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  • Acontecimento Um Fórum para os europeus de amanhã

    24 maio 2013

    Para dar uma maior consistência às discussões levadas a cabo nas nossas páginas, decidimos organizar o Fórum Presseurop: uma série de debates sobre os assuntos que marcaram a atualidade europeia recente – a crise das instituições europeias, a crise do euro e as suas consequências e a cidadania europeia, um ano antes das eleições.

    Moderados por um jornalista do Presseurop, os debates terão lugar no dia 4 de junho, no seio do Parlamento Europeu, em Bruxelas. Contarão com a presença de deputados europeus, nomeadamente Gabriele Zimmer e Miguel Angel Martínez Martínez; de jornalistas europeus cujos artigos alimentaram a discussão no Presseurop, entre os quais Adriana Cerretelli, Bruno Waterfield, Jean Quatremer e Marek Magierowski; e leitores, selecionados entre os mais assíduos.

    Os debates serão transmitidos em streaming no Presseurop.eu e serão objeto de um livetweet em dez línguas. Acompanhe desde já a discussão em #ForumPE.

  • Entrevista Tomáš Sedláček: “Fetichizámos a Economia”

    15 maio 2013

    Considerado um dos economistas mais talentosos da atualiade, Tomáš Sedláček considera que a Economia devia ser humanizada. O seu bestseller internacional, uma obra de não ficção, A economia do bem e do mal, foi publicado recentemente em França. O Presseurop encontrou-se com ele para uma entrevista.

    Em A economia do bem e do mal, afirma que as fronteiras da Economia, que a definem como uma ciência exata baseada em fórmulas matemáticas, deveriam alargar-se para poderem ter em consideração a Filosofia, a Religião e as Artes. Até que ponto estamos perante um conceito novo e a que se refere o título do seu novo livro?

    Temos tendência para separar o pensamento técnico das questões da alma. A Economia orgulha-se de ser bastante difícil e eu tento provar que, se separarmos corpo e mente, ambos deixam de ter sentido. As questões clássicas que nós, economistas, colocamos a nós próprios são: A Economia funciona? A Economia é eficiente? Mas o que deveríamos questionar era o propósito da Economia.

    E afinal que propósito é esse?

    A ideia é ligar a Economia a outras disciplinas. A Bíblia perde o seu sentido se for lida apenas espiritualmente. A Economia perde o seu sentido se só for vista sob uma perspetiva técnica. É isto que tento fazer no meu livro: falar

    da alma da Economia e torná-la visível. Se quisermos que seja justa, então a Economia tem de ter outro aspeto. Se apenas quisermos que a Economia nos dê riqueza, que havemos de fazer? Se deixarmos tudo isto na mão invisível do mercado, serão os mercados a guiar-nos. Eu chamo a isto uma orquestra inorquestrada. Se não somos capazes de a orquestrar, então será ela a orquestrar-nos a nós.

    Será, então, que temos de reintroduzir a ética na Economia?

    Muito se tem discutido sobre o facto de precisarmos de pôr ética e humanidade na Economia. Concordo com isso, mas

    a Economia tem a sua própria ética: a pessoa tem de ser eficiente, tem de ser racional e não pode ser emocional;

    não há problemas se formos egoístas e as nações podem velar pelos seus interesses. Cada sistema tem uma ética própria.

    Acabei de ler uma história sobre Sodoma e Gomorra. Ali a questão ética era que uma pessoa não podia ajudar ninguém. É a história de duas raparigas que dão um pão a um pedinte esfomeado. Quando as pessoas descobrem que elas tinham agido contra a ética de Sodoma e Gomorra, uma é queimada viva e a outra pendurada num dos muros da cidade, onde fica toda besuntada de mel para ser comida viva pelas abelhas. O nazismo tinha uma ética própria, o comunismo tinha uma ética própria e a Economia tem uma ética própria. Por isso, se estamos descontentes com a ética do nosso tempo, devíamos mudá-la.

    Existe aqui alguma semelhança com a religião que pudesse estabelecer um equilíbrio entre materialidade e espiritualidade em Economia?

    A Economia transformou-se numa espécie de religião. É ela que nos diz o que fazer, como pensar, quem nós somos, como encontrar sentido para a nossa vida, como nos relacionarmos com os outros e com base em que princípios é que a sociedade se mantém coesa. Num certo sentido, já tem características religiosas. Se tirarmos a Matemática à Economia, resta-nos pura moralidade.

    Em A economia do bem e do mal, afirma que ficámos obcecados com a ideia do crescimento económico. Considera-se uma pessoa contra o progresso?

    Não sou contra o crescimento nem contra o progresso. A questão é que o fetichizámos. Escolhi exemplos de uma cultura alta e baixa para demonstrar que, ao fetichizarmos uma coisa, essa coisa destrói-nos. Pode ser a ética, a economia, a religião e até mesmo a nossa cara-metade. Se fetichizarmos o nosso amor, podemos dar cabo dos nervos. É por isso que lhe chamei uma inversão sujeito-objeto. Criamos uma coisa que, supostamente, nos dá ouvidos e está às nossas ordens e, depois, acontece qualquer coisa que inverte a relação sujeito-objeto e somos nós que acabamos por lhe dar ouvidos e estar às suas ordens.

    Na literatura, encontrei muitos exemplos, de O Golem à lâmpada de Aladino e O Senhor dos Anéis. No início, e

    ainda acredito nisso, o sistema – chamemos-lhe mercado livre – era um campo fértil para o crescimento. Com o tempo, houve uma inversão e o sistema transformou-se numa conditio sine qua non do mercado livre. Ficaríamos gratos se houvesse crescimento mas, se isso não acontecesse, teríamos de conseguir sobreviver. A crise só acontece porque achamos que a nossa civilização vai desaparecer sem crescimento. O crescimento não se verifica sempre: há anos em que inventamos uma série de coisas e outros em que não inventamos nada. Há anos em que temos um forte crescimento do PIB e outros em que esse crescimento é nulo ou negativo.

    Há alguma coisa positiva na atual crise?

    [Carl] Jung disse que não havia nada que se alterasse fora da crise, especialmente a natureza humana. Esta não é uma crise europeia, mas uma crise do mundo ocidental. A América, o Japão e a Europa tentam lidar com ela, cada um à sua maneira. O mais importante é que se fale disso. Até as pessoas nas pequenas aldeias perdidas nas montanhas falam hoje da Europa.

    Fazemos troça da América, de terem orgulho naquilo que construíram. Na Europa, não temos orgulho do que construímos. A crise forçou a Europa a integrar-se mais depressa do que nunca. Se há 10 anos alguém falasse em pacto orçamental, teria sido uma verdadeira blasfémia. Ajudarmo-nos uns aos outros, como acontece hoje, é uma coisa sem precedentes. É por isso que tenho esperança de que a Europa saia fortalecida de tudo isto. Nos bons velhos tempos, não se sabia onde estava metade da Europa. Vejo a crise como uma oportunidade para a Europa dar um passo em frente..

    E os sentimentos eurocéticos sobre a Europa e sobre o euro?

    Comparativamente com as décadas de 1920 e de 1930, não representam um verdadeiro perigo.

    Que opinião tem sobre as políticas de austeridade europeias que têm sido postas em prática desde o início da crise?

    Podemos fazer uma comparação com a América, que continua a fazer a mesma coisa, a acrescentar mais energia fiscal, mais défices e a imprimir moeda. Aqui na Europa, estamos a tentar pegar o touro pelos chifres. Sabemos que nos tornámos viciados em défice e que precisamos de crescer passando por uma penosa desintoxicação. Se não o fizermos, seremos aniquilados pela economia.

    Temos de ser competitivos por causa da China e de outros mercados emergentes. Claro que a austeridade apareceu no momento mais inoportuno. O ano passado, em Davos, o assunto era a grande transformação e a procura de novos modelos. Uma pessoa nunca se questiona, exceto quando se vê metida em sarilhos.

    Como explica o facto de alguns políticos alemães se recusarem a pagar as dívidas dos gregos ou dos portugueses e imporem austeridade?

    A questão é saber se a Grécia é um mercado ou se é da nossa família. Se uma pessoa da nossa família partir uma perna, nós vamos a correr ajudá-la, mas se for o padeiro, vamos a outro. Sem ressentimentos, não estamos interessados no padeiro, mas sim em comprar pão.

    Na América, não têm problemas destes. Estão a fazer transferências entre Estados para centenas de anos, mas isso pouco se nota por se tratar de uma federação. Em França, acontece o mesmo, com as regiões mais fortes a transferirem dinheiro para as mais frágeis. Acontece o mesmo na República Checa. Devíamos, pois, perguntar quem é o nosso vizinho, se apenas a França, ou também a Grécia.

    Sabemos que as crises são uma oportunidade para repensar os modelos económicos. Que conselho daria aos líderes europeus para que evitassem mais défice nos seus países?

    Há umas gerações, os políticos europeus influenciavam a economia de duas maneiras: controlavam a política monetária e influenciavam a política fiscal. Simplificando, a política monetária é o monopólio que o governo tem de emitir moeda, ao passo que a política fiscal é o monopólio que o governo tem de emitir dívida. Neste momento, a política monetária está fora da alçada dos políticos, que estão de pés e mãos atados.

    Hoje em dia, os políticos na Europa não podem emitir moeda. Continuam a poder emitir toda a dívida que querem e não há quase nada que os faça parar. A pressão da União Europeia e dos mercados não é suficiente. Os mercados reagem muito pouco e muito tarde e o objetivo europeu acordado por nós, enquanto federação, para que as nações não tivessem um défice superior a 3% do PIB, não se revelou suficientemente poderoso para reduzir os défices.

    É por isso que a Europa não tem o problema da inflação, é por isso que estamos a tentar resolver tudo de uma única

    maneira, emitindo dívida. A questão que hoje se discute é saber se devíamos aplicar as duas medidas, ou se também devíamos impedir a segunda. Acho que o papel do governo devia ser mínimo e que os governos também deviam desistir de controlar o nível de défice existente.

    Se olhasse para o estado da Europa, a que mitos ou filme o compararia?

    A O Senhor dos Anéis. Gnomos e anões odeiam-se uns aos outros, ao passo que os hobbits juntam-se e atravessam juntos os tempos mais difíceis. Enquanto as coisas correram bem, ninguém se interessava pela Europa. Começámos a dar por adquirido o facto de haver paz e comércio. A ideia da União Europeia era fazer trocas comerciais e não andar em guerra. A II Guerra Mundial resultou da fetichização da ideia de um Estado-nação. Podemos considerar que a União Europeia resulta dessa fetichização. O que fizemos, e que foi um lance engenhoso, foi trocar o crescimento geográfico de uma nação pelo seu crescimento económico. Mas não pensamos no PIB da Europa: continuamos a pensar no PIB de França versus o PIB da Alemanha versus o PIB da Grécia. Não há dúvida de que trocar o crescimento geográfico pelo económico é

    positivo e é bom. Agora que crescemos economicamente, também podemos trocar esse crescimento por crescimento noutras áreas como, por exemplo, cultura, interação social e outros importantes domínios.

