Política Estados-membros

Crise : Madrid (ainda) não é Atenas

17 junho 2010
El Mundo Madrid

Fila de espera num centro de emprego em Madrid, a 30 de Abril de 2010

Fila de espera num centro de emprego em Madrid, a 30 de Abril de 2010

AFP

O rumor circula desde o início da semana: Espanha poderá, em breve, pedir ajuda aos parceiros europeus para combater a dívida e a especulação. O Governo tenta transmitir segurança, mas a pressão continua forte.

Quando já caminhava para o abismo, em Dezembro de 2009, o prémio de risco por investir na Grécia – o diferencial do bónus grego para o alemão – chegou aos 226 pontos básicos. Crescia então a desconfiança dos mercados para com a economia grega, que acumulava baixas de qualificação de falência. Esse prémio de risco é o mesmo que existe agora [233 pontos a 17 de Junho], passados seis meses, na economia espanhola, depois de, nos últimos dias, ter atingido recordes. 

As medidas que o Governo espanhol está a tomar são consideradas insuficientes para assegurar, ao mesmo tempo, a sustentabilidade das contas públicas e uma saída vigorosa da crise. Por isso, aqueles a quem María Teresa Fernández de la Vega [vice-primeira-ministra] ontem chamou “especuladores” apostam num desfecho semelhante ao da Grécia. Por outras palavras, crêem que Zapatero acabará por pedir o resgate e aceitar recorrer ao fundo europeu criado pelos líderes do euro com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para garantir o pagamento da dívida. Fernández de la Vega e Elena Salgado [ministra da Economia] negaram-no ontem e garantiram que Espanha está “a cumprir os seus deveres”.

É assim que o próprio primeiro-ministro qualifica o pacote de medidas que leva hoje para a Cimeira europeia. O corte acelerado do défice público inclui baixa de salários dos funcionários públicos e o congelamento de pensões; uma reforma laboral que, apesar de considerada light pelos empresários e pelos mercados, representa um grande dissabor ideológico para o Chefe do Governo; e o endurecimento do sistema de pensões.

 

Medidas impensáveis há apenas seis meses

Como a cereja no topo do bolo, o Governador do Banco de Espanha, Miguel Ángel Fernández Ordóñez, deu ontem, a tempo da cimeira, o sinal que faltava: o Banco de Espanha considera encerrada a reestruturação do sistema financeiro. Além disso – cumprindo o guião avançado por Zapatero na quinta-feira –, confirmou que publicará os chamados testes de stresse que o corroboram. Tal seria impensável há seis semanas, mas os mercados desconfiam de qualquer sugestão de Zapatero, como seja a decisão de tramitar a reforma laboral como projecto de lei. O mesmo sucede com os líderes do euro. A própria Comissão Europeia – que não desejaria outra coisa senão elogiar o Governo, para que os mercados se afastassem de Espanha e, por consequência, do euro – viu-se obrigada a manter a pressão sobre Zapatero, exigindo-lhe medidas adicionais de ajuste. 

Enquanto isso, há banqueiros que se perguntam se não seria melhor pedir, voluntariamente, o fundo de resgate, por mais duro que seja o ajuste da troca, para se conseguir reabrir os mercados. E o próprio director do FMI, Dominique Strauss-Kahn, chega amanhã a Madrid em “visita de trabalho”, para conhecer as medidas do Governo. Espanha não é a Grécia, mas está a ser cada vez mais vigiada.