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Debate: As nações salvarão a Europa

16 fevereiro 2012
Gazeta Wyborcza Varsóvia

Na opinião de um historiador polaco, ao recusarem construir uma Europa federal em torno da moeda única, os políticos deixaram o poder à mercê da economia. Para o retomarem e o partilharem com os cidadãos, terão que construir hoje uma federação de nações.

A Europa unida é um OPNI (objeto político não identificado), dizia Jacques Delors, um dos pais da moeda única europeia, nos anos 1990. Descrevia desta forma uma Europa mergulhada na incerteza em relação ao caminho a seguir para a sua integração: através da unificação dos mercados, ou pela construção de uma união política com vista a uma futura federação. A situação atual resulta desta dúvida e da opção tomada pela União.

A Europa apostou no mercado, considerando ser esta uma forma satisfatória de integração. Deixámo-nos levar pela ilusão de que o mercado comum faria aquilo que os políticos europeus não estavam preparados para fazer: criar uma união política através das relações económicas.

Tivemos o cuidado de não criar instituições políticas fortes. Assim, não surpreende que, quando a crise chegou, a União se tenha revelado muito vulnerável politicamente. E os mercados, que deveriam promover a integração, hoje pisam-na..

Os mercados em vez da política

A fraqueza da UE – privilegiar o mercado sobre a política – não só a torna impotente perante a crise, como sobretudo a impede de planear o futuro. A política não é uma forma de controlar o futuro? Hoje, não há qualquer visão de futuro para a Europa. Não foi por acaso que a crise se instalou. O ponto forte da UE sempre foi a sua capacidade de fugir à questão da sua transformação. Para quê tocar em algo que não funcionava assim tão mal, especialmente enquanto o crescimento económico garantia a estabilidade da Europa? Parecia que o tempo tinha parado e que o dominávamos. Para quê projetar o futuro, se seria apenas uma extensão do presente?

No entanto, quem acredita que controla o curso dos acontecimentos é, por vezes, a sua primeira vítima. É uma lição da história bem conhecida, mas ainda mal assimilada pelos líderes europeus, a julgar pela forma como a UE combate a crise, construindo aos poucos o cenário de uma catástrofe política.

A União apenas reage aos problemas imediatos, e ainda por cima de uma forma débil, com cuidado para não dar um passo em frente, mesmo que fosse apenas para mostrar que os principais líderes europeus continuam a pensar a União como sendo uma só entidade. Assistimos hoje à tendência contrária, a divisão da União entre o clube dos países mais fortes e o dos mais fracos, entre o centro e a periferia.

Obviamente, os políticos europeus não desejam um tal colapso. Sabem muito bem que seria uma hecatombe da civilização. Mas não conseguem livrar-se da sua forma habitual de atuação, que, no entanto, consideram ultrapassada. É claro que dizem querer acalmar os mercados, mas de forma a que os mecanismos permaneçam inalterados e que, após a crise, os mercados retomem o lugar da política e da integração política.

O grande problema nas nossas sociedades europeias é que os líderes políticos governam cada vez menos, deixando um grande vazio no lugar do exercício do poder à moda antiga.. 

A solução: confiar o poder à UE

Vivemos numa democracia dispersa e individualizada, os governantes estão se esforçam por decifrar as aspirações dos cidadãos, também caóticas e dispersas. Logo, torna-se difícil determinar com clareza os objetivos de uma comunidade. 

Enquanto a sensação de distância entre governantes e cidadãos cresce, o poder e a política em geral escapam aos líderes políticos, sem, no entanto, chegarem às mãos dos cidadãos. A UE é uma manifestação flagrante dessas tendências. Não só perdeu os seus objetivos antigos, transformando-se numa terra sem futuro mas, pior que isso, para muitas pessoas tornou-se uma terra de promessas não cumpridas.

Com o aumento dramático do desemprego, especialmente entre os jovens, a União Europeia deixou de ser garante de uma vida digna e estável. O Estado social europeu, um dos pilares tradicionais da democracia, sofreu um desmantelamento gradual, ou, por vezes, repentino. O aumento das desigualdades provoca a raiva. O medo da pobreza e da degradação social alastra até mesmo às empresas relativamente poupadas pela crise.

Hoje, não existem quaisquer ideias sobre como escapar ileso. Numa situação destas, a melhor abordagem é regressar às fontes, no caso vertente, às da UE. A Europa unida era, desde o início, o projeto político da unificação do continente. Um projeto para a construção de uma federação de nações. Criada pelas nações e por uma visão de futuro, segundo o filósofo Marcel Gauchet.

Só nos resta construir uma federação de nações. Grande parte do poder será confiada à UE, sob o controle das nações. Esta inversão na relação com a União, que hoje está fora do controle das populações, é crucial. A Europa unida foi construída pela vontade dos povos, ainda que se tenha desviado deles. Só sobreviverá se os reencontrar. 

O desafio atual é não só salvar o crescimento económico, mas também, ou principalmente, salvar a democracia da União. Só os cidadãos europeus poderão fazê-lo, e fá-lo-ão se forem convencidos de que vale a pena. Se lhes propusermos um futuro e uma política justa.