  • Entrevista Mario Monti: Mudar as políticas económicas, mas não por pressão dos nacionalismos

    10 maio 2013

    Dois anos mudam muita coisa. Em 2011, entrevistámos Mario Monti, por ocasião da conferência State of the Union, organizada no quadro do Festival da Europa, em Florença (de que o Presseurop é parceiro). Na altura, o ex-comissário europeu e presidente da Universidade Bocconi respondeu-nos descontraidamente, durante uma pausa dos trabalhos. Este ano, foi um ex-primeiro-ministro de Itália, cercado por guarda-costas e com uma agenda controlada ao milímetro, que participou na edição de 2013 do State of the Union. Mas após uma curta conferência de imprensa para os muitos jornalistas italianos ávidos do seu prognóstico sobre o governo do seu sucessor, Enrico Letta, Mario Monti aceitou parar dois minutos para nos responder, em francês.

    Há dois anos, o antigo comissário europeu e reitor da Universidade Boccotransmitiu-nos a sua opinião sobre a ameaça que a crise representava para o mercado único e o euro. O futuro destes dois pilares da União Europeia parece hoje assegurado, mas subsistem dúvidas sobre a forma como a UE e os Estados-membros combatem a crise. Considera Mario Monti que a atmosfera que se vive na Europa é hoje mais favorável à resolução da crise do que em 2011?

    Acho que sim. Muitos progressos concretos têm sido feitos no sentido da resolução da crise. Também foram projetadas políticas europeias para futuro, traçando um plano, que está a ser finalizado, para uma verdadeira e profunda união económica e monetária, sob a égide do grupo presidido por Van Rompuy. E acho que, finalmente, os Chefes de Estado e de Governo estão a levar mais a sério aspetos políticos e psicológicos, tais como o nacionalismo ou os populismos. Isto não chega necessariamente para mudar as políticas económicas. De qualquer modo, considero que precisam de ser mudadas, mas não em resposta a fenómenos nacionalistas e populistas. Mas se quisermos levar a cabo certas políticas num clima muito exposto ao risco de rejeição por via nacionalista e populista, é preciso tomar cuidados adicionais.

    Durante o seu mandato de Presidente do Conselho de Itália, em particular na primavera de 2012, Mario Monti tentou, com o francês François Hollande e o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, reequilibrar as relações entre Estados-membros e obter uma certa flexibilização das posições da Alemanha. Acha que as diferenças de pontos de vista entre a França e a Alemanha são um elemento sustentável ainda que incómodo no tratamento da crise e da continuidade do projeto europeu?

    Continuo convencido de que uma boa cooperação franco-alemã é uma condição essencial para o avanço da Europa. Essencial, necessária, mas não suficiente. Portanto, é também muito importante que o eixo franco-alemão não seja feito de uma forma que dê a impressão de ser exclusivo e discriminatório. Foi um pouco o caso do acordo entre Merkel e Sarkozy, mas muito menos sensível no momento a que assisti, de Merkel e Hollande, além de vários outros.

  • O regresso do lápis azul? Esqueçam, hoje existe o Twitter!

    15 janeiro 2013

    Hoje e amanhã, 15 e 16 de janeiro, discute-se em Lisboa a reforma do Estado social, à porta fechada. Significa isto que os jornalistas foram convidados a registar o discurso de abertura da conferência, proferido pelo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, Carlos Moedas, e o discurso de encerramento do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, amanhã. Tudo o mais deverá ficar entre as paredes do Palácio Foz, onde se realiza o debate.

    As regras definidas para a conferência foram claras: "Não haverá registo de imagens e som senão na sessão de abertura e encerramento. A permanência de jornalistas na sala pode manter-se, mas não haverá citações de nada sem expressa autorização dos citados", noticiou a TSF.

    A decisão da organização levou vários jornalistas a abandonar a sala por considerarem que as regras impostas violam o livre exercício da sua profissão: informar!

    Mas houve quem ficasse, como o Filipe Caetano, editor do site tvi24.pt que vai informando os seus seguidores sobre o decorrer da conferência através da sua conta no Twitter.

  • Revista de imprensa Incerteza, o vocábulo para 2013

    02 janeiro 2013

    No adeus a 2012, sucedem-se as previsões mais ou menos fatalistas para o ano que agora se inicia. Numa curta e rápida análise da imprensa portuguesa, há previsões para todos os gostos, com a palavra incerteza como pano de fundo.

    O Diário Económico escreve que em "2013, líderes vão a exame" num ano que "dificilmente será bafejado pela sorte":

    A recessão vai continuar, o desemprego a subir, a pobreza e a exclusão social vão agravar-se. Este é o pano preto de fundo de um ano em que tudo estará em exame. Será a prova dos nove para o caminho que está a ser imposto pela ‘troika' para sair da crise e para as várias lideranças – nacionais e europeias. (...) Analisar a crise nacional sem olhar ao que se passa na Europa é um exercício míope. Para o bem e para o mal, grande parte do que se passará em Portugal em 2013 será imposto pelas lideranças europeias. O debate na Europa tem a vantagem de estar mais adiantado. Já se percebeu que só há um caminho: mais federalismo. As intervenções do Banco Central Europeu são a prova disso. Os mercados de dívida pública acalmaram no ano passado perante a ação de força e unificada dos banqueiros europeus. Para uma crise sistémica, só uma solução global.

    O diretor do Diário Económico, António Costa, acredita que "o ano novo de 2013 começa em setembro e será mais do mesmo, para pior":

    Mais austeridade, mais ajustamento, mais empobrecimento. Não é uma questão de pessimismo, é apenas realismo sobre um ano novo que começará, verdadeiramente, em setembro, depois do regresso de Portugal aos mercados, das eleições alemãs e das eleições autárquicas em Portugal (...).

    No seu editorial, o Diário de Notícias comenta "a mensagem do Presidente" [da República portuguesa Aníbal Cavaco Silva], que no primeiro dia do ano anunciou ao país o que já se sabia, que

    tem dúvidas sobre algumas das normas que constam no Orçamento do Estado e, por isso, vai pedir a fiscalização sucessiva do Tribunal Constitucional. (...) Na mensagem de Ano Novo, o Presidente da República acrescenta apenas mais incerteza a 2013. (...)

    No entanto, o diário lisboeta salienta que o diagnóstico feito pelo Presidente

    revela lucidez. Assume que é urgente restaurar a confiança dos cidadãos, que é fundamental que o Governo seja firme na Europa e sublinha que os sacrifícios têm de ter um sentido claro de modo a que as pessoas confiem que estes "valem a pena". A dúvida que sobra é saber se, mais de um ano e meio depois de tudo ter piorado, os portugueses ainda acreditam que 2013 pode ser o ano do princípio da recuperação.

    O jornal Público encerrou 2012 com um editorial pouco otimista, ao afirmar que "depois do fracasso do experimentalismo, Portugal precisa de realizamo e sensatez":

    Nunca a atual geração encarou o dia de Ano Novo com tanta incerteza e medo como neste final de 2012. Pela frente conseguem-se vislumbrar apenas uma certeza e duas incógnitas. A certeza é a de que o Orçamento é uma ficção incumprível que exigirá mais sacrifícios e transformará o quadro macroeconómico num pesadelo que vai avolumar o caudal de falências e de desemprego. As incógnitas resultam do impacte deste cenário na viabilidade do Governo e das linhas que força que vão orientar o futuro próximo da União Europeia e da moeda única.

  • Entrevista Gianni Pittella: “É preciso virar já a página da austeridade”

