Apesar da recente vaga de otimismo em relação à Europa no outro lado da sua fronteira não oficial com a Moldávia, os cerca de 350 mil habitantes da região separatista da Transnístria querem integrar a Rússia. Mas o seu pensamento foi moldado por décadas de repressão.
Desde a sua separação da Moldávia, no início dos anos 1990, a política oficial da “República Moldava da Pridnestrovia” favorece o seu reconhecimento como país independente e, depois, a integração na Rússia.
A revolução na Moldávia em abril de 2009, que abriu caminho ao primeiro-ministro liberal, Vlad Filat, e à sua Aliança para a Integração Europeia para mais tarde retirar poder ao Partido Comunista, tem impulsionado as perspetivas da sua integração na UE, e libertou uma onda de otimismo sobre o futuro da Moldávia entre os jovens, as elites intelectuais e os empresários.
No entanto, as mudanças na Moldávia têm tido pouco impacto na Transnístria, cujos cidadãos comuns, bem como o clã que lidera a região, ainda apostam na Rússia para o seu bem-estar.
Em entrevista ao EUobserver na capital da Transnístria, Tiraspol, Sergey Shirokov, um antigo responsável do "Ministério dos Negócios Estrangeiros" da Transnístria que agora dirige uma ONG semi-independente, a Mediator, disse que a opção pela Rússia está profundamente enraizada no coração e na mente da população. "De certa forma, a memória histórica tem influência na forma como a região se desenvolve ", afirmou. "A Transnístria esteve sempre sob o domínio da Rússia e uma história comum tão rica tem impacto sobre a situação atual".
Símbolos da era soviética não são vistos como sinal de opressão
A panóplia de símbolos da era soviética na rua principal de Tiraspol, incluindo uma grande estátua de Lenine, não é vista como sinal da opressão russa, e acrescenta: "Eu sou um filho da União Soviética e, mesmo não tendo sido democrática, respeito os seus símbolos. Não são símbolos do estalinismo, mas de um país que existia antes de Estaline e continuou a existir depois dele, representam a vida dos meus pais e dos meus avós. Foi toda a vida deles.”
O "presidente" da Transnístria, Igor Smirnov, um tenente soviético transformado em gerente de fábrica, veio para Tiraspol em 1987 e, alguns anos mais tarde, liderou a região numa guerra para a separação da Moldávia, também uma antiga república soviética.
Nascido na Sibéria, agora com 70 anos de idade, vive atrás de fronteiras militarizadas com a Moldávia e a Ucrânia. Gosta de nadar de manhã, de caçar e de conduzir depressa. Administra a Sheriff, uma empresa responsável por quase toda a atividade económica na Transnístria, incluindo supermercados, televisão e Internet por cabo e o clube de futebol local. O seu diretor dos serviços de informação, um chefe de polícia da antiga União Soviética, na Letónia, Vladimir Antufeyev, mantém um controlo apertado sobre os dissidentes.
Aquecimento mais barato e pensões superiores
A ligação da população da Transnístria à Rússia não é afetada pelo facto de o Kremlin se recusar a reconhecê-la como país ou a integrá-la. A situação, que inclui a presença de cerca de 1300 soldados russos na região, é um grande incómodo nos esforços de adesão da Moldávia e da Ucrânia à UE. Entretanto, a empresa pública de energia da Rússia, Gazprom, alimenta a Transnístria com gás gratuito, no valor de milhões de euros por ano. A região está ainda mais degradada do que a Moldávia, o país mais pobre da Europa, mas a população tem aquecimento mais barato e pensões melhores do que na Moldávia.
As duas décadas do regime de Smirnov deixaram a sua marca na sociedade da Transnístria. A maioria das pessoas está mais interessada em conseguir um emprego na Sheriff e levar uma vida tranquila do que nas mudanças na Moldávia.
Gregory Volovey, um jornalista independente da cidade de Bender, realçou a influência da máquina de propaganda anti-UE: "Os meios de comunicação públicos retratam a Transnístria como uma espécie de fortaleza. Uma fortaleza para proteger a Rússia, ou mesmo uma fortaleza para proteger a Moldávia de ser ultrapassada pela Roménia. Quando as pessoas pensam no Ocidente, pensam na Roménia e nos territórios de expansão da UE como um lugar onde os EUA podem colocar os seus mísseis."
Questionado sobre a hipótese de haver na Transnístria uma revolução do tipo da ocorrida na Moldávia, afirma que "não. Não... Smirnov é como Castro. Sobreviveu a Voronin [antigo líder comunista da Moldávia] e, provavelmente, irá durar mais que Putin”.
"A UE não está a fazer nada para ser apreciada aqui", acrescentou, observando que até mesmo um micro projeto, como o de um sistema financiado pela UE para cuidar dos muitos cães vadios de Bender, pode fazer a diferença.
UE encarada como uma ameaça à segurança
O antigo colaborador de Smirnov, Shirokov, que raras vezes se pronuncia, também deu uma perspetiva do que Tiraspol pensa sobre as relações com a UE. Afirmou ser uma das "cinco ou dez" pessoas na Transnístria que compreendem como a UE funciona ou que já ouviram falar da responsável pelas relações exteriores da UE, Catherine Ashton. Fez notar que Tiraspol deseja ter melhores relações económicas com a União, mas as políticas da UE encaram a Moldávia e a Transnístria como uma só entidade, ignorando a realidade da situação de facto.
Numa nota mais sombria, declarou que Tiraspol vê a UE como uma ameaça à segurança: "As pessoas percebem que a UE e a Rússia estão em concorrência, e que se escolherem a Rússia como parceiro estratégico, verão a UE como uma ameaça”.
Quando interrogado sobre se Smirnov se preocupa com o bem-estar do seu povo, Shirokov respondeu que a força, por si só, não pode mantê-lo no poder: "Ele não tem opção. Mora aqui... Temos muitos problemas – e as pessoas percebem tudo. Precisamos de reformas nos sistemas político e económico. Sim, as autoridades podem construir uma vedação [em torno de si mesmas]. Mas se o fizerem, falharão. Se as autoridades construírem uma cerca, o povo ficará zangado e obrigá-las-á a sair, ou então serão as próprias pessoas a deixar o país”.
