A crise da dívida grega não só minou o euro como pôs a nu as falhas dos princípios fundadores da moeda única. Com os 27 países da UE reunidos em Bruxelas a 22 Março, Robert Skidelsky defende que um mercado comum sem um Governo comum não funciona.

Desafios dramáticos e respostas medíocres: eis a história da União Europeia. Só muito raramente a UE se tem revelado à altura dos acontecimentos, razão pela qual a Europa se está a afundar económica e geopoliticamente.

O Tratado de Roma de 1958, que instituiu a Comunidade Económica Europeia, representou o grande salto em frente da Europa. Mas a decisão de criar um mercado comum sem um Governo comum apenas criou um foco de problemas para o futuro. Desde então, tudo – o alargamento para 27 Estados-membros e a criação de uma Zona Euro de 16 membros – alargou o fosso entre a retórica e a realidade. A Eurolândia avançou com promessas muito superiores às que a sua história lhe permite cumprir.

A crise financeira grega é o exemplo mais recente deste fosso. Na origem está uma crise de "alargamento", neste caso, a ampliação da Zona Euro. Através de um esforço inaudito de disciplina fiscal nos anos 1990 – auxiliado, na Grécia, por uma contabilidade "criativa" – Portugal, Itália, Grécia e Espanha conseguiram atingir os critérios de adesão em 2002. Uma vez no euro, porém, libertaram-se da pressão. A maioria dos países mediterrânicos manteve hábitos de grande consumo, confiando em que os mercados não os chamariam à pedra.

Agora, Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, disse "Basta!". Advoga a criação de um Fundo Monetário Europeu (FME), para fornecer empréstimos de emergência aos países em risco de incapacidade de cobertura soberana da dívida. Tais empréstimos seriam acompanhados de "preços proibitivos", "condições muito apertadas" e "penalizações incontornáveis" em caso de incumprimento. Traduzido em linguagem comum, isto significa que as finanças de um país a quem fosse concedida ajuda do FME seriam fiscalizadas, durante uns tempos, por comissários estrangeiros.

 Euro pode desintegrar-se

Milton Friedman previu que a moeda única se desintegraria ao fim de uma década ou duas; hoje, isto parece muito mais provável. Apesar de tudo, Schäuble sabe que as condições que propõe são politicamente inaceitáveis. E, assim, declara que qualquer país incapaz de as cumprir "deve, em último recurso, retirar-se da união monetária, apesar de poder permanecer membro da UE". A Alemanha poderia mesmo retirar-se, se não conseguisse pôr na linha os parceiros mais fracos.

A crise mediterrânica expôs uma falha da Zona Euro que vem de há muito: a ausência de um Governo único. A Zona Euro precisa de ferramentas para harmonizar os chamados "choques assimétricos" – aqueles que afectam alguns membros mais do que os outros. Mas não dispõe dessas ferramentas, nomeadamente um departamento financeiro com poderes para instituir e colectar impostos e contrair empréstimos, e um banco central que possa actuar como emprestador de último recurso aos bancos dos membros.

A proposta de Schäuble tem uma dimensão ao mesmo tempo económica e geopolítica. Economicamente, expõe a fronteira cavada entre os que acreditam que os desequilíbrios externos são falha dos que gastam insuficientemente e os que acreditam que são falha dos que gastam demasiado. O edifício fiscal conservador da Alemanha gostaria que os outros países da UE que têm grandes défices orçamentais recuperassem a saúde económica através da disciplina fiscal, da diminuição da procura nacional e do aumento das exportações. O problema, segundo o dirigente alemão, não são os elevados níveis de poupança dos países, mas a despesa excessiva de outros membros da Zona Euro.

Frugalidade nem sempre é virtude

Martin Wolf, do Financial Times, considera este argumento economicamente incoerente. O aumento das economias num país implica a falta de consumo nos outros. As poupanças elevadas devem servir para aumentar o consumo, permitindo que os grandes gastadores exportem mais e comecem a viver dentro das suas possibilidades sem serem condenados à estagnação. A frugalidade não é uma virtude se ninguém estiver disposto a gastar.

O principal impacto da bomba lançada por Schäuble está, contudo, na geopolítica da UE. A elite política europeia encara a União como um dos pólos de um mundo multipolar. Mas o que é a Europa? Menos do que uma federação, mais do que uma confederação: faltam-lhe um centro de gravidade e fronteiras definidas. Sem coerência interna nem forma externa, a Europa é pouco mais do que uma expressão geográfica.

A proposta de Schäuble implica, pois, que a Eurolândia se remeta a uma dimensão governável. Como o rapazinho que não temeu declarar que o rei ia nu, apontou o dedo do realismo à retórica da aspiração com que todos os dirigentes europeus se acham ainda compelidos a vestir as suas declarações. Quebrou o tabu de pôr em dúvida qualquer aspecto do projecto europeu. Para os que preferem a construção sólida ao pensamento idílico, as suas palavras foram bem-vindas.