    03 dezembro 2012

    No dia 29 de novembro, a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu aprovou a posição da assembleia sobre a supervisão do sistema bancário europeu. Esse documento servirá de base às negociações com os Estados-membros, permitindo ao Conselho de Ministros das Finanças, em 4 de dezembro, adotar um texto sobre a união bancária. É uma questão que o vice-presidente do Parlamento, Gianni Pittella, tem acompanhado de perto. Nesta entrevista, concedida na véspera da votação da Comissão, fala sobre o assunto ao Presseurop. Presseurop – Em que ponto estamos, em matéria de união e supervisão bancária? Gianni Pittella – Berlim não queria que o Banco Central Europeu (BCE) pudesse exercer controlo sobre os bancos menos importantes, e em especial sobre os quase 1600 “Landesbanken” (bancos regionais) e caixas económicas alemãs. Mas chegámos a um compromisso: a comissão de supervisão do BCE exercerá as suas competências sobre os bancos nacionais e aqueles cuja falência poderia causar um risco sistémico, para além dos que tenham solicitado ajuda financeira para superarem as suas dificuldades. As autoridades bancárias nacionais ficam com a supervisão sobre outros bancos. Mas o BCE terá a possibilidade, se considerar necessário, de também se debruçar sobre alguns, caso a caso. Ao Parlamento cabe garantir que não haja conflitos de interesses entre a autoridade de controlo e os bancos controlados. Uma questão sensível, em especial devido à extrema permeabilidade do setor bancário. Para além disso, decidimos que o presidente e o vice-presidente da comissão de fiscalização devem ser eleitos após aprovação pelo Parlamento Europeu – como o próprio presidente do BCE, aliás –, para garantir o controlo democrático do organismo. Vamos também requerer que a comissão de supervisão esteja em contacto permanente com a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento. Quanto à entrada em vigor, esperamos que o Conselho aprove o documento na cimeira de 13 e 14 de dezembro, de modo a que a supervisão entre gradualmente em funcionamento no início de 2013. Uma vez aprovada essa comissão de supervisão bancária, quais as etapas para chegarmos a uma verdadeira união bancária? Há ainda alguns passos a dar, nomeadamente em matéria de harmonização de regulamentos sobre depósitos bancários. Mas o mais importante é realmente a supervisão. É uma verdadeira revolução: passamos de 27 supervisores nacionais – algo absolutamente contraditório na Europa, onde há bancos supranacionais, uma real desvantagem – para um único. Não seria possível evitar novas crises bancárias mantendo o sistema atual. A instituição de uma supervisão bancária única tem ainda a vantagem de encetar um círculo virtuoso: se fizermos a união bancária, podemos fazer a união económica e fiscal. E daí passamos à união política. Porque não faz sentido partilhar ao nível da UE os aspetos económicos e financeiros, e não o aspeto político. Acredita na união política? Sim! Apesar de haver resistências que devemos esforçar-nos por superar. E espero que, a partir de 2014, data das próximas eleições europeias, possamos instituir uma nova Convenção Europeia, que dote a União com novas regras no plano político e que fixe o quadro da futura união política. Acha que o Parlamento tem um papel a desempenhar na vida económica da União e na busca de soluções para a crise económica? Com o Tratado de Lisboa, o Parlamento tornou-se codecisor. Penso que, dentro de alguns anos, se tornará uma verdadeira câmara legislativa. A prazo, a verdadeira câmara legislativa da União Europeia deverá ser o Parlamento. Hoje, queremos fazer ouvir as nossas vozes sobre a forma de gerir a crise. Lutamos para fazer ouvir aos arautos da austeridade que todas as análises confirmam que os efeitos de uma política baseada apenas na austeridade são devastadores: a dívida pública não recua, a recessão instala-se, o desemprego aumenta, a procura interna retrai-se, a Europa perde competitividade internacional e as previsões de um retorno ao crescimento dizem que só em 2014. Tem propostas alternativas? É preciso virar já a página da austeridade. É hora de investir. Queremos um plano europeu de crescimento, coesão social e desenvolvimento sustentável. Um plano baseado no financiamento de redes de infraestruturas materiais e imateriais. Das primeiras fazem parte as redes ferroviárias, de energia, telemáticas e as energias renováveis. As segundas incluem educação, formação, investigação e mobilidade da juventude. É um plano de centenas de milhares de milhões de euros, que temos de pôr em prática rapidamente. E onde pensa arranjar esses milhares de milhões de euros, quando os Estados-membros enfrentam cortes orçamentais por vezes enormes, por falta de dinheiro? Precisamos de criar títulos de tesouro europeus – as famosas euro-obrigações –, para reunir cerca de três biliões de euros. Esse montante, não fui eu que o inventei: foram economistas liderados pelo [ex-presidente da Comissão Europeia] Romano Prodi e o [economista italiano] Alberto Quadro Curzio. 2,3 biliões seriam para a mutualização da dívida europeia, tratando, pois, de reduzi-la; os 700 mil milhões restantes seriam usados para financiar o plano de investimentos. Temos de dizer a Angela Merkel e aos cidadãos alemães: "Vejam, o lançamento destas euro-obrigações não vos vão custar um cêntimo, porque a garantia das euro-obrigações é fornecida pelas reservas de ouro dos Estados-membros e pelo seu património público". Os Estados podem assegurar simultaneamente a sua própria dívida pública e uma possível dívida europeia? As suas reservas de ouro e património são perfeitamente suficientes. Podíamos decidir que os Estados gastassem em euro-obrigações a parte do PIB que excedesse os 60% [a dívida pública admitida pelos critérios de convergência do euro]. Tecnicamente, é viável. Devemos assumir que é a solução certa. Depois disso, se, para apoiar os euro-obrigações, Angela Merkel exigir que se avance para a união fiscal, ou seja, que os Estados-membros da zona euro cumpram os critérios estabelecidos no pacto fiscal e que haja [da parte da UE] controlos mais rígidos sobre as políticas orçamentais, concordo. Desde que também se avance com a união política. Mencionou a possibilidade de o Parlamento se tornar na câmara legislativa da UE. Atualmente, esse papel é desempenhado pelo Conselho. Como vê a relação entre as duas instituições, nesse cenário? Imagino um poder legislativo de duas câmaras – o Conselho será a segunda câmara, uma espécie de Senado –, em que ambas têm poderes iguais. O presidente do Conselho seria equiparado a um presidente do Senado. A menos que se pense em transformar o Conselho em órgão executivo, mas isso levanta a questão do papel da Comissão. No futuro, imagina uma UE federal ou uma união a duas ou mesmo três velocidades? Ou será uma união mais intergovernamental? A minha ambição era chegarmos a uma união federal. A solução intergovernamental não produziu resultados brilhantes. Porque a lógica intergovernamental é a de dirigir qualquer negociação pelos interesses nacionais. E é claro que esses são divergentes. Uma reforma que é muitas vezes referida nos artigos que publicamos é a da eleição do presidente da Comissão e dos comissários europeus por sufrágio universal. O que pensa disso? Sou a favor da eleição direta do presidente da Comissão. E podia ser já a partir de 2014, sem transtornar as atuais regras que regem as eleições europeias: se os partidos pertencentes a um grupo político no Parlamento Europeu derem indicação, durante a campanha, de qual é o seu candidato à presidência da Comissão, os eleitores votariam nele. Se o Partido Socialista Europeu indicar o atual presidente do Parlamento, Martin Schulz – como é meu desejo, porque tem a envergadura necessária para o lugar –, todos os partidos afiliados indicariam Schulz como candidato. O que pensa da hipótese de listas eleitorais transnacionais, com candidatos que se apresentariam em países que não o seu? Sou a favor. E sou também a favor da eleição dos comissários europeus de entre os eurodeputados, pois isso retirava a sua nomeação aos governos e resolvia o défice democrático, um dos males que afligem a Europa de hoje.

     

    Entrevista de Gian Paolo Accardo

  • Era uma vez um aeroporto...

    21 novembro 2012

    No começo dos anos 60, em plena Guerra Fria, a ditadura portuguesa cedeu à força aérea alemã uma base junto à cidade de Beja. Com a Alemanha Federal encostada à Cortina de Ferro, em caso de guerra os Mig do Pacto de Varsóvia demorariam poucos minutos a entrar no espaço aéreo da NATO e a atacar os aeródromos ocidentais. Para evitar um Pearl Harbour germânico, alguns F-104 estavam estacionados em Beja, a pouco mais de uma hora de voo do território pátrio, prontos a retaliar. Felizmente este cenário, digno do filme Dr. Strangelove de Stanley Kubrick, nunca se concretizou. Portugal viveu o 25 de abril de 1974, o Muro de Berlim caiu, a duas Alemanhas uniram-se e a base foi desativada. Sobejou uma infraestrutura magnífica com pistas, radio ajudas, hangares, aerogare, etc. À custa de uns milhões de euros foi adaptada em 2010 a aeroporto civil, esperando-se que viesse a captar fluxos turísticos no sul de Espanha e no Algarve. Não foi bem assim e, passado pouco mais de um ano, perante a evidência de fraquíssima procura de passageiros, o aeroporto foi encerrado.

    Gritou-se “mais um elefante branco!”, mais dinheiro público enterrado em obras sem sentido, eis porque estão as finanças lusas num estado lamentável. Coincidiu o encerramento do aeroporto com a fase inicial do Governo de Passos Coelho e com as diatribes contra o despesismo, público, putativo pai e mãe de todos os males da pátria lusa. Agora, no preciso momento em que, a austeridade pela austeridade se revela um beco sem saída e a popularidade do Governo cai a pique, descobre-se que, afinal, a pista de Beja tem utilidade: as grandes companhias mundiais de logística precisam de pistas longas, situadas em zonas pouco povoadas e onde possam operar 24 horas por dia. Nesta perspetiva, Beja deixou de ser um elefante branco para se metamorfosear num cisne resplandecente. Afinal havia aeroporto...

  • Debate Democracia reduzida aos mínimos?

    13 setembro 2012

    Perante a paralisia dos responsáveis nacionais, outras estruturas – Banco Central Europeu, Tribunal Constitucional alemão, Tribunal de Justiça Europeu – assumiram as rédeas dos assuntos europeus. Uma distorção da democracia que é urgente reparar, considera um politólogo francês.

    Haverá melhor expressão do paradoxo atual da democracia europeia do que o seu destino ter estado, por estes dias, suspenso das decisões do conselho do Banco Central Europeu (BCE) e do Tribunal Constitucional alemão? Os dirigentes políticos europeus, perfeitamente convencidos da sua impotência, senão mesmo da sua ilegitimidade, em vencer a "batalha da credibilidade" dos Estados face aos mercados financeiros, consentem em entregar as suas margens de manobra a órgãos “independentes” e a procedimentos de sanção automáticos (o famoso Tratado de Estabilidade). E assim, juízes (nacionais e europeus) e banqueiros centrais ficam com os papéis principais na condução quotidiana dos assuntos europeus.

    Mais, numa forma de inversão simbólica, são agora os "independentes" que ocupam o terreno do debate sobre o futuro da União política, estendendo o seu campo de intervenção muito para lá da legitimidade exclusivamente funcional que resulta do seu mandato original. Assim, da defesa da "estabilidade dos preços", os dirigentes do BCE rapidamente passaram à reivindicação de "reformas estruturais" (mercado de trabalho, moderação salarial, etc.), chegando, mais recentemente, a imiscuir-se no cerne dos debates sobre a arquitetura da futura união política...

    Isso, quando não se metem mesmo diretamente na redação dos futuros tratados, como acontece atualmente, no caso da missão atribuída ao chamado grupo dos “4 sábios” (presidentes, respetivamente, do Conselho Europeu, da Comissão Europeia, do Eurogrupo e… do BCE). Suprema ironia, estes "independentes" não hesitam em confrontar os Estados com as suas obrigações democráticas: o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, e Mario Draghi, do BCE, não declararam repetidamente a necessidade de ser mantido um certo grau de "responsabilidade democrática" nos novos dispositivos institucionais? E o Tribunal Constitucional alemão não se assumiu várias vezes como último baluarte da defesa do parlamento nacional? E muitos outros exemplos…

    Tudo se combina, em suma, para vincar a precariedade da legitimidade democrática na UE e o sólido posicionamento de instituições do foro “apolítico” – tribunais, bancos centrais, organismos ou autoridades, etc. –, apesar de duas décadas de reforço esforçado dos poderes do Parlamento Europeu. A cadeia de delegação de competências de poderes democraticamente eleitos para instituições "independentes" não para, pois, de crescer.

    Torna-se, assim, difícil partilhar a segurança de um José Manuel Durão Barroso, que, ainda em junho passado, por ocasião da cimeira do G-20, considerava que "a Europa não tem lições de democracia a receber" dos países emergentes na economia mundial. Quem ouve: “redirecionar o curso da construção europeia”, faria melhor em fazer uma constatação, mais realística, de que se trata de uma democracia europeia reduzida aos mínimos.

    A mera introdução da eleição direta do presidente da Comissão – palavra de ordem da diplomacia alemã – não basta para dar um novo impulso democrático à política europeia no seu conjunto. Pode até revelar-se uma nova quimera europeia, se acompanhada – como desejam ansiosamente os conservadores alemães – pela concessão de novos poderes ao Banco Central e ao Tribunal de Justiça.

    A revisão da União política deve prioritariamente deter-se a elaborar novas formas de relações democráticas com essas instituições "independentes". Não é de todo altura para perder tempo em debates sobre as respetivas esferas de competência; trata-se, sim, de repensar os dois pilares em que tem assentado a sua autoridade: uma determinada noção de independência, concebida como um distanciamento dos interesses em presença, por um lado; e uma certa pretensão a objetividade científica nos seus diagnósticos e veredictos, por outra.

    Quanto ao primeiro aspeto, a introdução de uma forma de representação dos parceiros sociais e das minorias políticas garantiria uma verdadeira “independência”, evitando que esses novos espaços de política europeia sejam tomados por um grupo, uma fação ou uma ideologia. Esse pluralismo é a única forma capaz de abrir o espaço de controvérsias inapelavelmente técnicas e políticas, expandindo o perímetro do debate para lá do círculo de economistas e advogados: e este é o segundo aspeto. Como ainda controlam a nomeação dos membros das referidas instituições, os governos ainda têm maneira de abrir essas caixas negras; e só nessa condição as instituições democráticas europeias – a começar pelo Parlamento Europeu – não se tornarão simples fogo de vista

  • Entrevista (2/2) Martin Schulz: “Os dirigentes europeus estão dois anos atrasados”

    24 julho 2012

    O euro ainda pode ser salvo, considera Martin Schulz. Mas isso exigiria que os chefes de Estado e dos governos europeus se esforçassem por superar os jogos políticos inerentes à sua função e dessem ouvidos ao Parlamento. Na entrevista concedida ao Presseurop (leia a primeira parte aqui), o presidente do Parlamento Europeu traça a imagem de chefe do Parlamento que quer construir: um contrapoder representante das pessoas perante a Comissão e o Conselho Europeus.

