intelectual (e a extrema-direita) não consegue lidar com estas verdades básicas. Daí que, à medida que se aproxima o dia do casamento, uma parte da imprensa – liderada pelo Guardian e pelo Independent – tenha procurado, nas últimas semanas, lançar uma carga de zombaria e maledicência sobre a Família Real.

A maior parte do que foi dito é demasiado reles e ofensivo para ser repetido. Algumas intervenções revelam um egocentrismo ridículo – como um desagradável artigo, cheio de desprezo e injúrias, de Joan Smith no Independent, em que se queixava com azedume que "a Rainha uma vez fuzilou-me com o olhar quando lhe disse 'Olá' e não lhe fiz vénia”.

Mas há alguns elementos sinistros. The Guardian desenvolveu um plano de aula sobre a monarquia para professores, apoiado em slides de PowerPoint, a ser utilizado nas escolas, antes do grande dia. É flagrante propaganda antirrealeza e o autor não tem pejo em declarar o seu objetivo: "O PowerPoint transmite [aos alunos] o vocabulário, a informação e o estímulo para elaborarem as suas próprias ideias, preparando-os para o desafio final: deve a monarquia ser abolida?"

O casamento desta semana vai ser um grande dia, com o príncipe William e Catherine Middleton dando corpo à promessa de uma nova era, mais distendida, para a Família Real. Mas o brilho da boa vontade nacional não deve iludir o casal real. Os seus inimigos mais inteligentes compreendem que a causa republicana tem poucas possibilidades enquanto a Rainha for viva. Mas quando ela falecer, voltarão a atacar. A Família Real vai precisar de recorrer a todas as suas reservas de pragmatismo e de tranquila sabedoria, se pretende resistir para lá do século XXI.