Hungria: Bruxelas lança operação para afastar Orbán
12 janeiro 2012
Népszabadság
Budapeste

"A saída é por aqui". O presidente da Comissão Europeia José Manuel Barroso (à direita) com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, em Bruxelas, em junho de 2010.
Ameaçando Budapeste com sanções financeiras e represálias, se o Governo não mudar a política económica e judiciária, a UE parece ter encetado um processo para se livrar do primeiro-ministro húngaro, como fez com Berlusconi e Papandreu. Mas não vai ser tão simples como anteriormente.
Viktor Orbán demorou um ano e meio a pôr-se à margem da política europeia. Isso não representa um problema só para nós, mas também para os governos ocidentais, que não sabem bem o que fazer com o seu antigo aliado. O Ocidente pode levar à queda de Viktor Orbán?, pergunta-me um amigo. Afinal, fê-lo a Berlusconi em Itália e a Papandreu na Grécia, instalando no seu lugar homens da sua confiança, tecnocratas do mundo da finança, mais previsíveis e razoáveis.
O desafio era considerável, pois tratava-se de dois Estados da zona euro. E Bruxelas (era mais Berlim e Paris) estava preocupada com que a incerteza política e económica prejudicasse a estabilidade do conjunto da moeda. Salvaram o que ainda podia ser salvo.
Difícil demitir um primeiro-ministro a partir "de fora"
Mas a Hungria não faz parte da zona euro e só os bancos austríacos estão verdadeiramente preocupados connosco – e muito, por certo. Se a Comissão Europeia ameaçou ontem mover-nos processos por infração, isso indica que as tentativas extremadas do Governo para manter o poder e a sua política económica pouco ortodoxa preocupam seriamente Bruxelas. Mas o "caso húngaro" é um verdadeiro quebra-cabeças: não é fácil demitir um primeiro-ministro a partir "de fora", sendo, como foi, eleito por maioria de dois terços do parlamento. Além disso, a oposição está desfeita. Apesar de tudo o que se possa dizer, o mandato democrático é importante para os Estados-membros da União Europeia, porque é a isso que todos os políticos devem o seu poder. Só provisoriamente e em caso de extrema necessidade, se recorre a governos de tecnocratas, pois, mesmo no Ocidente, a maioria dos políticos desconfiam deles, visto que não passaram por todos os degraus da vida política e não receberam qualquer mandato popular. No caso da Hungria, têm também de ter em consideração que um excesso de pressão pode ter o efeito oposto ao pretendido e levar a água ao moinho do Jobbik [partido de extrema-direita].
Na Europa, em política, tudo esquece depressa
Atualmente, estarão provavelmente a estudar dois cenários possíveis a nosso respeito. O primeiro – e a advertência de Bruxelas vai nesse sentido – é dar nova oportunidade a Viktor Orbán para se mostrar mais flexível em relação à lei relativa ao Banco Central [que aumenta o controlo do executivo sobre ele] e à aposentação dos juízes [considerada uma forma de purgar a magistratura].
E especialmente para se dispor a repensar a sua política económica durante as negociações com o FMI. Não é naturalmente nada que os faça cair nos braços uns dos outros, mas na Europa, em política, tudo esquece depressa.
Vale a pena recordar a indignação despertada pelo chanceler austríaco, Wolfgang Schüssel, quando, em 2000, formou um governo de coligação com o Partido da Liberdade de Jörg Haider. O escândalo acalmou e Schüssel conseguiu governar sem interferência até 2007. Se a mudança política exigida for difícil de passar para a opinião pública, ou seja, inaceitável para o atual Governo, há um segundo cenário possível: utilizando a rede do Partido Popular Europeu [de que o Fidesz de Orbán é membro], vão tentar encontrar alguém dentro do Fidesz para assumir o lugar de chefe de Governo. Ainda andam a apalpar terreno e não há que ter ilusões: este segundo cenário seria realmente uma catástrofe absoluta.