Economia

Gripe A

Pânico, o maior custo da epidemia

publicado a Julho 21 2009  |   Libération
Grupo de executivos nas ruas da Cidade do México, 29 de Abril de 2009. (AFP)

Grupo de executivos nas ruas da Cidade do México, 29 de Abril de 2009. (AFP)

 

Governos e organizações internacionais estão preocupados com as consequências económicas e sociais da disseminação do vírus H1N1. O pânico pode ser muito mais perigoso e dispendioso do que a própria pandemia, de acordo com a análise do economista Pierre-Yves Geoffard.

Quanto vai custar a epidemia de gripe mexicana e o que é pode ser feito para reduzir esse custo? O método clássico de cálculo do custo das epidemias centra-se em dois aspectos: Em primeiro lugar, nos custos “directos” dos cuidados prestados às pessoas doentes: consultas, tratamentos, internamentos. Estes custos dependem do número e da gravidade dos casos. 

Em segundo, nos custos “indirectos” decorrentes da própria doença: perda de produtividade por baixa ou morte prematura e, mais difícil de calcular, perda de qualidade de vida provocada pelo sofrimento causado às pessoas infectadas. Este aspecto é responsável pela totalidade dos custos numa série de doenças. Mas tratando-se de uma doença infecto-contagiosa, dá-nos apenas uma visão parcial da situação geral.
 
Durante uma epidemia, embora o número de casos possa ser insignificante, a reacção das pessoas é geralmente rápida, em massa e perturba seriamente a economia.
 
Se fosse suficiente contabilizar o total dos recursos destinados à vacinação, o exercício seria relativamente simples. Mas o custo da prevenção tem de incluir igualmente o total dos custos decorrentes da mudança de comportamentos individuais que o medo da doença provoca. Durante uma epidemia, embora o número de casos possa ser insignificante, a reacção das pessoas é geralmente rápida, em massa e perturba seriamente a economia. A epidemia de SRAS (síndrome respiratória aguda grave) que, em 2003, assolou uma série de países asiáticos (e, por arrasto, o Canadá) é um caso muito elucidativo. Os dados da OMS, no final, contabilizaram 8096 casos de infecção, dos quais 774 mortais. O custo directo e indirecto do surto de SRAS foi quase insignificante para estes países. Em contrapartida, o medo da epidemia provocou reacções individuais consideráveis, muitas vezes alimentadas por rumores infundados: cerca de 10% da população de Pequim refugiou-se nos arredores da capital; os locais turísticos, as exposições e os hotéis de luxo registaram uma baixa de actividade na ordem dos 80%; os transportes colectivos, agências de viagens e restaurantes registaram quebras entre os 10 e os 50%. Estima-se que, nos países mais afectados (Hong-Kong, Singapura, Taiwan), a quebra acentuada da procura de serviços provocou um decréscimo de 1 a 2% do PIB.
 
A história irá ser diferente. Mas é quase certo que nas próximas semanas, talvez a partir de Setembro, a epidemia de gripe mexicana (H1N1) ataque em força os países do Norte. As pessoas vão tentar não contrair a doença, mesmo correndo o risco de pecar por excesso de prudência. As empresas vão activar um "plano de desenvolvimento da actividade” pedindo aos seus funcionários que trabalhem a partir de casa. Inúmeras viagens turísticas ou de negócios vão ser canceladas ou adiadas. Os transportes públicos vão ficar desertos, privilegiando-se o veículo privado. Não vai haver concertos nem exposições. Os restaurantes vão ficar vazios... Em suma, mesmo que o número de casos graves seja relativamente baixo, as reacções individuais, pouco coordenadas, arriscam-se a infectar profundamente o desenvolvimento económico e a afectar o tecido produtivo. A antecipação das perturbações pode inclusivamente provocar uma quebra no investimento e nos importantes movimentos de capitais internacionais: o México já testemunhou uma queda brutal do peso.
 
No entanto, estes comportamentos de pânico poderiam ser evitados, nomeadamente pela divulgação transparente de informação objectiva. Não esconder nem exagerar nada: a credibilidade das mensagens em matéria de saúde pública é essencial para se evitar que, sob o efeito de rumores algo infundados e de comportamentos de pânico, uma epidemia sem real gravidade venha acrescentar uma crise à crise actual.

Pierre-Yves Geoffard
 
NÚMEROS
10 650 doentes na Europa

No passado dia 11 de Junho, Margaret Chan, directora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciou a entrada no nível 6 de alerta, perante a progressão do vírus H1N1, oficializando assim a "primeira pandemia do século XXI".  Na União Europeia, o  Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças , sedeado em Estocolmo, divulga oficialmente 10 649 casos de gripe A. Na Grã-Bretanha, o país europeu mais afectado, o Serviço Nacional de Saúde britânico  registou 29 mortes, das 589 vítimas em todo o mundo. O Ministro da Saúde britânico considera igualmente que, a confirmar-se a actual tendência, o país será confrontado diariamente com 100 mil novos casos  de gripe até final de Agosto. Perante estas previsões, os economistas interrogam-se sobre o impacto da gripe na economia. Num estudo publicado no passado dia 17 de Julho, o Oxford Economics prevê que a pandemia irá atrasar a recuperação económica mundial entre um a dois anos, anuncia o  Monde.

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