No início da década de 1970, Mauricio Toussaint tinha menos de 20 anos e muita vontade de conhecer o mundo. Viajou para Espanha com colegas da Universidade Nacional Autónoma do México, onde cursava Ciência Política, e o acaso de uma imprevista greve de professores fê-lo prolongar a estada na Europa e rumar a Portugal. Acresce que um dos companheiros de viagem tinha um familiar em Cascais, cuja residência foi utilizada como albergue pelo grupo de jovens que, no final de uma viagem pelo país vizinho, já estava quase falido.
Numa conversa com o EXPRESSO, contou: "Entrámos pelo Norte (pela Beira), e corremos o país quase todo, quase sempre à boleia. Estive em Viseu, passei mais de uma semana na Nazaré... mas a ideia que guardei do Portugal desse tempo foi a de um país muito pobre, completamente diferente daquele onde estou a viver. Da primeira vez que cá estive, havia a Ponte Salazar e mais dez quilómetros de auto-estrada para cada lado da ponte...” No cenário desse Portugal que se despedia da ditadura, Mauricio e os amigos constataram que as roupas que usavam eram “muito fashion” e cobiçadas pelos jovens com quem se cruzavam. Falidos como estavam, decidiram vender uma boa parte do vestuário e continuar viagem.
Mauricio começou a colaborar profissionalmente com o Governo Federal muito cedo na área da energia. Como ele próprio diz, é um homem da “diplomacia petroleira”, por ser um especialista no sector energético.
Visitou Portugal em 2001, como secretário-geral do ministério das Relações Exteriores do México: “Nunca me esquecerei dessa visita. Estava cá no dia em que caíram as Torres gémeas...”
Neste momento, está empenhado na Cimeira Ibero-Americana que se vai realizar em Portugal no final do ano. “Vão estar em cima da mesa temas como a inovação, o conhecimento, e é óbvio que a crise não vai escapar”. Todos os países andam à procura de um caminho seguro para sair da crise e o México também. Até porque foi o ‘berço’ dos primeiros casos de gripe A, e esse facto acabou por afectar os fluxos turísticos que são uma receita com alguma importância para o país.
“Tanto a crise como a gripe provam que as ameaças são globais, que os assuntos têm de ser discutidos a nível global”. Daí a importância dos fóruns internacionais: “Todos juntos temos de desenvolver uma estratégia para ultrapassar a crise. E o México, por exemplo, é um país cuja economia depende em quase 80% dos EUA... embora seja o segundo parceiro de Portugal na América Latina.”
Manuela Goucha Soares
Os ucranianos, em Portugal, são a segunda maior comunidade migrante, com 53 mil pessoas cuja situação está legalizada, e vêm sobretudo da Ucrânia ocidental. Pouco depois de este país ter comemorado 18 anos de independência [24 de Agosto, o EXPRESSO falou com o embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko, um homem que nasceu num país que se diluiu quando ele já tinha 29 anos Peter Pan, um dos mais famosos filmes de animação da Disney, aos 47. Não que a história do rapaz que esvoaçava pelas janelas fosse perigosa para o equilíbrio das crianças soviéticas, mas porque até à queda do Muro de Berlim os governantes das terras que ficavam para lá da 'cortina de ferro' olhavam a Disney como um símbolo do império americano, personae non gratae na velha Europa de leste.
Diga-se em abono da verdade que o imaginário infantil de Rostyslav não permaneceu alheio às fantasias de James Matthew Barrie. O livro que conta a história de Peter Pan estava traduzido em russo e disponível para as crianças da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pátria do socialismo e da “igualdade na falta de muitas coisas”, como refere Rostyslav Volodymyrovych, embaixador da Ucrânia em Portugal, que conversou com o Expresso dois dias depois de ter visto o filme Peter Pan pela primeira vez, na companhia da filha de cinco anos.
No tempo em que cresceu, “o Estado cuidava de tudo”. Rostyslav recorda com ternura os tempos da infância e juventude porque “temos sempre saudades dessas épocas. Mas agora há liberdade e os meus compatriotas são livres de poderem vir para o vosso país”, e aqui fazerem a sua vida. “A Ucrânia foi sempre uma ponte entre a Europa e a Ásia e um local de encontro de muitas culturas. Isso faz-nos parecidos com os portugueses. Na Ucrânia até temos uns lenços parecidos com os do Minho”, que lá devem ter chegado num desses movimentos de transumância humana.
Na universidade, foi obrigado a decorar versos de Os Lusíadas: “Grande parte da minha carreira está ligada à lusofonia. Trabalhei como intérprete em Moçambique nos anos 1980 e numa Associação de Amizade com Países Estrangeiros”. Tudo isso aconteceu antes de entrar para a carreira diplomática, e de o seu país recuperar a independência.
O pai, doutorado em Economia, com uma tese sobre o socialismo em Cuba, não sai da Ucrânia há mais de três décadas, mas sempre disse ao filho que este deveria estar atento ao mundo. E nunca desistiu de o motivar para a área da diplomacia, mesmo quando Rostyslav escolheu cursar Línguas Modernas na Universidade Estatal de Kiev para, numa tímida contestação juvenil, picar os progenitores. Este Verão, o pai de Rostyslav vem visitar o filho, as netas e a nora brasileira, e conhecer Lisboa. A sua primeira viagem em 34 anos.
