150 anos depois da sua morte, o chefe da diplomacia do Império austríaco continua a ser politicamente incorrecto. Apesar disso, com o Tratado de Lisboa, os 27 recrearam o projecto que ele pusera em marcha na Europa, escreve o diário checo Lidové Noviny.

Teme, que com a ratificação do Tratado de Lisboa, as grandes nações se entendam entre elas e passem por cima dos interesses das pequenas? Que a Europa, sob a batuta dos grandes, seja apenas um concerto de grandes potências? Recordemos pois, o Príncipe de Metternich, o homem que mostrou as forças e fraquezas de tal política.

É muito surpreendente que não se celebre o Ano de Metternich, quando 2009 foi proclamado Ano de Darwin. Festejamos Darwin por duas razões – nasceu em 1809 e publicou a sua obra-mestra em 1859: “Da Origem das Espécies”. Estes dois anos são igualmente simbólicos no que toca a Metternich: tornou-se ministro austríaco dos Negócios Estrangeiros em 1809 (chefe do executivo de facto e depois Chanceler do Estado), e morreu a 11 de Junho de 1859. Jaz no túmulo da família em Plasy, no Oeste da Boémia.

O Príncipe de Metternich permanece na memória como o pai da Europa pós-napoleónica do Congresso de Viena, como inspirador da ideia de ‘concerto das grandes potências’ e como o fundador da Realpolitik – que coloca o equilíbrio dos interesses e a estabilidade do poder acima da moral. Apesar de ser verdade que quando ouvem o termo ‘Realpolitik', os europeus modernos ‘apertam o nariz e tapam as orelhas', ninguém pode contestar que a Europa de Metternich funcionou durante quase 100 anos – das guerras napoleónicas até à Primeira Guerra Mundial. E apesar de o seu autor ter morrido há 150 anos, o pensamento político de Metternich sobrevive até hoje e revela-se frequentemente vanguardista.

Quando no ano passado, em Setembro, o ex-primeiro-ministro Mirek Topolanek lançou a campanha para a Presidência checa do Conselho da Europa, pronunciou nomeadamente as seguintes palavras: “In varietate concordia– a unidade na diversidade. É a divisa da União Europeia, mas igualmente a minha visão da acção da República Checa na Europa. Os Estados Unidos têm sensivelmente a mesma divisa: E pluribus unum– Um a partir de vários”. De facto, esta divisa é também a de Metternich, que recusou as ambições parcelares em proveito do equilíbrio e da estabilidade supranacionais. Por conseguinte, porque não saudar esta inspiração, porque não apontar o seu autor?

Cento e cinquenta anos após a sua morte, Metternich permanece o símbolo do pensamento reaccionário e do obscurantismo. É verdade que Metternich tinha horror a mudanças, revolucionárias e liberais. Não se pode, contudo, ver nessa atitude uma fixação incondicional a tudo o que esteja ligado com o passado. Metternich tinha simplesmente medo – e a história deu-lhe razão – que o modernismo fosse acompanhado de outros “ismos”: nacionalismo, socialismo, etc.

O rosto metternichiano da Europa aguentou-se meio século, antes de ser ultrapassado por nacionalismos nascidos da guerra – a guerra da Crimeia, a guerra austro-prussa, a guerra franco-prussa. A Primeira Guerra Mundial deu-lhe o golpe de misericórdia definitivo. Se consideramos que Metternich moldou o rosto do Velho Continente durante quatro gerações, enquanto o sistema de Versalhes subsistiu apenas uma geração, não é, em suma, um mau balanço.

Os adversários do Tratado de Lisboa podem ver-se como encarnando o oposto da época de Metternich e, bem assim, como “buldozer dos mais fracos”. No final, importa sobretudo saber como a nossa situação actual será apreciada em 2050. Por outros termos, quando dispusermos de recuo suficiente para dizermos se a Realpolitik trouxe mais vantagens ou mais de inconvenientes.