    A crise do euro entrou no terceiro verão. A moeda única ainda pode ser salva?

    Sim, acho que o euro ainda pode ser salvo. Isso vai depender um pouco da vontade de cada um colocar, finalmente, em prática um sistema de gestão sustentável da Zona Euro. Na última cimeira [do Conselho Europeu, a 28 e 29 de junho], chegámos a acordo numa reunião, à noite, e no dia seguinte, dois governos declararam: "Mas não era isso que queríamos dizer." Incidentes desses são desastrosos. Somos uma zona económica forte, com uma moeda forte – e 17 governos. Isso não pode manter-se.

    A crise do euro foi objeto de 25 cimeiras e de "decisões históricas", que de históricas só têm o nome. A situação provoca a cólera dos cidadãos, descontentes por verem os governos da Europa obstinados em manter o status quo. O que diria aos cidadãos europeus, para que não deixem de acreditar na Europa?

    Tento dirigir mensagens positivas aos cidadãos e cidadãs europeus. Digo-lhes que, se quisermos, se agirmos em conjunto, podemos ser muito fortes. E se não agirmos juntos, se nos fracionarmos em unidades independentes, com a Alemanha sendo o maior país e Malta o mais pequeno, tornar-nos-emos um joguete dos interesses de outras regiões do planeta.

    Costumamos falar de países "emergentes", como o Brasil, a África do Sul, a Índia, a China... Espero, para o bem dos europeus, que não venhamos rapidamente a falar de nações "imergentes". Para evitar isso, precisamos de uma Europa forte e unida. 

    O problema não são as instituições, mas a relutância em unir-se, manifestada pelos chefes dos governos, não só da Zona Euro, mas de todos os 27 Estados-membros. Esta relutância resulta do fosso ideológico que existe no Conselho, onde se defrontam, de um lado, a visão apresentada pela Alemanha e também pela Holanda, a Finlândia e mais alguns – "Não vamos pagar pelos outros" – e, do outro, a noção de que apenas uma partilha da dívida pode ser solução para os nossos problemas, representada por países que exageram no sentido oposto. Mas se não formos capazes de construir uma ponte entre essas duas posições e encontrar um compromisso sólido, vamos caminhar para tempos difíceis. É isto que tenho para dizer aos eleitores e eleitoras.

    Quer fazer do Parlamento uma instituição capaz de enfrentar o Conselho de Chefes de Estado e de Governo. O que seria melhor para a Europa, se dependesse do Parlamento?

    Agimos por maiorias claras. Vou-lhe dar três exemplos. Há dois anos, o Parlamento pediu e apresentou um pacto de investimento de 1% do PIB da Zona Euro. A proposta foi rejeitada [pelo Conselho]. No ano passado, votou a favor de um imposto sobre operações financeiras, com 570 votos a favor – uma maioria como nunca tinha visto, saída de todos os grupos. Teve o mesmo fim, rejeitada. Finalmente, há dois anos, o Parlamento solicitou, por uma maioria esmagadora, uma união bancária. Mais uma vez, a proposta foi recusada.

    E hoje, com um atraso de 24 meses, o Conselho Europeu decide criar uma união bancária, um imposto sobre transações financeiras e um pacto de crescimento de 1% – e quer que lhe atiremos flores. São as mesmas ideias que o Parlamento lhes propôs e que os chefes de Estado e de Governo arrogantemente recusaram. Com isso, perdemos 2 anos. Em suma: o Parlamento Europeu funciona; os chefes de Governo é que, infelizmente, não.

    Ninguém se importa com o significado de uma abstenção recorde nas eleições europeias, de 5 em 5 anos. Como fazer para que essa consulta não seja mais uma oportunidade para os eleitores se manifestarem contra os governos nacionais?

    Acho que é a primeira vez, em eleições europeias, que alguns candidatos apresentam a sua linha política por toda a Europa. Há, portanto, um candidato dos socialistas, um dos conservadores, ouro dos democratas liberais, dos verdes, etc., a concorrer à presidência da Comissão. Isso vai originar campanhas eleitorais em que se opõem programas e indivíduos. E, finalmente, deixa de se tratar de governos nacionais: a questão é saber se a Europa vai ser governada à esquerda ou à direita.

  • Entrevista (1/2) Martin Schulz: “O Parlamento Europeu é o centro da democracia da Europa”

    20 julho 2012

    Martin Schulz não tem papas na língua. Na entrevista que deu ao Presseurop, durante uma visita oficial a Paris, o presidente do Parlamento Europeu recordou que a sua instituição ainda luta por um lugar na paisagem da União Europeia: contra os mercados que querem impor o seu ritmo à democracia, contra a falta de visibilidade do trabalho dos deputados europeus, mas também contra dirigentes europeus que ainda têm uma ideia bastante pobre do funcionamento democrático da UE. Preside ao Parlamento Europeu há seis meses e até 2014. Qual é a linha-mestra do seu mandato? O Parlamento Europeu é o centro da democracia da Europa. Essa democracia precisa de ser defendida e não de ser submetida ao princípio de que os mercados têm de regular a democracia. Precisamos que os mercados sejam controlados pela democracia. Isso não passa apenas pelos quadros nacionais. Precisamos de um parlamentarismo transnacional que dê legitimidade às instituições executivas transnacionais. Esse é o dever do Parlamento Europeu. Isso nunca foi bem aceite pelos executivos. Mas, na história, Parlamento algum alcançou os seus direitos como um presente dos poderosos. Sempre lutámos pelos direitos parlamentares. É esse o meu dever primordial. O Parlamento dispõe de todos os meios necessários para cumprir essa missão? Tem todos os meios. É suficientemente forte para utilizar as suas disposições legislativas. Por exemplo, o Conselho de Ministros da Administração Interna decidiu unilateralmente excluir o Parlamento de uma parte da gestão do espaço Schengen. O Parlamento suspendeu cinco grandes questões e não haverá negociações até o Conselho abandonar esse equívoco. Já recebi sinais de que haverá um regresso do Conselho à mesa de negociações. Os presidentes do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu trabalharam recentemente juntos no relatório "Rumo a uma verdadeira união económica e monetária". O presidente do Parlamento Europeu não participou nele. Gostaria que o tivessem convidado ou isso faz parte da ordem das coisas? Isso reflete a maneira de ver de alguns representantes da União Europeia. Não vivemos na época do Congresso de Viena, onde as potências europeias se reuniam à porta fechada para depois comunicarem aos surpresos súbditos o que tinham decidido fazer. Somos uma democracia multinacional. O Parlamento Europeu – e neste caso o presidente do Parlamento Europeu – ser excluído revela o grau de pensamento democrático dessas pessoas. Surpreendeu-me que só Durão Barroso [presidente da Comissão Europeia] colocasse objeções. Não espero isso de Van Rompuy [presidente do Conselho Europeu], porque ele é o representante das pessoas que não querem saber do Parlamento. Nem todas, mas da maioria. De Draghi [presidente do BCE], não espero nada e, até hoje, Jean-Claude Juncker [presidente do Eurogrupo] não se expressou sobre este assunto. Mas obtivemos uma vitória: o Parlamento está agora integrado no processo e vai ser consultado, a par dos governos nacionais, sobre o projeto apresentado por Van Rompuy. E depois se verá. Uma Europa federal exige um Parlamento mais poderoso. Não parece ser essa a visão atual. O Parlamento Europeu é muito poderoso. Creio que somos um dos legisladores mais poderosos da Europa. O ACTA [Acordo Comercial Anticontrafação], por exemplo, foi recusado pelo Parlamento Europeu. O SWIFT, o código de transferência de dados bancários para os Estados Unidos, foi recusado pelo Parlamento Europeu [e aprovado após renegociações]. Recorde-se a diretiva sobre serviços, a chamada diretiva Bolkestein: foi rejeitada pelo Parlamento Europeu. Mesmo a descida das tarifas das chamadas de telemóveis, o “roaming”, é decisão do Parlamento. Temos um problema: somos um legislador poderoso, com baixa visibilidade. O papel do presidente do Parlamento Europeu é lutar contra isso. Como explica isso? Os governos nacionais, que são outro braço do sistema legislativo na Europa, têm a vantagem de dispor de uma audiência nacional. Isso permite-lhes transformar cada um dos nossos êxitos em êxito nacional. O Parlamento Europeu muitas vezes apaga-se assim. Por outro lado, não temos um governo na Europa. De momento, a Comissão Europeia é o governo europeu, com uma maioria governamental a apoiar o presidente da Comissão e uma oposição que luta contra isso. Temos o sistema que os eleitores conhecem, a nível local, regional e nacional, mas não a nível europeu. Espero que, nas próximas eleições europeias, a partir das quais o presidente da Comissão passará a ser eleito pelo Parlamento Europeu, se crie essa estrutura: uma maioria do presidente da Comissão que o elegeu, que concorda com ele e o apoia, contra uma minoria de oposição. Espero que isso venha a dar ao Parlamento visibilidade junto do público. Um Parlamento colhe a sua legitimidade da votação. O Parlamento Europeu poderia aumentar a sua através de uma eleição verdadeiramente europeia. Como presidente do Parlamento, tem condições para promover eleições europeias com listas transnacionais?

    Acho que estamos a caminhar nessa direção. Decorre do Tratado de Lisboa, que prevê que o Conselho Europeu proponha um candidato ou candidata ao Parlamento para a presidência da Comissão, respeitando os resultados das eleições europeias. As principais famílias políticas da Europa estão atualmente a desenvolver um processo de nomeação de um candidato a nível europeu para o cargo de presidente. Isto irá gerar uma campanha que, pela primeira vez, não é um apelo à eleição do Parlamento Europeu. O que é estranho. A identificação dos eleitores com a sua tendência política é reproduzida pela batalha dos candidatos, não por um apelo à eleição de uma instituição. Os eleitores tiveram dificuldade em perceber o que vai acontecer com o seu voto: o que aconteceu aos deputados que elegi? O que vão fazer com o meu voto? Isso reduziu as eleições europeias a uma espécie de teste nacional. Acho que, da próxima vez, teremos outra situação. Isso irá aumentar a participação. E a legitimidade do Parlamento.

