Drogas: Metanfetaminas sem fronteiras
18 abril 2012
Frankfurter Allgemeine Zeitung
Frankfurt
O contrabando de cerveja e de bebidas alcoólicas entre a República Checa e a Alemanha passou de moda e foi substituído pelo tráfico de metanfetaminas. O trabalho da polícia é dificultado pelas diferenças da legislação existentes entre os dois países. Excertos.
Se lhe pedirmos um grama, ele propõe de imediato a compra de cinco. Cinco gramas de "cristal" por 200 euros. O jovem asiático, que parece ter 16 anos, usa um boné de basebol e tem uma banca de jeans e t-shirts em Cheb, na Boémia Ocidental. "Alemão, hem? Venha comigo. Temos mais coisas." Num parque de estacionamento gigantesco perto de um centro comercial, situa-se um dos chamados "mercados vietnamitas", que proliferam na fronteira checa e nos quais se pode comprar roupas, sapatos e cigarros. Mas, nessa tarde, as bancas alinhadas ao longo de perto de cem metros, estão desertas. Os vendedores não têm nada que fazer. É óbvio que, nos tempos que correm, os clientes estão muito menos interessados em contrafações de produtos de marca. Em contrapartida, a procura de uma determinada substância, ilegal na Alemanha, mantém-se. Em Cheb, comprar qualquer uma das chamadas drogas duras é extremamente fácil. Basta pronunciar a palavra mágica "pico" e o pacotinho cheio de cristais muda de mãos. Encontramo-nos a poucos minutos da fronteira alemã e as barreiras deixaram de existir em 2007. No entanto, apesar de pouco visíveis, continua a haver controlos. Por entre o nevoeiro que se abateu sobre a Alta Francónia, um veículo com a insígnia verde e branca aguarda, na berma da estrada. Ao volante, está Matthias Dürr, responsável da alfândega local. Quando surge uma pequena viatura preta, vinda da República Checa, Matthias Dürr arranca e segue-a. Algumas horas antes, os funcionários aduaneiros apreenderam quatro gramas de “cristal” que estavam na posse de um jovem. Estas apreensões constituem agora o prato do dia.
"Hitler speed", a droga dos soldados da Wehrmacht
Nos últimos anos, o consumo de metanfetaminas na Alemanha registou um aumento rápido e supõe-se que grande parte das drogas provém da República Checa. “Crystal speed”, “meth”, “pico”, “pervitine” ou, por vezes, "Hitler speed" – porque os soldados da Wehrmacht a utilizavam para se doparem – são alguns dos muitos nomes sob os quais esta droga se tornou conhecida em todo o mundo.
A atual recrudescência do consumo de metanfetaminas decorre essencialmente da liberalização da legislação checa sobre estupefacientes, em 2010. A partir de então, a posse de “cristal” – até dois gramas – constitui apenas uma simples infração. Nos Estados da Baviera e da Saxónia, a polícia apreende quantidades cada vez mais pequenas de droga. Do lado alemão da fronteira, as autoridades aduaneiras e a polícia podem realizar controlos, sem necessidade de suspeitas legítimas, ao longo de uma faixa de 30 quilómetros. Em caso de suspeitas fundamentadas, pode ser exigido que o corpo do suspeito seja revistado, mas a revista deve ser efetuada por um médico.
Um grama de "cristal" comprado por 30, vendido por 100
Dado que o “cristal” está a suscitar cada vez mais problemas na Alta Francónia e no Alto Palatinato, em meados de fevereiro, o ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich, encontrou-se com o seu homólogo checo, Jan Kubice, em Hof [na Baviera], para a assinatura de um acordo de cooperação sobre a gestão da fronteira, a polícia e os serviços aduaneiros, com vista a combater a criminalidade na zona fronteiriça.
Apesar de os polícias alemães e checos organizarem patrulhas comuns, as respetivas competências terminam na fronteira. E as legislações dos dois países são tão diferentes que irá, sem dúvida, ser preciso esperar muito tempo para se verem os primeiros efeitos de tal acordo. Para além do facto de as autoridades policiais e alfandegárias registarem um número cada vez mais elevado de delitos graves. As pessoas já não atravessam a fronteira por causa do consumo pessoal mas para traficar. Um grama de “cristal” comprado por entre 30 e 40 euros pode ser vendido por cerca de 100 euros, em Nuremberga, ou mesmo por mais, noutras áreas. Na zona fronteiriça, os veículos continuam a seguir pela estrada. Mas, cada vez mais, os contrabandistas optam pelos atalhos.