Espanha: BCE joga ao “quanto pior, melhor”
23 julho 2012
ABC
Madrid

Mario Draghi numa conferência de imprensa em Frankfurt, a 5 de julho de 2012
Pressão dos mercados, manifestações contra a austeridade, quase falência das regiões: o Governo de Mariano Rajoy não tem grande margem de manobra. E o Banco Central Europeu, que poderia vir em seu socorro, parece tudo fazer para propiciar um resgate global, que implicaria pôr o país sob tutela, denuncia o "ABC".
O documento com as conclusões do último Conselho Europeu contém um parágrafo que consagra o acordo para que o Banco Central intervenha, em caso extremo de crise da dívida soberana. Não se trata de uma ideia subentendida: está escrito preto no branco num papel que Rajoy leva na pasta, como se fosse um salvo-conduto moral. Por isso, o primeiro-ministro está perplexo perante os indicadores financeiros e, em privado, não para de se espantar com aquilo que considera um incumprimento flagrante. O seu aborrecimento é mais que notório; pensa que as instituições europeias não se levam a sério.
Possivelmente a esta hora, com o prémio e as obrigações no ponto de fusão, já se terá apercebido de que o problema talvez não resida tanto na falta de seriedade comunitária, e sim na intenção não declarada mas firme de forçar um resgate do Estado. A impassibilidade de Mario Draghi só pode ser estratégica; por trás dos gestos e, até, das decisões oficiais, parece existir um desígnio imperativo que condena a Espanha à intervenção formal, sob ameaça forçada de suspensão de pagamentos.
Uma situação de emergência
Se, na segunda-feira, o BCE não intervier para esfriar os mercados com uma compra massiva [hoje, o prémio de risco atingiu o máximo de 6,40%, sem anúncio de compra de obrigações espanholas pelo BCE], será porque Merkel virou o polegar para baixo em privado, enquanto, em público, o virava para cima, defendendo no Bundestag a necessidade de apoiar o nosso sistema financeiro. Com o penoso atraso dos seus erros iniciais, o Gabinete cumpriu com dificuldade a sua parte do acordo; improvisou –sim, improvisou –um ajustamento duríssimo, que encheu as ruas de manifestantes; lançou a confusão entre a sua própria base eleitoral, com novos aumentos de impostos, e preparou um orçamento ainda mais restritivo para 2013. Nada. Os mercados ditaram as regras, deitando por terra as expectativas, sem que, em Frankfurt, ninguém mexesse um dedo para travar o castigo. A desconfiança é muito mais profunda: não atinge só o Governo mas também o Estado. O conjunto do país.
Sem dúvida que há motivos para esse receio visceral. A economia sobreendividada, a resistência governamental a reduzir a estrutura administrativa, o levantamento regional contra a exigência de reduzir o défice, a falência técnica de algumas comunidades, a bandeira branca içada em Valencia, o enorme e intacto aparelho de poderes territoriais e locais. E o mal-estar civil, que mostra uma sociedade incapaz de entender a gravidade da emergência. Mas tudo isso existia, quando o Conselho Europeu, o Eurogrupo, o Ecofin e as figuras ilustres assinaram o compromisso de atuar através do único instrumento possível de política monetária. Foi um quiproquó do qual se afastou, com fria indiferença, a parte contratante da segunda parte. Pode ser que esse silêncio se torne ensurdecedor, este fim de semana, nos jardins solitários do palácio de La Moncloa; o primeiro-ministro tem 48 horas para comprovar se o –nos –abandonaram.
Traduzido por Fernanda Barão