    (Entrevista continua)

  • Entrevista a Viviane Reding “Portugal está a fazer uma coisa historicamente incrível”

    18 maio 2012

    A 14 de maio, o Público publicou uma entrevista de Teresa de Sousa a Viviane Reding, vice-presidente da Comissão Europeia e comissária responsável pela Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania. Reding esteve em Portugal a 4 de maio para apoiar os esforços que o país está a fazer para cumprir os seus compromissos com a troika. A comissária europeia considerou fundamental que a Europa volte a falar com os seus cidadãos, propondo uma grande consulta pública. Aqui fica a entrevista na íntegra: Hoje, a Europa tem pela frente problemas enormes... Para todos nós e não apenas para vocês. Deixe-me apenas acrescentar que os momentos em que há problemas são sempre os momentos mais propícios para fazer reformas. Quanto tudo corre bem, ficamos todos sentados. O Luxemburgo, que é um país onde tudo corre bem, acaba de apresentar as suas primeiras medidas de austeridade. Podemos então começar por aí. Essa palavra "austeridade" tem sido a palavra-chave do debate europeu. Não corremos um risco de má interpretação dessa palavra, que leve as pessoas a rejeitá-la e, com ela, a própria ideia de Europa? Tem razão. O nosso problema de endividamento é menos grave do que, por exemplo, nos Estados Unidos. O nosso problema de défice é menos grave. Já ouviu os americanos queixarem-se? O euro é mais forte que o dólar e nós agimos como se houvesse um problema do euro, quando não há. O euro é uma moeda forte, a segunda moeda de reserva no mundo e é, sobretudo, a solução dos problemas, não é a sua causa. O problema é que nós todos, embora em graus diferentes, acumulámos demasiada dívida, o que pesa nos nossos orçamentos nacionais e que pesará nas gerações futuras que deverão pagá-la. Portanto, temos de fazer qualquer coisa agora. Como tudo parecia correr bem, esquecemo-nos de fazer as reformas estruturais que seriam necessárias. Porque o mundo mudou e a Europa deixou-se ficar para trás? Absolutamente. Devemos fazê-las agora para que este continente, que é a nossa verdadeira riqueza, se mantenha uma economia dominante no mundo. E também precisamos de conseguir que fale a uma só voz. É a comissária da Justiça, da Cidadania e dos Direitos Fundamentais num momento em que falamos apenas de dívida, de défices, de austeridade, de soluções financeiras. Imagino que deva estar muito preocupada com aquilo que se passa hoje na Europa, com a emergência do populismo, da xenofobia, do nacionalismo. Há muita gente que hoje vê a Europa como responsável pelo seu sofrimento e isso é perigoso, incluindo para a sua legitimidade. Tocou em muitas questões. A questão de fundo é a dos valores europeus e estes são a longo prazo, não a curto prazo. A crise é de curto prazo, é um problema que temos de resolver agora. Temos de encontrar agora os meios para reduzir os custos para as gerações futuras e fazer com que haja de novo empresas competitivas que façam a economia crescer. Há respostas técnicas a dar. Podemos, com meios legislativos, abrir o mercado interno, onde ainda há muitos entraves que impedem as PME de fazer os seus negócios transfronteiriços, aumentar os seus mercados, poder empregar mais gente. Não podemos pensar em abrir os mercados, se os fechamos à livre circulação das pessoas. É um disparate completo. Mas foi o que vimos defender nas eleições francesas: a reposição das fronteiras. É um completo disparate. Não podemos desenvolver o mercado interno se fechamos as fronteiras aos seres humanos, o que contradiz completamente toda a legislação, todos os nossos tratados, todos os nossos valores. Os desvios a que assistimos hoje são desvios que resultam do medo e de um pensamento eleitoralista a muito curto prazo. Recuso-me a entrar neste pequeno jogo porque é um jogo destrutivo. O que temos de fazer é tomar medidas para recolocar a economia a funcionar, não para os bancos, mas para os cidadãos. Por que razão o presidente Barroso tomou a decisão de juntar o dinheiro dos fundos estruturais e do fundo social para ajudar o emprego dos jovens? Porque é preciso encontrar uma resposta para as pessoas. Não é uma resposta ideológica nem eleitoralista, é uma resposta para criar a sociedade futura que nós desejamos. E aí há um problema de fundo. Durante anos, conseguimos fazer avançar a integração europeia, mas negligenciámos um pouco a tarefa de explicar todas as medidas que fomos tomando aos cidadãos, de as discutir com eles e de lhes perguntar o que pensavam. Há este défice. Fizemos a política entre os políticos e deixámos os eleitores um pouco fora deste círculo. Por isso lhe coloquei a questão da legitimidade da Europa. Por isso, lançámos a 9 de maio o Dia da Europa uma consulta inédita aos cidadãos que pretende ser muito ampla. Que vai perguntar ao homem da rua: quais são os seus problemas face à Europa? Quais são os seus sonhos? O que é mais frustrante na maneira como se está a construir a Europa? O que gostaria que fizéssemos? Será uma consulta que se prolonga até setembro, que envolve associações nacionais e cujos resultados vão ser analisados para lançar um grande debate público ao longo de 2013, que é o Ano Europeu do Cidadão. Vamos para o terreno. Não queremos fazer a política europeia a partir de Bruxelas, mas em Coimbra, no Porto. Mas acredita que as conclusões dessa consulta vão ter alguma influência nas decisões dos governos? Deixe-me continuar. Teremos uma consulta pública para nos ajudar a preparar esse Ano Europeu do Cidadão. Acabei de discutir isso com os parlamentares portugueses e com membros do Governo. Toda a gente deve participar nesta iniciativa, ir ao terreno, discutir com as pessoas. Saberemos, no fim desta consulta, quais são os problemas que as pessoas querem ver discutidos. Esta consulta vai conduzir-nos a um grande relatório para ser apresentado no dia 9 de maio do próximo ano sobre a cidadania europeia. Para mostrar que a Europa não se pode construir sem os europeus. Mas, entretanto os cidadãos europeus votam e, graças a isso, também sabemos o que pensam. Há um problema político de rejeição da ideia europeia. Está a misturar coisas diferentes... Já disse que há questões a curto prazo e que têm a ver com a forma de sair da crise. E estamos a tratar delas. A sua proposta é no mais longo prazo? Escreveu um artigo a defender cinco etapas para chegar a uma união política. Justamente, mas precisamos de preparar isso. E o que queremos para este Ano Europeu do Cidadão é que todos os políticos, nacionais, regionais, locais, estejam de novo a escutar as pessoas. É o princípio de uma nova forma de fazer as coisas. Há o curto prazo e há o longo prazo. Em 2014, haverá eleições para o Parlamento Europeu. É preciso que os cidadãos, com conhecimento de causa, saibam que exigências podem fazer aos partidos políticos. O ano de 2014 deve ser o ano dos partidos políticos europeus que devem, nessa altura, apresentar os seus planos perante os cidadãos. O clima na opinião pública não parece disponível para um salto dessa natureza. O que vemos no Eurobarómetro é que a confiança dos cidadãos nos dirigentes políticos está a descer. É ainda um pouco mais alta nas instituições europeias do que nas nacionais, mas as duas linhas descem em paralelo. É um enorme perigo. Porque, se não há a confiança dos povos nos seus dirigentes nacionais e europeus, a democracia não pode funcionar. A resposta que dou é essa: voltemos a falar com os cidadãos. Porque não o fazemos há anos, essa é que é a verdade. Devemos também explicar que o euro, por exemplo, é uma solução para os problemas, não é o problema. A solidariedade que a Europa pode dar aos Estados é a resposta aos problemas, não é o problema. Portugal está a fazer uma coisa historicamente incrível. Num período de crise nacional encontra a força para o consenso político. Encontra? Sim. Se comparar Portugal com outros países. É admirável e é um exemplo. E estou aqui para dizer: nós estamos a ver o que vocês estão a fazer, têm o nosso apoio, não estão sozinhos. Disse que as reformas precisam de tempo para dar frutos. É justamente esse o problema: como conciliar o médio prazo com o curto prazo imposto pelo programa de ajustamento da troika. A Europa ainda não tem uma resposta. Que resposta poderia ter? Há o tratado orçamental, mas podia haver outras coisas. A Comissão já falou delas: eurobonds, maior intervenção do BCE... O que é que a Europa pode fazer se o que faz é ignorado pelos media? Os media falam todos do tratado orçamental. E, já agora, parabéns a Portugal por ter sido o primeiro a ratificá-lo. Foi uma declaração de independência face aos mercados. Mas todas as medidas para que haja uma evolução dos mercados, dos investimentos para a criação de emprego, são medidas que a Comissão já pôs em cima da mesa desde o ano passado. Mas continuam em cima da mesa... Não. Estão em vias de aplicação. Já lhe dei o exemplo dos fundos estruturais. Estamos em vias de reforçar o Banco Europeu de Investimento (BEI), porque o grande problema é a falta de financiamento às empresas por causa da fraqueza da banca. São instrumentos importantes que estão a ser disponibilizados. E a Comissão já apresentou a proposta dos “project bonds” para poder financiar as grandes infraestruturas. E garanto-lhe que teremos os “project bonds”. Porque, se queremos fazer as reformas e os investimentos estruturais, é necessário dinheiro a médio e longo prazo. E o último Conselho Europeu tinha o quê como tema? O crescimento. Mas o resultado, por enquanto, é o agravamento da recessão na Europa. É preciso tempo para ver os resultados. Mas estou de acordo com a maneira como colocou a questão: temos esta dificuldade de articular o curto com o médio prazo. Temos problemas de curtíssimo prazo: os salários são reduzidos agora, os postos de trabalho são perdidos agora. As políticas que pusemos em marcha para responder a isso terão resultados mais tarde. Há este tempo em que se torna difícil de compreender o que estamos a fazer. Isso tem um preço social muito alto. Qual é o limite? É esse o problema político. É um problema político para toda a Europa. Começámos tarde a fazer as reformas que, com ou sem crise, seriam necessárias. E fazemo-las todos ao mesmo tempo e em pânico. Mas devemos saber que as fazemos em conjunto e que, se conseguirmos vencer esta crise, será em conjunto. A única coisa que temos, do ponto de vista económico, é o Mercado Interno. É aí que estão as oportunidades para as nossas empresas. Agora, também temos de construir até 2020 essa nova Europa política, que tem de ser muito mais capaz do que no passado de tomar decisões comuns e de não discutir com trinta vozes dissonantes, mas de avançar em conjunto. E isso será possível? Vinte anos depois do Tratado de Maastricht, tínhamo-nos esquecido de acrescentar à união monetária a união económica. É o que fazemos agora. A crise também nos está a demonstrar que, se não acrescentarmos no médio prazo a união política, isto não avançará. Comecemos agora a prepará-la porque ela não nos vai cair do céu. A crise, pelo menos, mostrou-nos o caminho.

  • Quando irá o céu desabar sobre as nossas cabeças?

    19 abril 2012

    Os últimos dias na Península Ibérica parecem tão negros como o céu carregado de nuvens cinzentas em plena primavera. Enquanto o cerco a Espanha começa a apertar-se, obrigando o próprio primeiro-ministro Mariano Rajoy a vir a público negar rumores de um possível resgate, o já de si fragilizado mercado português – um quarto das exportações portuguesas tem como destino o país vizinho – vai-se preparando para o pior. E quando, há escassas semanas, as notícias davam eco de uma troika satisfeita com o desempenho luso para conseguir uma saída airosa da crise – à custa, é um facto, de mais e mais austeridade sobre o massacrado povo português -, o último relatório do Fundo Monetário Internacional, de 17 de abril, parece apontar em sentido contrário e deixa no ar um aviso alarmante: vem aí uma nova crise. Entre os vários alertas à navegação deixados aos líderes europeus, destaca-se claramente uma chamada de atenção para a "austeridade em demasia". No entanto, como bem sabemos, as medidas de austeridade constam das condições impostas pela troika (FMI/BCE/UE) para o empréstimo de 78 mil milhões de euros ao nosso país. Perante esta evidência, apraz-me dizer que de demagogia estamos todos fartos. Parece-me este um daqueles alertas como o do adulto que dá uma caixa de fósforos a uma criança e depois lhe diz "cuidado que podes queimar-te!"... Um artigo do NRC Handelsblad dá conta de que o Fundo Monetário Internacional, salvador dos países pobres da UE (que graças a tantas ajudas se arriscam a ficar ainda mais pobrezinhos), é menos conciliador sob a liderança da francesa Christine Lagarde. O artigo termina com uma referência ao presente oferecido por Lagarde a Merkel, num encontro entre ambas em Berlim: uma vela perfumada com flor de laranja, simbolizando a esperança. Talvez fosse melhor se tivessem tomado um cházinho de camomila: esse sim tem um efeito calmante, e, quem sabe, levaria as duas damas de ferro a abrandarem a marcha, quando se trata de mandar na vida de todos nós. Entretanto, e como se não bastassem as más notícias, o correspondente em Bruxelas do Financial Times, Peter Spiegel, escreve a 19 de abril, no blogue daquele jornal: "Quando irá Portugal precisar de um segundo resgate?". Ou seja, por mais que o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho se esforce por dar sinais aos mercados de que Portugal não precisará de um novo resgate financeiro, outros ultrapassaram já o campo das hipóteses: não se trata de saber "se", mas "quando" irá acontecer.

