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Debate: A grande coligação europeia

16 maio 2012
Süddeutsche Zeitung Munique

Kazanevski

Até agora, não havia quaisquer discussões ideológicas na Europa, por falta de uma verdadeira cultura do debate. Com um Presidente francês e uma chanceler alemã politicamente opostos, a UE bem poderia aprender a discutir e a ressuscitar o interesse dos cidadãos.

A entrada no círculo dos chefes de Estado e de governo europeus permite respirar um pouco melhor. Quando se está ali, no meio de presidentes, chanceleres e primeiros-ministros, estamos no nosso lugar, tivemos sucesso, podemos olhar de alto a oposição no próprio país, o seu espírito medíocre e as críticas. Aqui, partilha-se o abundante bolo do poder. Na ausência de uma verdadeira concorrência no xadrez europeu, os chefes de governo passam por cima dos parlamentos e dos partidos. Puseram de lado a Comissão. É isto que torna o Conselho Europeu tão único – e também tão previsível. Porque nada privaria mais rapidamente o Conselho do seu poder do que o conflito e um passo atrás. Um homem ou uma mulher de Estado está acima dos ideólogos. Foi por isso que o Conselho reagiu com tamanha perplexidade, quando, por alturas das campanhas eleitorais na Grécia e em França, foi feita de forma banal menção às alternativas desagradáveis perante as quais se encontrava a política europeia, uma vez que o nacionalismo e o populismo foram elevados à categoria de remédios universais: expulsar a Grécia para fora do euro ou permitir a sua permanência na zona da moeda única; distribuir ajudas ou apertar o cinto: aumentar os impostos dos ricos ou revê-los em baixa.

A imaturidade de um continente

Mas então, quem decide pela Europa? Um aparelho institucional incompleto? Se funcionasse melhor, este beneficiaria de uma maior confiança. As questões verdadeiramente centrais – a legitimidade democrática, a supervisão e o controlo – continuam por resolver. Outras tantas provas da imaturidade do continente. As instituições nacionais também são demasiado frágeis para aguentarem por si próprias o peso de toda a Europa. O Estado-nação tornou-se demasiado estreito para essa Europa que, no plano comercial, se encontra sujeita, desde há demasiado tempo, às forças da globalização, e que só pode puxar dos seus galões no concerto das potências mundiais se estiver unida. Há pelo menos dez anos que a Europa luta contra os problemas suscitados pela globalização. A sua primeira reação imatura foi criar o euro e dotar-se, sem convicção, de um protocolo adicional – o Tratado de Lisboa. O continente não se preparou realmente para as curvas ascendentes e descendentes da globalização, do mercado livre, dos capitais "nómadas" e do livre acesso à informação. É por isso que se torna cada vez maior a tentação de vestir a camisola de patriota e satisfazer a nostalgia do cómodo conforto da nação.

Contudo, o que é feito da estabilidade e da previsibilidade democrática? A situação também não é brilhante – conforme o demonstra o estabelecimento de um pacto orçamental periclitante. É certo que este pretende respeitar todas as soberanias (para que os irlandeses não votem "não" no referendo), mas, em simultâneo, prevê que seja conferido mais poder à Europa.

O despertar dos desejos de ideologia

Quais são os limites da capacidade de consenso da União? A Europa precisará de alternativas, de confrontos, de ideologia? Quando François Hollande se lançou na campanha eleitoral com os seus cavalos de batalha socialistas, a chanceler não foi a única a mostrar o seu desagrado. Seria preciso a crise resultar num confronto em torno do credo político da direita? Estariam mais uma vez de regresso os "camaradas" e as suas ideologias cobertas de pó: os socialistas, os neoliberais, os defensores do controlo estatal e os partidários da redistribuição da riqueza? Ao despertar os desejos de ideologia, o novo Presidente apontou involuntariamente o dedo àquilo que fazia falta na Europa: a liberdade de escolha, a polarização, o debate democrático – e, portanto, a paixão que leva as pessoas a envolver-se na política. O instinto de François Hollande provou que a paixão permitia vencer eleições. Mas sejamos prudentes: a Europa não está suficientemente forte para acolher esse debate. Ainda não. François Hollande dar-se-á em breve conta, no seio do clube dos poderosos, de que os grandes problemas que o continente europeu enfrenta requerem grandes coligações. Realista como é, não tardará a tornar-se um mestre do consenso, ao lado da chanceler alemã. Mas, sendo como é também um idealista francês, não deveria abandonar a sua fibra ideológica. Se fossem suficientemente fortes, a Europa e as suas instituições seriam capazes de suportar a virulência política.