Energia: Tomemos a Bastilha Petrolífera!
14 julho 2010
Frankfurter Rundschau
Frankfurt

A plataforma Deepwater Horizon, depois da explosão de 20 de abril de 2010.
Ninguém sabe quando será resolvida a catástrofe ao largo da Luisiana. Entretanto, devemos voltar-nos para o sol e fazer uma revolução energética, defende o sociólogo alemão Ulrich Beck.
Perante a maré negra provocada pela plataforma Deepwater Horizon, uma das maiores catástrofes ambientais da história dos Estados Unidos, porque não se assiste a um assalto contra a Bastilha ecológica das grandes companhias petrolíferas? Porque não se reage aos problemas mais urgentes do nosso tempo – a crise ecológica e a alteração climática – com a mesma energia, o mesmo idealismo e o mesmo espírito democrático que às tragédias passadas de miséria, tirania e guerra? A situação da indústria petrolífera recorda o Antigo Regime pouco tempo antes da queda (séc. XVIII). A catástrofe no Golfo do México envolve várias verdades. Há a negligência e a indiferença da BP. Mas também o malogro da tutela estatal. É demasiado fácil atirarmo-nos hoje apenas à BP. A Deepwater Horizon é o símbolo da derrota insidiosa de uma experiência mundial, um modelo de crescimento que repousa sobre a exploração de recursos fósseis. Ninguém pode dizer que não sabia. Há 200 anos que o fogo e o vapor fazem mover máquinas e motores. Entretanto, já toda uma geração cresceu sabendo que uma indústria baseada em combustíveis fósseis consome as suas próprias fundações.
"Transformemos os desertos em fontes de energia solar!"
Há mais de um século, Max Weber tinha antecipado este fim do capitalismo petrolífero com a imagem: “Até que seja queimado o último quintal de combustível fóssil”. Porque deveria um mundo ao qual o sol fornece diariamente muito mais do que a energia que lhe é necessária, sem custos e sem risco de se esgotar, aceitar nuvens de petróleo a 1500 metros de profundidade que asfixiam todas as formas de vida? A capacidade de inovação, tão elogiada pelo capital, e a exaltação utópica da engenharia têm certamente aqui um desafio. “Espadas por charruas” era a divisa do movimento pacifista [retirada do Antigo Testamento, Isaías 2:4]. A do movimento ecológico é: transformemos os desertos em fontes de energia solar! Perante esta catástrofe de longo prazo que se anuncia e ameaça a segurança da população norte-americana, bem como a sobrevivência política do Presidente, Obama declarou “guerra” ao inimigo sombrio das profundezas. É o reflexo do malogro do pensamento militar na sociedade do risco global, onde os maiores perigos para o homem não vêm do exterior, de Estados hostis, mas do interior, daquilo a que chamam “consequências invisíveis” das atuações na economia, na ciência e na política. O que pensa, então, fazer o “comandante-chefe”? Enviar a sua frota de submarinos para torpedear a fuga de petróleo? Na sua “guerra contra o petróleo que se está a derramar”, não devia Obama responsabilizar agora a Grã-Bretanha, na qualidade de alegado país de origem, por este “ataque” catastrófico, tal como George Bush Jr., na “guerra contra o terrorismo” responsabilizou os Estados que dizia apoiarem redes terroristas a operar a nível internacional?
Aliás, há já muito tempo que a BP foi apanhada pelo destino da globalização. A British Petroleum não é britânica. Em 1998, o grupo fundiu-se com o gigante norte-americano do petróleo, a Amoco, e, perante a crescente tomada de consciência ecológica, retirou o adjetivo “British” e substituiu-o pela pequena palavra-chave sinónima de esperança verde, “beyond” (“para lá de”), para que, a partir de então, a sigla BP significasse “Beyond Petroleum”, para lá do petróleo. Quem acredita ter agora apanhado a “British” Petroleum em flagrante delito devia saber que se trata, na verdade, de um grupo também norte-americano, cuja plataforma foi construída por coreanos e que declara os seus impostos ao Ministério das Finanças da Confederação Helvética, em Berna (“BP” quer, pois, também dizer “Berna Petroleum”). Da mesma forma que a catástrofe nuclear de Chernobil foi apresentada como o malogro de um reator “comunista”, a catástrofe da Deepwater Horizon é apresentada agora como “britânica”. O comandante-chefe da maior potência militar do mundo precisa – segundo as suas próprias palavras – “de um rabo para açoitar”.
O início de uma era para além do petróleo
A prosperidade do pós-guerra no Ocidente criou as condições necessárias para o aparecimento de uma consciência ambiental. Esta deve agora dar à luz as condições necessárias para a prosperidade nos países em desenvolvimento. Esses países instaurarão uma política duradoura na medida em que os países ricos invistam no seu desenvolvimento e dotar-se-ão de uma nova visão de riqueza e de crescimento em busca de outra globalidade. A China, a Índia, o Brasil e as nações de África não aprovarão nenhuma abordagem internacional que pretenda impor limites ao seu desenvolvimento económico – e com razão! A política ambiental deve resumir-se a um tráfego de indulgências mundiais por pecados carbónicos que traem as contradições do planeta? Ou deve antes encarnar a coragem de inventar uma nova corrente em prol da energia solar, onde a prosperidade não é um pecado ecológico e onde todos, das vacas às escovas de dentes elétricas, serão julgados em função do seu balanço de emissões de carbono? Obama tinha gloriosamente anunciado à nação e ao mundo: “É chegado o momento de adotar energias mais limpas”. Poderia, pois, começar o assalto à “Bastilha do Petróleo” (BP), a fim de entrar numa nova era, a que fica efetivamente para lá do petróleo e da “Beyond Petroleum” (BP).