  • Entrevista a Thomas Nicholson "Um escândalo de corrupção faz bem à democracia"

    15 março 2012

    Eis o homem que agitou a Eslováquia. Durante anos Thomas Nicholson, jornalista de investigação canadiano que vive naquele país do leste europeu, tentou publicar o ficheiro “Gorila”, sobre políticos corruptos eslovacos.

    Ninguém lhe ligou, até ao início deste ano, quando os documentos que recebera de um agente secreto surgiram na Internet. O ficheiro teve um impacto significativo nas eleições gerais de 10 de março. “Os políticos terão cada vez mais dificuldades em praticar atos de corrupção”, afirma Nicholson, com quem me encontrei num café de Bratislava, ainda no rescaldo das eleições.

    Há quem diga que o “Gorila” empurrou mais pessoas para os braços do líder social-democrata Robert Fico. O que pensa do regresso de Fico ao poder?

    Fico surpreendido com o escasso efeito que o ficheiro “Gorila” surtiu nestas eleições. A expectativa era que houvesse menor participação eleitoral, pois as pessoas teriam perdido confiança na democracia. A direita ficaria absolutamente destruída, pois é a principal afetada por este escândalo de corrupção.

    Estava no poder quando tudo aconteceu. Na verdade, porém, tivemos a maior participação desde 2002 (60%). A direita foi castigada mas obteve uma segunda oportunidade.

    Há muita coisa positiva nestas eleições. Primeiro, os nacionalistas não regressaram ao Parlamento. E, finalmente, temos Fico num Governo de um partido só, que não terá desculpas, nem nacionalistas ou populistas para culpar pela corrupção ou pelo fracasso da sua política. É uma boa receita para uma governação melhor do que a da última vez que Fico esteve no poder [2006-2010].

    Penso que, feitas as contas, embora estas eleições tenham trazido más notícias para a direita, elas correram tão bem quanto se poderia esperar. As pessoas estavam fartas da instabilidade, das discussões estúpidas e da incapacidade para alcançar compromissos. O “Gorila”, afinal, pouco teve que ver com isto. As pessoas estavam fartas da instabilidade. O próprio Fico não é santo, mas, comparado com a direita, representa a estabilidade, que era o que os cidadãos procuravam.

    Ao que parece, Fico é mencionado no document “Gorila”. Pensa que as investigações irão continuar durante este seu segundo Governo?

    Fico não está diretamente ameaçado pelo “Gorila”, mas o seu partido sim. É óbvio que o seu secretário esteve no apartamento suspeito [onde políticos se reuniam com membros do grupo financeiro Penta e onde os serviços secretos instalaram microfones. As respetivas transcrições constituem o ficheiro “Gorila”], aceitou dinheiro do grupo financeiro Penta para o seu partido, o Smer. É muito difícil dizer se Fico apoiará ou não a investigação. A opinião pública está muito zangada por causa desde ficheiro, o descontentamento atravessa todo o espectro partidário. Se Fico quisesse marcar pontos, poderia aparentar apoiar a investigação. Mas sabemos como funciona a política. Ele terá facilidade em pará-la. O ficheiro foi “enterrado”, em 2006, por Josef Magala, chefe dos serviços secretos eslovacos (SIS), e, quando a polícia o pôs nas mãos de Fico, o falhanço foi total. Logo, é provável que ele não seja um entusiasta desta investigação.

    Acredita que, graças à revelação deste escândalo, a Eslováquia vai tornar-se um país mais democrático?

    Acredito. Pode soar a ingenuidade, mas tenho motivos concretos para pensar assim. Não creio que volte a ser possível um grupo financeiro entrar em negócios com o Governo, ou com politicos. No futuro essas ligações serão politicamente muito perigosas para os politicos que decidirem tê-las. Como consequência da investigação ao “Gorila” haverá muitas iniciativas centradas na transparência e na clareza da política. Sou um pbom exemplo. É provável que abandone o jornalismo e crie um sítio na Internet, uma base de dados de ligações entre política, grupos financeiros e crime organizado. Estará disponível aos eleitores, sobretudo na altura da próxima eleição. Variadíssimas iniciativas deste tipo irão surgir nos próximos quatro anos.

    O público ganhou poder, ao perceber como funciona a corrupção. É importante que as pessoas saibam como se articulam oligarquias, políticos, emissários políticos. Não há organismos do Governo a fornecer este ripo de informação. Tudo isto vem mudar o ambiente que tínhamos. Os políticos terão cada vez mais dificuldade em praticar a corrupção.

    O seu livro sobre o “Gorila” foi proibido por um tribunal de Bratislava. Ainda assim, começou a publicar alguns fragmentos em jornais. O grupo Penta, considerado um tubarão financeiro nas águas da Europa Central, processou-o. Pensa que pode vencê-los?

    A acusação contra mim tem 500 páginas. Mas, ao mesmo tempo, não tem bases para se sustentar. Esta gente, se não pode comprar ou assustar uma pessoa, fica sem ideias, porque não sabe fazer mais nada. Além do incómodo pessoal que é ser processado por essa gente, não preciso de dinheiro, nem de fama, nem de nada, realmente. E não tenho nada a perder. Como disse Janis Joplin, há muito tempo: a palavra liberdade é só outra forma de dizer que nada temos a perder. Na verdade não quero saber o processo deles. Sou representado pela editor Petit Press. Não faz muita diferença o tribunal decidir a meu favor ou contra mim, porque o Penta perdeu no tribunal da opinião pública e estou convencido de que já ninguém tem medo deles. Logo, que lhes faça bom proveito o que conseguirem extorquir da minha casa, que até já tem duas hipotecas.

  • Justiça Portugal indigno

    02 março 2012

    A leitura do editorial do Público de hoje motivou este post indignado, de revolta e até de vergonha. Vergonha de viver num país que trata assim os seus idosos, que lhes tira o direito de viverem com dignidade os últimos anos das suas vidas. Foram abandonados, há nove anos, dentro de um contentor como se de uma casa se tratasse, um cubículo que não oferece sequer condições para cozinhar, obrigando-os a deslocar-se às ruínas de outra casa, nas proximidades – ao frio, à chuva, no meio da lama -, para pôr uma panela ao lume e preparar as refeições. O sistema judicial português tarda e não atua, os lesados morrem muito antes que se faça justiça. Ou veem, como neste caso, os processos serem arquivados. E todos assistimos impávidos a situações como esta, acreditando que, um dia, os tribunais decidirão correta e rapidamente para corrigir erros crassos como este. A solidariedade morreu na Europa e, arrisco-me a dizer, vai morrendo aos poucos dentro de cada um de nós, presos a este sistema viciado, sem saber como sair dele. Infelizmente, a austeridade que se abateu sobre o país não é de hoje. A austeridade sente-se em cada história como a que aqui se conta. Editorial do Público de 2 de março de 2012: "Portugal mora inteiro num contentor O caso tem vindo a ser falado, ora nas televisões ora nos jornais, e de cada vez que é contado parece ainda mais inacreditável. Um casal de idosos viu a sua casa inutilizada em 2003 por via das obras para construir um viaduto na A10, no troço de auto-estrada que liga Bucelas a Benavente. As paredes racharam, o chão fendeu-se, o poço, a garagem e a arrecadação ficaram destruídos. Perante tal cenário, os idosos avisaram os engenheiros no local. Instalaram-nos então num contentor, com tudo o que havia em casa, mobília e outros haveres, dizendo- -lhes que "era só por dois meses". Ora a A10 ficou pronta, mas o contentor ficou ali, com dois seres humanos lá dentro, até hoje. Accionado o seguro, quiseram oferecer aos idosos 30 mil euros pelo estrago. Não aceitaram, alegando que isso não chegava para nada. E o caso foi-se arrastando pelos tribunais, com um processo metido em 2003 em que se pedia uma indemnização de 203 mil euros. Muito? Pouco? A justiça decidiria. Mas o que foi judicialmente decidido, este ano, foi arquivar o processo. Porquê? Porque o empreiteiro faliu em 2007 com um rol tamanho de credores que, entre eles, o casal de idosos ficaria sempre para trás. Pior: entre os credores estão o dono do terreno, o dono do contentor e até o dono dos aparelhos de ar condicionado ali instalados "provisoriamente", que até já foi buscá-los para "amortizar" a dívida. Resultado: o casal de idosos decididamente está a mais. Num país onde só paga quem quer, onde é possível falir e desaparecer, onde a justiça demora anos a decidir o que devia ser decidido em semanas, é um casal de septuagenários (que estava muito descansado em sua casa até lha destruírem) que entope o sistema. Portugal, é caso para dizer, mora inteiro naquele contentor."

