Cultura e Debates

Roménia: A tentação autoritária de Victor Ponta

22 junho 2012
Revista 22 Bucareste

Bucareste, 19 de junho. O gato Motanov, mascote da revista literária Revista de povestiri, durante uma manifestação de apoio ao diretor do Instituto Cultural Romeno, H.R. Patapievici.

Bucareste, 19 de junho. O gato Motanov, mascote da revista literária Revista de povestiri, durante uma manifestação de apoio ao diretor do Instituto Cultural Romeno, H.R. Patapievici.

Titel Dragomir

Acusado de fazer cortes radicais na cultura, o Governo provocou um protesto coletivo da comunidade artística. E as comparações com as tendências autoritárias nas vizinhas Hungria e Ucrânia sucedem-se, como aponta a Revista 22.

Veni vidi vici [Vim, vi e venci]. Depois de finalmente chegarem ao poder, após uma longa e frustrante passagem pela oposição, os dirigentes políticos de Budapeste, Bucareste e Kiev [respetivamente, Viktor Orbán, Victor Ponta e Viktor Ianukovich] não partilham apenas o mesmo nome próprio, mas também escolhas, atitudes e reflexos idênticos. Parecem ter projetado os três manter para sempre as rédeas do poder nos seus países. Todos eles desencadearam campanhas de depuração e vingança. Na Ucrânia, [o Presidente] Viktor Ianukovich resolveu fácil e radicalmente o problema das próximas eleições parlamentares (previstas para outubro de 2012), prendendo de uma assentada todos os líderes da oposição, incluindo Iulia Timochenko. Na Hungria, Orbán usou a esmagadora maioria parlamentar da direita para se outorgar um controlo quase absoluto sobre a Comunicação Social – que lhe permite estrangular, pelo menos potencialmente, a liberdade de imprensa – e para alterar a Constituição, de modo a tornar muito difícil no futuro tirarem-lhe o seu brinquedo. Manobras difíceis de assimilar à democracia. Na Roménia, onde as forças de centro-direita sofreram uma derrota sem precedentes [o Partido Liberal Democrata perdeu as eleições de 17 de junho, depois de ter sido expulso do Governo por uma moção de censura, no início de maio], a esquerda, vencedora das recentes eleições municipais, avançou a passos largos, não para a urbanização das políticas aduaneiras romenas [no sentido de uma aproximação à Europa], mas para uma "orbanização" do país.

Processo de depuração

Sucedem-se os erros, equívocos e medidas antidemocráticas do novo Governo romeno, bem como o questionamento da sua competência profissional. Desde a nomeação de Ponta, em 7 de maio, vai longa a lista de pessoas qualificadas afastadas das suas funções e especialistas de primeiro plano demitidos. Tudo isto, num processo de depuração que, pela sua rapidez e crueldade, traz reminiscências da infame era estalinista. Começou pela demissão do diretor dos Arquivos Nacionais, Dorin Dobrincu. Graças a este doutorado em História, que também trabalhou no estudo do Holocausto na Roménia, os arquivos do Partido Comunista e do seu Comité Central foram completamente abertos ao público e aos investigadores. E o acesso foi garantido em moldes justos, igualitários e universais. O que não é dizer pouco. Seguiu-se a demissão da direção da cadeia de televisão pública e, agora, reina a incerteza sobre o destino dos dirigentes do Instituto Cultural Romeno. A 13 de junho, a comissão diretiva daquela instituição, há muitos anos dirigida na perfeição pelo filósofo Horia Roman Patapievici, foi colocada por decreto sob a tutela do Senado (anteriormente, era tutelada pelo Presidente da República). A lista de vítimas desta guerra contra a competência recentemente declarada em Bucareste dá a impressão de que, estimulado pelas medidas anémicas adotadas por Bruxelas contra o primeiro-ministro húngaro, o seu homólogo romeno não se irá contentar apenas em "orbanizar" a Roménia: o instinto de vingança de Ponta pode levá-lo muito mais longe. Ávidos de poder, mas também obcecados com a conservação do mesmo, Victor Ponta e os da sua estirpe parecem determinados em atacar significativamente a democracia. Adotando todos os erros flagrantes cometidos durante a restauração comunisto-autoritária em Kiev [pelo Presidente Viktor Ianukovich], em contravenção com as aspirações e interesses a longo prazo das suas próprias nações. A fatura será em breve apresentada aos romenos, com uma deterioração galopante da imagem do país e o seu isolamento dentro e fora da União Europeia.