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Queremos vedetas europeias!

8 janeiro 2010
Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung Francfort
Reconhece-os? Montagem: Presseurop

Reconhece-os? Montagem: Presseurop

Presseurop

Houve tempos em que o pequeno ecrã transbordava de séries e cantores vindos dos outros países europeus. Hoje, lamenta Nils Minkmar, jornalista e historiador alemão, as fronteiras abrem-se e os espíritos fecham-se.

Todas as crianças alemãs que cresceram com a televisão conhecem a Europa: descobriram Praga com “Pan Tau”, Yorkshire graças a uma série da BBC (“All Creatures Great and Small”) e os curtos verões de Smaland através das aventuras da Pipi das Meias Altas.

Foi um tempo em que os animadores das emissões de variedades se manifestavam orgulhosos por receber convidados “do estrangeiro”, que se apressavam a qualificar como “vedetas internacionais”, desde que tivessem cantado alguma vez em Montreux. O cúmulo do chique para os apresentadores era descer os degraus do cenário cumprimentando o público em várias línguas. Hoje, a utilização do alemão clássico parece, por vezes, representar uma questão para alcançarem êxito na carreira.

Durante décadas, mesmo as emissões de variedades sentiam-se na obrigação de manifestar uma certa cultura internacional e um mínimo de elegância, nomeadamente para os que as viam do exterior. Mas em que rádio se pode ainda ouvir canções? Já para não falar da televisão. À parte Carla Bruni, perante que talento de língua francesa nos podemos hoje extasiar? Em que canal podemos assistir ao Festival da Canção de San Remo? Qual é o último grito da moda na Suécia?

À excepção das notícias, a Europa está totalmente ausente do pequeno ecrã. O entretenimento é, com efeito, uma actividade doméstica, para não dizer regional. Enquanto que jovens de hoje crescem num mundo onde os Estados se aparentam cada vez mais a regiões do que a nações, a televisão passa ao lado desta realidade.

Arte, oásis no deserto

Talvez seja uma questão de dinheiro: na época em que os convidados estrangeiros entravam no menu das emissão de variedades, não existia concorrência privada. Podia-se, pois, convidar os Monty Python ou a cantora Milva [vedeta italiana dos anos 1960] para os palcos alemães, e nem importava se a tradução hesitante das entrevistas escapava a alguns espectadores.

Vivemos hoje um verdadeiro paradoxo: ao mesmo tempo que os nossos responsáveis políticos se esforçam por se entender com os colegas europeus, de maneira a poderem confiar cegamente neles, a opinião pública é incapaz de reter o nome de um único líder europeu e não consegue citar um só artista ou personalidade de um país vizinho. Mesmo os leitores que se interessam pela Europa ficam estupefactos por não reconhecerem um único rosto de actores de cinema ou teatro ou de um músico dos que povoam as capas das revistas dos países à sua volta.

No meio disto, a estação cultural franco-alemã Arte serve de álibi, fazendo da Europa um tema de especialização. Cada país age como se a televisão devesse proteger os cidadãos das consequências concretas da União Europeia. Se vemos aparecer Angela Merkel na televisão francesa – uma das raras pessoas que por vezes diz umas verdades a Nicolas Sarkozy, para gáudio da esquerda –, já o actor Grampo Kerkeling ou a escritora Charlotte Roche permanecem perfeitos desconhecidos para os gauleses.

A abolição das fronteiras exige um esforço por parte do público. Até agora, a Europa tem sido um assunto para profissionais. Mas não pode continuar assim. Aperceber-nos-emos, então, que cada vez mais animadores e apresentadores dominam perfeitamente várias línguas e que têm um real interesse pelo mundo exterior, ainda que não possam reflectir essa riqueza na estreiteza dos seus estúdios. Claro que isso levará alguns espectadores a fazerem zapping…