  • Um Estado predador

    18 janeiro 2012

    Foi anunciado na passada semana que 117 mil portugueses foram instados pela segurança social a devolver subsídios recebidos de forma alegadamente irregular desde 2004. Trata-se, em muitos casos, de pensionistas idosos que, de um momento para o outro, são confrontados com a obrigação de pagar centenas ou milhares de euros. Têm dez dias para contestar e um mês para pagar, posto o que entram em ação penhoras de bens ou descontos noutras prestações sociais que os atingidos porventura estejam a receber. O argumento oficial apresentado é que o dinheiro indevidamente pago, contabilizado em 570 milhões de euros faz falta para ajudar outras pessoas necessitadas. É dinheiro, mas nada que se compare, por exemplo, aos 4,6 mil milhões que o Estado português já injetou no Banco Português de Negócios (BPN) desde 2008 para o salvar da falência depois de uma sucessão de escândalos e episódios de má gestão e crime puro e simples. O Estado português parece ter-se transformado numa máquina predadora impiedosa quando se trata de cobrar dinheiro aos contribuintes individuais. Em novembro e dezembro foram cobradas milhares de multas de € 15 a automobilistas que, tendo pago o imposto de circulação, o fizeram fora de prazo, o que pode significar poucos dias ou até poucas horas de atraso. É fácil falar grosso com reformados, pensionistas e desempregados para lhes reclamar meia dúzia de tostões. Mas perante a banca que apostou em investimentos especulativos e agravou a crise financeira, quando não branqueou capitais ou desviou fundos, a atitude é a oposta: subserviência total. Para além do que este mesmo Estado que persegue os contribuintes até ao último tostão falha clamorosamente quando tem de prestar serviços àqueles que o sustentam: a lista de espera nos hospitais para intervenções cirúrgicas voltou a crescer, tanto em número de doentes, como em tempo de espera. A médio prazo a perceção de que só se exigem sacrifícios a quem menos pode e de que o Estado só funciona na vertente de cobrador coercivo de impostos vai alimentar ressentimentos que, de uma forma ou doutra vão explodir à luz do dia. Hoje parece-nos estranho que, em 1848, a revolta da Maria da Fonte tenha começado por o Governo ter proibido os enterros nos adros das igrejas. Mas para quem está triste, revoltado e descontente qualquer pretexto pode servir. Olhem para a História antes que seja tarde…

  • Poupar no farelo e gastar no bife

    29 novembro 2011

    Além de levar a cabo a maior e mais violenta alteração na distribuição do rendimento nacional de que há memória no Portugal democrático, reduzindo dramaticamente os rendimentos do trabalho a favor dos do capital, o Governo português insiste em cortes cegos na despesa. Um dos mais caricatos é o fim das entradas gratuitas nos museus públicos ao domingo. Quanto pode o Estado arrecadar com esta medida? Coisa de uns 200 mil euros, no máximo, ou seja sem qualquer impacto real nas contas. Em contrapartida, aquilo que poderia ser uma coisa boa em tempo de crise – visitar a rede de museus públicos – passa a ser desincentivada. Os avós poderiam levar os netos ao Museu de Arte Antiga e mostrar-lhes o melhor da pintura quinhentista portuguesa. Assim sai-lhes do bolso. Os desempregados ou os estudantes (a estes retiraram os descontos nos passes sociais) poderiam ser tentados a ver, ou rever, os azulejos setecentistas (no Museu do Azulejo) ou a memória do passado colonial português (Museu de Etnologia). Mas não. Passa a custar dinheiro, que já é pouco nos bolsos de boa parte dos portugueses. Perante as críticas, a Secretaria de Estado da Cultura (deixou de ser Ministério com este Governo) esgrime um argumento genial: os operadores turísticos já tinham percebido que havia borlas e concentravam as visitas dos estrangeiros, nomeadamente dos que desembarcam dos grandes paquetes, aos domingos. Se o problema fosse este, talvez fazer uma separação na bilheteira entre nacionais e estrangeiros que, podendo parecer desagradável ou xenófoba, já vigora, por exemplo para o Castelo de São Jorge (Câmara de Lisboa) ou para o Convento dos Capuchos (Parque de Sintra/Monte da Lua). Há múltiplos modelos de exploração e gestão dos museus por essa Europa fora. Por exemplo, todos os grandes museus britânicos são gratuitos, da National Gallery à Tate Gallery, do British Museum ao Imperial War Museum. Quando muito paga-se, apenas, a visita às exposições temporárias, o acervo geral é de acesso livre. Pelos vistos, os talibãs do liberalismo quando vão a Londres não passam das lojas de Oxford Street…

  • Tecnologia O estranho mundo de Jobs

    11 outubro 2011

    Com Bill Gates, Stephen Wozniak e outros, Steve Jobs fica para a História como um dos homens que mais mudou o mundo na viragem do milénio. Das suas mãos saíram os primeiros Apple, computadores pessoais muito mais versáteis e fáceis de usar que os outros. Depois veio o iPod, para a música, o iPhone para as comunicações móveis e por fim o iPad. Todos abriram novas dimensões no quotidiano, para não dizer que ajudaram a criar um universo virtual onde passámos, também, a ter existência e vida paralelas. 

    Mas, como escrevia recentemente Mike Daisey, Jobs notabilizou-se, ainda mais, pelos produtos que não criou. Se lhe parecia que um novo dispositivo, por muito avançado tecnologicamente que fosse, não tinha mercado, não hesitava em matá-lo à nascença. Deixou a Apple na liderança do mercado quando se afastou pela primeira vez e voltou para a salvar da ruína em 1997, com o sucesso que se sabe.

    A grande ironia é que os pioneiros de Sillicon Valley eram idealistas e sonhavam com um mundo melhor. Os primeiros Apple funcionavam praticamente como um sistema aberto, no qual o Windows de Gates se viria a inspirar. A ideia dos jovens génios em ascensão era levar o conhecimento e a capacidade de comunicar a todos, fossem velhos ou novos, ricos ou pobres.

    Um ideal fraterno que não retrata a forma como a companhia evoluiu. Os smartphones, computadores e similares passaram a ser fabricados na China, em condições laborais (para não dizer de direitos humanos) pavorosas. E, em vez de sistemas abertos e partilhados, vigora uma ditadura da Apple sobre os utilizadores, taxando todas as aplicações e vigiando todos os seus passos.

    A grande ironia, como escreveu Daisey é que hoje em dia não existe nenhuma empresa de tecnologia que se pareça mais com a sociedade concentracionária e totalitária do “Big Brother” imaginado por George Orwell do que a Apple.

  • Madeira A vitória à Pirro de Alberto João Jardim

    10 outubro 2011

    Quando, no ensino secundário, ainda se ensinava História Universal, aprendíamos a história de Pirro, rei de Épiro que veio socorrer as colónias gregas do sul de Itália, ameaçadas pela expansão romana. Pirro era um adepto da ofensiva a todo o custo e usava elefantes que aterrorizavam os legionários romanos que nunca tinham visto tais monstros, muito menos no campo de batalha.

    Numa das suas ofensivas mais brilhantes, em Ásculo (279 a.C.) destruiu completamente os exércitos romanos mas à custa de tantas perdas do seu próprio lado que acabaria por ficar sem forças para continuar a guerra.

    Apesar do dilúvio de críticas, da sucessão de revelações sobre a manipulação das finanças e o incumprimento dos limites ao endividamento da Madeira, Alberto João Jardim conquistou a maioria absoluta nas eleições regionais de 9 de Outubro.

    Mas a que custo! O Governo de Lisboa já fez saber que pondera passar a condicionar a autorização prévia todas as despesas do Governo Regional acima dum determinado montante. Os mesmos eleitores que vitoriaram Jardim poderão, nos próximos meses, ser confrontados com um cenário que lhes fizeram crer que nunca aconteceria: portagens nas auto-estradas e túneis, fim das isenções de taxas e impostos, cortes na Função Pública, ou seja, a receita da Troika tal como tem sido servida aos contribuintes do Continente, de cujos bolsos tem saído o pagamento do regabofe madeirense.

    Alberto João ganhou no imediato mas comprometeu o futuro: Pirro deve estar a rir-se na cova.

     
  • Crise da dívida A culpa é dos guarda-freios...

    10 outubro 2011

    Ouvimos recentemente um ex-líder do partido governamental fazer na televisão uma diatribe contra os responsáveis pelo estado em que as finanças do país se encontram. E a quem apontou Marques Mendes um dedo acusador: Aos banqueiros que especularam sem pensar nos riscos? Aos empresários que não modernizaram tecnologias nem processos de gestão? Ao sistema de ensino que não forma mão-de-obra qualificada? Ao sistema judicial que leva anos a julgar um processo, quando não o deixa, pura e simplesmente, prescrever?

    Nada disso! Os verdadeiros culpados da crise são os maquinistas do Metro porque têm um prémio de condução. Os marinheiros da Transtejo porque têm prémios de assiduidade. Os guarda-freios da Carris porque as suas irmãs solteiras podem ser transportadas gratuitamente.

    Finalmente se percebeu a raiz da crise portuguesa e, quem sabe, mundial. É por um pobre de Cristo levar para casa mais 50 ou 100 euros em subsídios ao fim do mês que o país se endividou. Suspeito, aliás, que os lucros destas inqualificáveis mordomias tenham sido aplicados em Wall Street ou em «offshores», contribuindo para a bolha especulativa e para a falência da Lehman Brothers e quejandas.

    Nada mal as observações de Marques Mendes num país onde, desde que o atual Governo começou a aplicar o programa de ajustamento financeiro, se assistiu à mais violenta e brusca transferência de rendimentos do trabalho a favor do capital de que há memória no Portugal democrático.

    Um dia depois das extraordinárias declarações de Marques Mendes percebeu-se ao que vinham: depois de ter aumentado indiscriminadamente os preços dos bilhetes sem proteger o passe social, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira ia ao Parlamento, supostamente para anunciar novas medidas no setor dos transportes. Não o fez porque, segundo disse, ainda não tinha o dossiê suficientemente estudado mas deu uma resposta lapidar quando um deputado lhe perguntou que pensava das mordomias dos marinheiros, maquinistas e guarda-freios zurzidas na véspera pelo seu correligionário: «haverá alguma coisa que estará mal nesse campo mas estou mais ralado com as mordomias dos gestores das empresas dos transportes...»

  • Crise da dívida Os ricos que paguem a crise

    02 setembro 2011

    Numa altura em que os governos europeus preparam os orçamentos de Estado para 2012 e em que é pedida mais austeridade à classe média para equilibrar as contas públicas, eis que os “super-ricos” viram beneméritos e decidem pagar a crise do seu bolso. 

    O norte-americano Warren Buffett abriu as hostilidades ao sugerir que que os impostos sobre os rendimentos e sobre os investimentos deviam ser aumentados para quem tiver mais de um milhão de dólares de rendimento coletável. E, de repente, os “super-ricos” europeus sugeriram o mesmo. Primeiros os franceses, depois os italianos e até os alemães. A notícia correu o mundo e depressa chegou ao nosso país. Questionado pelos jornalistas sobre as intenções dos seus congéneres europeus, Américo Amorim (o “super-rico” de Portugal) limitou-se a responder que não era rico, mas sim trabalhador. A polémica instalou-se. Nas televisões, jornais e rádios multiplicaram-se os comentários às declarações de Amorim. Então, os milionários europeus tomam a iniciativa de ajudar a pagar a crise e os nossos renunciam à condição de “super-ricos”? 

    Entretanto, ao contrário de outros governos, o senhor primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, já anunciou que em Portugal, pelo menos para já, não haverá lugar a nenhum imposto extraordinário sobre as grandes fortunas. Afinal de contas, é do interesse nacional atrair os grandes capitais e não repeli-los. Haja bom senso! 

    Esta polémica trouxe-me à memória um professor dos meus tempos de liceu. Segundo ele, a grande diferença entre um pequeno empresário e um empresário de sucesso estava na forma como estes investiam o seu capital. Enquanto o empresário de sucesso recapitaliza os seus ativos em novos negócios, o pequeno empresário compra um Mercedes para si e um Vison para a madame. Uma história que ilustrava perfeitamente, na altura, o conceito de capitalismo. Mas o que têm o Mercedes e o Vison que ver com o Américo Amorim e com as grandes fortunas europeias? Tudo!

    A melhor contribuição dos “super-ricos” para o bem comum reside em continuar a investir na criação de emprego, na produção de riqueza. Não é através da cobrança de mais impostos sobre os ricos que os pobres ficam menos pobres. Aliás, o nível de riqueza da Europa não foi produto da redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres através dos impostos. Foi produto da criação de riqueza num ambiente de liberdade económica. Portanto, o que devemos exigir aos “super-ricos” não é mais impostos, mas TRABALHO.

