Budapeste, viveiro de fascistas: esta imagem, difundida na imprensa europeia por ocasião das eleições legislativas, arrepia os jornalistas húngaros. Revista de imprensa na véspera da segunda volta do escrutínio, a 25 de Abril.
Nestas últimas duas semanas, a imprensa húngara observou com divertimento, às vezes salpicado de irritação, o tratamento que os media internacionais deram à primeira volta das eleições legislativas, no passado dia 11 de Abril. Explorando um exotismo que deforma a realidade húngara, a BBC online e e a edição europeia do de The Wall Street Journal ilustraram os seus artigos com fotografias de eleitores em trajes de hussardos ou camponeses.
The Times publicou uma fotografia de neonazis, apresentando-os, sem provas, como militantes do Jobbik, o partido de extrema-direita em que se focaram as atenções fora das fronteiras húngaras. Quanto a The Guardian, precisou de três dias para corrigir um artigo que situava um dos comícios em Bucareste, capital da Roménia.
Leitores induzidos em erro
Com o decorrer dos dias, os comentadores húngaros reagiram de forma cada vez mais acalorada aos comentários que fustigavam “uma Hungria racista”, esquecendo-se de mencionar que foi o FIDESZ (de centro-direita) que ganhou a primeira volta, com 53%, e não o Jobbik, que não passou do terceiro lugar, atrás dos socialistas, com 16,7%.
É para com a imprensa da Áustria, antiga potência imperial, que os jornalistas húngaros são mais críticos. O chefe de redacção do site do semanário HVG acusa Wolfgang Böhm, enviado especial de Die Presse, de desinformar os seus leitores. Richard Hirschler contesta a afirmação segundo a qual “nenhuma força política na Hungria se opõe ao radicalismo de direita”, acrescentando: “Embora tenha havido manifestações contra a Guarda Húngara [a milícia de extrema-direita, já dissolvida], com um êxito igual ao da mobilização contra Haider na Áustria”.
Enquanto Böhm aconselha Viktor Orbán, líder do FIDESZ e futuro primeiro-ministro, a “não se apoiar no orgulho nacional e a incentivar as iniciativas privadas”, Hirschler lembra que “todas as iniciativas privadas esbarraram nos escolhos da corrupção e do sistema fiscal. Só um bom Governo e um Estado forte poderão remediar tal situação. Obrigada pelos conselhos. Mas, antes de os dar, por favor faça o trabalho de casa”.
"A esquerda liberal húngara já não existe"
No semanário Heti Válasz, o comentador Ferenc Horkay Hörcher critica Paul Lendvai, considerado um dos melhores especialistas em política húngara. Escrevendo no diário Kurier, “o caro jornalista austríaco não percebeu que o 11 de Abril significou o fim de uma época”, ironizou Hörcher. O jornalista húngaro acusa “esse guru mediático da esquerda liberal que escreve sob as cores austríacas” de basear a sua análise nas opiniões de políticos húngaros já desaparecidos da cena política e de “pôr em dúvida as opiniões dos intelectuais da esquerda liberal e do centro que ousam emitir opiniões contrárias às suas. Estes pobres cata-ventos pensam que uma maioria de dois terços [o resultado esperado para o FIDESZ a 25 de Abril] torna credível o futuro Governo”.
Horkay Hörcher nota, divertido, que Lendvai tenta “fabricar uma bandeira tricolor estritamente internacional” de três escritores célebres no Ocidente: Péter Esterházy, Péter Nádas e György Konrád. Ora, numa entrevista ao semanário de esquerda liberal, Magyar Narancs, Péter Nádas admite que se enganou “muitíssimo nos últimos anos”. “A esquerda liberal húngara autodissolveu-se, já não existe”, acrescenta o escritor.
“Se os escritores célebres se demarcassem das opiniões de Lendvai, este também lhes chamaria cata-ventos?”, interroga-se o comentador do Heti Válasz. “Fazer pressão sob a política húngara através de Paul Lendvai era uma prática corrente, mas tornou-se obsoleta em 2010.”
