A 14 de setembro a Comissão Europeia anunciou que poderia abrir um processo de infração contra a França por causa da sua política de expulsão dos ciganos. Uma decisão elogiada pela imprensa europeia.

A Comissão Europeia deverá levar, brevemente, a França perante o Tribunal de Justiça Europeu. “A Comissão recebeu garantias políticas de que nenhum grupo étnico específico seria um alvo”, explica no Libération Viviane Reding, a comissária encarregue da Justiça e dos Direitos dos Cidadãos. Ora, uma circular ministerial sobre os ciganos, revela a imprensa francesa, contradiz tais garantias e levou Bruxelas a apresentar queixa contra Paris. Se o Tribunal der razão à Comissão, “a França poderá ser obrigada a corrigir a situação ou a pagar uma indemnização, apesar de tal coisa ser rara”, explica o Público, que precisa que todo este processo poderá levar anos.

Neste “processo acima de tudo político”, Paris não pode contar com o apoio de nenhum Estado membro, lembra o Frankfurter Allgemeine Zeitung. O diário alemão afirma que “não é só o poder dos tratados da UE que está em jogo”, mas também “a interpretação da dignidade humana de cada um dos cidadãos da União, porque a Comissão não permitirá a mínima dúvida quanto ao facto da UE se reger por um modelo de respeito pelos Direitos do Homem”.

Em Madrid, El País afirma que “a Comissão Europeia tenta responder à inação de Barroso” e à sua “dececionante complacência” sobre a questão da expulsão dos ciganos pela França. Para este diário, a decisão anunciada por Viviane Reding lembra que “o populismo eleitoralista à custa das minorias tem limites na União Europeia”. O executivo de Bruxelas “salva a sua dignidade” e a iniciativa da Comissão deverá marcar “uma inflexão na rejeição das medidas populistas adotadas nos últimos anos pelos Governos dos Estados-membros”, espera o diário.

“A França desonrou-se”, exclama, por seu lado, o Gazeta Wyborcza. “Nem a França nem nenhum outro país, igualmente influente, ouviu, alguma vez, tais acusações vindas da Comissão que, até agora, tudo fez para não irritar Paris”, sublinha o diário de Varsóvia. Mas “condenar a xenofobia não é suficiente, é igualmente necessário atacar a má integração das comunidades ciganas nas sociedades europeias”.

O ataque de Reding terá tido apenas como alvo os ciganos?

“É muito reconfortante ver a força com que Viviane Reding ousa criticar um Estado-membro tão grande e poderoso como a França”, constata o Dagens Nyheter. Mas o diário sueco pergunta-se se “o ataque de Reding diz unicamente respeito à situação dos ciganos. Ao longo dos anos”, lembra o jornal, “o poder da Comissão diminuiu e os chefes de Estado atuaram cada vez mais segundo a sua própria vontade. Se a Comissão quer defender a possibilidade de intervir e forçar os Estados-membros – seja qual for a sua importância – a respeitarem as leis da UE, este é o momento certo para o fazer”.

“Basta!”, escreve, em Bucareste, o Adevărul, espantando-se com o facto de “o verdadeiro teste de resistência dos fundamentos da UE não estar no abismo orçamental grego, português ou espanhol, mas nos decrépitos acampamentos de cartão dos ciganos que trocaram a Roménia pela França”. “Mas de onde vem tanta cólera?”, por parte de Viviane Reding. “Talvez do facto da hipocrisia escondida por trás dos 300 euros [a soma dada às famílias ciganas que partem voluntariamente] reaparecerem as ideias políticas de há 70 anos, ou porque amanhã, podemos ser expulsos por Paris só porque temos um passaporte romeno ou porque nos sentamos na relva.”

No entanto, garante Le Figaro, “Paris não tem que ter a mínima ‘vergonha’, apesar do que diz a comissária Viviane Reding. Se as instâncias da União não estivessem tão pouco preocupadas com a sorte de 10 ou 12 milhões de pessoas que os seus países se recusam sistematicamente a integrar e que deambulam pela Europa, não estaríamos assim”. O diário conservador acrescenta que “ao seguir o exemplo dos que traçam paralelismos absurdos com a exterminação dos judeus pelos nazis, a Comissão não vai melhorar a imagem, já de si infelizmente pouco gloriosa, que dela têm os franceses. Ao preparar-se para apresentar uma queixa por infração contra a França, a equipa de Durão Barroso ateia o fogo de um debate bastante doentio e favorece as reações mais extremistas”.