Espanha: Em busca de um novo espírito de equipa
20 julho 2012
El País
Madrid

Uma manifestação organizada em Barcelona, à semelhança de outras grandes cidades espanholas, a 19 de julho.
A 19 de julho, várias centenas de milhares de pessoas manifestaram-se contra a política de austeridade do Governo de Mariano Rajoy. Hoje, numa altura em que é necessário um grande salto, acabou a confiança dos espanhóis naqueles que os governam, lamenta o sociólogo Fernando Vallespín.
Na legislatura anterior, já tínhamos entrado numa situação de exceção, mas aqueles que agora se encontram no Governo fizeram orelhas moucas. Então, a sua prioridade não era o país e, sim, os seus próprios interesses eleitorais. Depois de terem alcançado os seus objetivos, começaram a pôr em prática tudo quanto tinham prometido que não fariam. Se o tivessem feito de repente, logo que chegaram ao poder, talvez tivessem conseguido alguma eficácia. Mas não, o tratamento tinha que ser homeopático e não de choque, porque ainda havia alguns problemas políticos pendentes, como as eleições na Andaluzia [em março de 2012].
Por seu turno, os governantes de então só começaram a agir energicamente depois de a Europa lhes cair em cima, de forma quase literal. Nos dois casos, os interesses políticos de cada uma das partes levaram a melhor sobre aquilo que a urgência da situação exigia. O resultado foi a classe política, já de si desprestigiada, ter acabado por cobrir-se de opróbrio. Aqueles que deveriam ser a solução para estes momentos tão angustiantes são agora vistos como o problema pela população, cada vez mais cética. Já ninguém acredita em nada nem em ninguém. Nem nos políticos, nem em peritos ou tecnocratas, nem em nada que venha das elites ou de pessoas ou instituições que, até agora, gozavam de “autorictas”. Encontramo-nos na pior das situações possíveis, porque não temos em quem poder confiar.
País pária
E, pior ainda, ninguém confia em nós; da noite para o dia, passámos a ser um país pária. De repente, nós, cidadãos, tomámos consciência de que estamos sós. E o isolamento e a impotência em que vivemos conduzem ao desespero ou mesmo ao maior dos niilismos. Não há coletivo que possa viver sem futuro, sem saber que é dono do seu destino. Ainda assim, quase tudo é suportável, menos a consciência de que nos enganaram. Com a promessa de serviços públicos, que agora se verifica não serem financiáveis; com um modelo de desenvolvimento económico enganador, construído sobre o nada, que criava uma falsa imagem de prosperidade; com uma Europa que supúnhamos iria contribuir para dar poder e potenciar a nossa soberania, e não subvertê-la. Já não nos reconhecemos no modelo. Entre outras razões, porque aqueles que o sustentavam vão nus. Contudo, só temos duas opções: quebrar o modelo, rasgarmos as vestes e cairmos por completo na depressão coletiva, num país zombie e sem rumo, ou potenciar as virtudes que ainda temos – que, indiscutivelmente, não são poucas. Além disso, neste momento, apesar de sós, estamos mais unidos do que nunca. Como muito bem dizia Borges, "não é o amor que nos une, mas o pânico". E também sabemos por Hobbes que a paixão que nos leva a cooperar não é o altruísmo e, sim, o medo.
Conflito niilista ou coesão positiva
Neste momento, o nosso maior problema é de gestão, tem a ver com transformar a nossa confiança, perplexidade e ceticismo numa ação positiva; com transpor as dificuldades que nos colocam sobre a mesa para soluções efetivas. Mas, para isso, falta um projeto no qual seja possível enquadrar as linhas de atuação, distinguir o necessário do supérfluo, fazer das privações e carências de hoje expectativas claras de melhoria no amanhã. E, aí, a liderança, precisamente o bem mais escasso, é essencial.
Presentemente, os que estão no poder limitam-se a apagar fogos, de qualquer maneira, sem um roteiro para o futuro, que dê consistência à sua ação; e às bases não resta alternativa que não seja defender nas ruas aquilo que lhes tiram nos gabinetes. Falta o engaste, qualquer coisa que cimente um projeto coletivo e, pouco a pouco, restabeleça a confiança perdida. Podemos escolher entre o conflito niilista, à maneira grega, e a coesão mais positiva, à maneira irlandesa; converter o pânico em levantamento paralisador e vitimista ou em energia criativa e responsável. E, isso sim, depende de todos nós.