Manuela Goucha Soares
Todos os anos, mais de 20 milhões de latas de conservas portuguesas viajam para 35 mercados, e até no bunker de Hitler foram encontradas três latas de sardinhas made in Portugal. Como relata o jornalista do Expresso, Abílio Ferreira - num texto publicado no Expresso Online (http://aeiou.expresso.pt/latas-de-conserva-da-ramirez-encontradas-na-despensa-de-hitler=f532559), as guerras, devastadoras para a maioria da população, representam oportunidades de negócio para alguns. Portugal testemunhou vários casos durante a II Guerra Mundial que vão do volfrâmio às conservas, passando pelo contrabando do bagaço de azeite.
Voltando ao texto de Abílio Ferreira sobre as conservas Ramirez,«foi, todavia, com as guerras que o negócio da Ramirez e da generalidade da indústria conserveira portuguesa prosperou. Se no fim do século XIX Portugal tinha 76 fábricas, no fim da Primeira Guerra Mundial, o universo alarga-se para 300. A empresa percebeu que "o consumo era anormal e transitório" e, ao contrário de outros concorrentes, aguentou-se na ressaca dos anos 20. Ainda assim, sofreu com a pressão de preços e a depressão em que o sector mergulhou e que levaria até Oliveira Salazar a publicar um diagnóstico sobre as ameaças que as conservas enfrentavam.
A Segunda Guerra Mundial ajuda à retoma. Portugal beneficia do facto de ser dos raros países com a produção a funcionar. A Ramirez fornece a Cruz Vermelha e exporta para mercados como a Bélgica, Reino Unido e Alemanha. Por isso, a família não estranhou um telefonema do seu agente em Hamburgo, no início dos anos 50, dando conta que tinham na sua posse três latas muito especiais. Eram conservas de sardinha em azeite que tinham sido recolhidas do bunker de Hitler. "Não sei como lhe foram parar às mãos, lembro-me que as enviou ao meu pai", recorda Manuel Ramirez. Meses depois, a família decidiu prová-las, verificando que estavam em perfeito estado de conservação. "Estavam óptimas", recorda o empresário que aproveita o episódio para troçar das leis europeias que impõem um prazo de caducidade a todos os produtos».
Denis Delbourg cursou Filosofia na Universidade, frequentou a ENA (École Nationale d’Administration) — instituição criada depois da II Guerra Mundial para formar quadros para a administração pública francesa — e, depois disso, concorreu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros porque queria “descobrir o mundo”. Gosta de ser diplomata, mas tem a lucidez suficiente para olhar para trás e constatar: “Quando se é jovem sonham-se muitas vidas... e eu até poderia ter gostado de ficar na Universidade. A filosofia é apaixonante.”
Prestes a completar 57 anos, Denis Delbourg, embaixador de França em Portugal, conversou com o EXPRESSO ( http://aeiou.expresso.pt/) no dia em que o seu país comemorou um dos feitos mais importantes da sua História — a tomada da Bastilha, a 14 de Julho de 1789. Ciente de que França teve uma influência determinante no pensamento da Europa e do mundo nos séculos XVIII e XIX, e uma acção fundamental para a estabilização política da Europa no século XX, Delbourg afirma que um dos grandes desafios da língua francesa — que perdeu o seu lugar de grande língua de comunicação para o inglês — é o de encontrar um “espaço nos novos meios de comunicação. Para se aceder a conteúdos é preciso passar pela linguagem, mas para querer aprender uma língua” é necessário que o país que a tem como língua materna “seja capaz de despertar interesse e curiosidade”.
Antes de vir para Lisboa, foi adido cultural em Nova Iorque, cônsul-geral no Rio de Janeiro e embaixador na Suécia. Diz que “Nova Iorque é um carrefour artístico fantástico. As elites culturais americanas têm um enorme conhecimento sobre a cultura francesa, que está presente nas Universidades — onde tanto a literatura francesa como a francófona são estudadas — no meio artístico e nos museus”. No quotidiano, a realidade é diferente, mas, apesar disso, “o cinema francês tem o seu lugar na América”.
No Brasil, aprendeu português e apreciou “o orgulho que os brasileiros têm na mistura das suas múltiplas heranças. Estive lá na época do Presidente Fernando Henrique Cardoso e foi muito interessante, porque o país estava a modernizar-se economicamente”.
Quando terminou as suas funções de embaixador em Estocolmo, Delbourg queria continuar na Europa. Portugal —de quem a França é o terceiro maior parceiro comercial — surgiu como um desafio interessante. “Já cá tinha estado no princípio dos anos 90, quando estava colocado no Ministério da Cultura. Vim assistir a parte das filmagens do ‘Soulier de Satin’ de Manoel de Oliveira”.
O embaixador constatou que "Portugal é um dos poucos países onde um francês pode fazer uma conferência ou palestra para uma plateia de 500 pessoas, sem ser necessário recorrer à tradução". A França é o terceiro maior parceiro económico de Portugal com um volume de exportações de 5,15 mil milhões de euros. A Alliance Française abriu a sua primeira escola em Lisboa em 1945 e neste momento tem 12 centros de ensino no país; para além destas escolas, existe um Instituto Franco-Português, em Lisboa.
Manuela Goucha Soares