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Eslováquia: A queda do incorruptível Ľubomír Galko

30 novembro 2011
Respekt Praga

Dar o tudo por tudo para combater a corrupção. Ľubomír Galko durante uma conferência de imprensa.

Dar o tudo por tudo para combater a corrupção. Ľubomír Galko durante uma conferência de imprensa.

Ao lutar contra a corrupção através de escutas ilegais, o antigo ministro da Defesa acabou por violar os princípios democráticos que queria defender e foi forçado a apresentar a demissão. Mas o caso minou ainda mais a confiança dos eslovacos na sua imprensa e políticos.

Se o ministro eslovaco da Defesa, Ľubomír Galko, tivesse estudado melhor a história da democracia, o seu destino podia ter sido diferente.

Na semana passada, com a Eslováquia abalada por um escândalo de efeitos devastadores sobre a sociedade, a primeira-ministra Iveta Radicova teve de retirá-lo do cargo, por violação dos "princípios fundamentais do Estado de direito e da democracia". O escândalo estalou em 21 de novembro, depois de os diários eslovacos Pravda e Novy Cas terem revelado que os serviços secretos militares tinham colocado jornalistas sob escuta.

Transcrições de conversas telefónicas, cheias de pormenores sumarentos, começaram a circular nos meios de comunicação e, gradualmente, descobriu-se que os funcionários do Ministério da Defesa também tinham sido colocados sob escuta, havendo inclusivamente um ficheiro com o nome de código "Dama", que visava a primeira-ministra.

Galko continua firmemente convencido

Como foi possível tal abuso de poder, num sistema democrático? Galko deu uma explicação: os seus serviços secretos estavam a lutar contra a corrupção e a hidra, que combateu com todas as suas forças, conseguiu voltar a sua atuação contra ele próprio.

E quando a primeira-ministra lhe disse que os serviços secretos não tinham jurisdição sobre a questão, que só a polícia tinha poderes de investigação e que era inaceitável pôr os jornalistas sob escuta, ele manifestamente não a entendeu. Galko continua firmemente convencido de que a sua luta contra a corrupção tinha uma dimensão tão sagrada que era seu dever não se submeter a quaisquer regras, escritas ou não. O escândalo assumiu proporções vertiginosas. Os responsáveis políticos convocaram conferências de imprensa umas em cima das outras, os meios de comunicação e as redes sociais registaram discussões acaloradas e os editores dos cinco diários nacionais adotaram uma declaração conjunta em defesa da independência dos órgãos de informação. Apenas dois partidos políticos não se juntaram ao coro de condenação das escutas telefónicas de jornalistas: os nacionalistas do SNS [Partido Nacional Eslovaco] de Jan Slota, famoso pelo seu desprezo pela democracia e pela comunicação social, e o liberal SAS [Liberdade e Solidariedade], de que Galko é vice-presidente.

Redes de corrupção e conspirações

O caso do ministro Galko é a prova de que a luta contra a corrupção pode por vezes ser tão perigosa para a democracia como a própria corrupção. No início, para a maioria dos meios de comunicação, Ľubomír Galko era uma espécie de herói.

Homem de aparência delicada, tinha decidido atacar com bravura o polvo da corrupção no seio do exército e organizava regularmente conferências de imprensa para comunicar os resultados das suas investigações. Mas, gradualmente, foi ultrapassado pela sua própria luta. E investindo-se como herdeiro dos revolucionários do passado, começou a alimentar a crença de que todos, incluindo os meios de comunicação, estavam envolvidos em redes de corrupção e em conspirações contra ele. Foi aparentemente em março, depois de Iveta Radicova ter negado o seu pedido de reforço dos poderes legais dos serviços secretos, que decidiu agir como cavaleiro solitário. O caso está agora nas mãos do Ministério Público e da polícia.

Défice de confiança nos media

Mas os danos causados por Galko são realmente muito graves. A ética da luta contra a corrupção foi afetada: mergulhada até ao pescoço nas malhas da corrupção, a velha guarda política apresenta-se hoje sob a face de uma séria assembleia de democratas.

Os jornalistas, que foram as principais vítimas de Galko, assistem a transcrições das suas conversas telefónicas no Facebook e circulando pelos meios de comunicação. E há que dizer que muitas vezes o seu conteúdo não é nada lisonjeiro para eles. O nível de confiança na independência dos meios de comunicação, já muito baixo, vê-se ainda mais degradado, enquanto a crise de valores se vai acentuando. De acordo com uma pesquisa online do diário SME, a maioria dos leitores diz acreditar que Galko não devia ter sido demitido do cargo. É difícil prever quais os efeitos deste escândalo nos resultados das eleições de março de 2012. Mas mesmo que o partido [de Galko] obtenha lugares no parlamento, é provável que se veja isolado. Há já algum tempo que todos os partidos políticos vinham manifestando não quererem fazer parceria com ele em qualquer coligação, devido ao seu euroceticismo. O escândalo das escutas telefónicas só veio reforçar essa determinação.