    Autor: Eduardo Gomes Madeira

  • Entrevista Paolo Rumiz: "o coração da Europa bate a Este”

    05 agosto 2011

     Para o autor de Aux frontières de l’Europe [Nas fronteiras da Europa], os únicos lugares onde ainda é possível encontrar a alma do Velho Continente é em alguns antigos países comunistas e ao longo da fronteira externa da União Europeia.

    Como surgiu a ideia de percorrer toda a fronteira oriental da União Europeia?

    PAOLO RUMIZ: Estava à procura de uma fronteira que ainda desempenhasse esse papel. Venho de Trieste, sou um filho da fronteira. Nasci no mesmo dia em que foi estabelecida a fronteira à volta de Trieste, a 20 de dezembro de 1947. Esta fronteira foi derrubada após sessenta anos de existência [quando vários países da Europa Oriental entraram no espaço Schengen], o que coincide com o meu sexagésimo aniversário. Nessa noite, eu e a minha companheira polaca [a fotógrafa Monika Bulaj], olhámos um para o outro e dissemos: “Após sessenta anos a querer derrubar as fronteiras, o que vamos fazer, agora que as fronteiras já não existem?” Esta situação abriu uma porta para novos horizontes: o que acontecera ao sentido misterioso que a fronteira representava? Nesse dia, estava um pouco embriagado, um pouco eufórico, enquanto serrávamos a velha barreira da fronteira jugoslava, no meio de um bosque do Vale de Rosandra, onde se encontrava a última pousada italiana antes da Jugoslávia. Decidi que iria partir em busca desta verdadeira fronteira: um lugar ainda vigiado por verdadeiros guardas de fronteiras. 

    Conseguiu encontrá-los? 

    E de que maneira! Estão a imaginar? Se tivesse feito esta viagem há 25 anos, [já depois de regressar à Eslovénia], nunca teria sido necessário mostrar o meu passaporte, por ainda estar no espaço do Pacto de Varsóvia e da antiga URSS. Desta vez, aconteceu o oposto, as constantes entradas e saídas do espaço Schengen e da União Europeia (UE) fizeram com que me deparasse – sobretudo entre a Noruega e a Rússia, e entre a Letónia e a Rússia – com fronteiras com uma rigidez incrível, superior ao período anterior à queda do Muro. Queria ver o que existia por detrás dessa barreira, desse limite. Mas rapidamente se consegue perceber que, apesar dessas barreiras absurdas, não há qualquer diferença entre os dois lados da fronteira, e que na realidade a linha de fronteira da União Europeia atravessa várias regiões transfronteiriças com nomes maravilhosos, como a Curlândia [Lituânia], a Bótnia [Escandinávia], ou ainda a Dobrudja [Roménia/Bulgária], que já existiam antes do grande fervor nacionalista do século XIX e que constituem o verdadeiro coração do Continente.

    Consta-se que o centro geográfico da Europa se situa a oeste da Ucrânia…

    A Europa tem vários centros: um na Lituânia, um nos Cárpatos, um na Polónia… Depende da forma como se mede a Europa. Não há dúvidas de que tem mais altura do que largura. O centro da Europa não passa, por enquanto, de uma mera imitação do Ocidente, apesar de ter traços muito semelhantes aos do Oriente. Esta combinação entre o eslavismo e o judaísmo, que é a alma profunda da Europa, só a encontrei nessas regiões fronteiriças. A feminilidade maternal e os grandes rios que encontrei na Rússia, na Ucrânia e na Polónia são tal e qual o que eu imaginava e procurava. Para mim, é lá que bate o coração da Europa. 

    Do seu livro emana um amor quase descomedido pelo espírito eslavo e o estilo de vida das pessoas que conheceu. E uma espécie de desgosto perante alguns aspetos da Europa Ocidental. Qual é o problema?

    É um mundo mais homogéneo, mais falso, de celuloide, onde o tempo passa cada vez mais depressa e se consome numa troca frenética e constante de correios eletrónicos e mensagens via telemóvel. Um mundo onde se perdeu o contacto com a terra – “zemljia”, em russo; um nome que, juntamente com “voda”, a água, esteve presente ao longo de todo o meu percurso. 

    No seu livro, elogia a autenticidade dos habitantes dessas regiões fronteiriças. No entanto, a maioria deles tem apenas um desejo, o de viver na Europa Ocidental ou adotar o seu estilo de vida. 

    É óbvio que não nos podemos esquecer disso. No entanto, podemos relembrar-lhes, sem lhes dizer que estão profundamente enganados, que nem tudo é um mar de rosas deste lado da fronteira. Os idosos têm consciência disso: apercebem-se de que a solidariedade que marcava as relações entre as pessoas deixou de existir nos jovens ocidentalizados. 

    Evoca frequentemente “a alma eslava” no seu livro. Como a definiria? 

    Os eslavos têm consciência de que não são o cérebro do Continente, mas de certa a forma as tripas. Manifestam abertamente os seus instintos, o que pode resultar numa agressividade incrível ou, noutras situações, numa ternura inesquecível. No meu livro, relato uma situação em Minsk, onde um acordeonista é abordado por um grupo de mulheres que lhe dizem: “Força Igor, faz-nos chorar!”. Um pedido que nunca teria sido feito por um ocidental. Teria pedido em vez disso, uma canção para anestesiar a sua vida demasiado tumultuosa e sem sentido. O que eu adoro nos eslavos é esta partilha do lado tenebroso e melancólico da vida.

    Será que a Europa mudou, com a adesão de uma dezena de países ex-comunistas?

    Mudou, porque contribuíram com uma injeção de nacionalismo impressionante: desse ponto de vista, os polacos são um desastre. Transmitem aquela sensação de que são um povo mártir, que resistiu ao Moloch comunista. Redescobriram o nacionalismo, quando este terminou. Na Polónia, esta é uma reação patológica. É um mundo autocentrado. O que aconteceu ao avião do presidente Lech Kaczynski [que se despenhou em Smolensk, em abril de 2010] serve de exemplo: está fora de questão fazer figuras tristes perante os russos!

    Na sua obra, parece criticar a Europa e as suas instituições…

    Acuso a Europa e a Itália de estarem a dormir e não não verem as forças nacionalistas e centrífugas que as dividem. Não retiramos qualquer lição dos Balcãs: basta indicar um inimigo a uma população desorientada, para esta o considerar como tal. Hoje em dia, uma classe dirigente em declínio que pretenda transformar um braço de ferro político em braço de ferro étnico, não terá qualquer dificuldade em fazê-lo. Já não temos anticorpos antifascistas, tal como não temos anticorpos da crítica. Desse ponto de vista, a Itália – assim como a Bélgica – é uma zona de risco, onde se pode encontrar uma vitimização regionalista exasperada. Uma forma de rancor da parte da periferia para com o centro. 

     

    Entrevista de Gian Paolo Accardo.

  • Mercado Único Mario Monti: "Os Estados devem assumir as suas responsabilidades"

    23 maio 2011

    Antigo Comissário Europeu, primeiro responsável pelo Mercado Interno, Serviços Financeiros e Política Fiscal e depois pela Concorrência, Mario Monti é um dos grandes especialistas – e defensores – do Mercado Único europeu. Foi nessa qualidade que, em 2010, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, lhe encomendou um relatório sobre "Uma nova estratégia para o Mercado Único". O Presseurop falou com ele em Florença, por ocasião do Festival d'Europa. Será que Mario Monti considera que o facto de serem postos em causa alguns princípios do Mercado Único, como a livre circulação, resulta da crise atual ou revela uma tendência mais profunda? "As presentes dificuldades económicas contribuem evidentemente para isso", responde. Também lamenta a "tendência para se viver com menos aceitação, com menos entusiasmo" do que no início do Mercado Único. O presidente da Universidade Bocconi, em Milão, refere a existência de um "cansaço da integração", que se manifestou designadamente quando dos referendos de 2005, em França e na Holanda, e de um "cansaço do mercado enquanto tal". Por causa da crise financeira, "muitas pessoas interrogaram-se sobre se a economia de mercado seria a solução ideal". Para o antigo comissário, "essa é, evidentemente, a única solução", ainda que o seu funcionamento e a sua supervisão precisem de ser aperfeiçoadas. A complexidade do Mercado Único e, também, dos processos políticos e legislativos europeus contribui em muitos casos para o desinteresse ou mesmo para o euroceticismo dos europeus. "É difícil explicar os benefícios frequentemente invisíveis mas reais do Mercado Único", admite Mario Monti. É por isso que, em seu entender, é preciso "alterar de forma controlada algumas políticas para o Mercado Único". "Muitas das minhas sugestões foram objeto de propostas específicas da Comissão", congratula-se o autor da Nova Estratégia para o Mercado Único. Falta obter o apoio dos Estados-membros e dos seus dirigentes, que enfrentam desafios eleitorais ou dificuldades económicas. Mario Monti não tem ilusões e considera que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, deveria dedicar uma sessão do Conselho ao Mercado Único, "para fazer com que fosse assumida uma responsabilidade visível, ao mais alto nível dos nossos governos". O antigo comissário pensa que, nesse caso, "seria um pouco mais difícil alguém demarcar-se e ficar na sombra" perante "o esforço comum requerido pelo crescimento, pelo emprego e pela solidez do euro a longo prazo". Alguns dias após o anúncio do plano de ajuda a Portugal e num momento em que a situação da Grécia suscita muita preocupação e muitos boatos sobre uma eventual saída da moeda única, deverá a Europa recear o agravamento da crise? "Espero que o pior já tenha passado", diz Mario Monti. E acrescenta: "Aconteça o que acontecer, a Europa está agora numa melhor situação para lhe fazer face". O antigo comissário congratula-se por a Europa ter "recuperado os seus atrasos com uma rapidez notável" e dispor agora de uma governação "muito mais eficaz".

  • Portugal-Finlândia Do panorama económico ao despique virtual

    17 maio 2011

    Enquanto Portugal aguarda, ansioso, pelo "sim" finlandês ao plano de ajuda financeira já acordado com a troika, os internautas de Portugal e da Finlândia dão a conhecer os feitos de ambos os países. A troca de mimos começou com a exibição de um vídeo intitulado "O que os finlandeses devem saber sobre Portugal", exibido na semana passada, nas Conferências do Estoril 2011. A iniciativa da Câmara Municipal de Cascais teve como objetivo levantar o moral português, contou ao Expresso o presidente da autarquia, Carlos Carreiras. A resposta ao vídeo não tardou. Da Finlândia chegou "O que os portugueses devem saber sobre a Finlândia" e, à semelhança do vídeo português, exaltam-se os feitos históricos alcançados pela república escandinava. Mas numa clara demonstração de que os finlandeses até têm fair-play, a mensagem final do vídeo revela o amor da Finlândia por Portugal: "Podíamos gozar com a difícil situação financeira em Portugal. Mas não o fazemos, porque o nosso coração e a nossa mente estão convosco. Com amor, Finlândia". Portugal agradece e espera agora que este amor possa tocar os corações dos políticos finlandeses que se opõem à ajuda financeira a Portugal. Está na hora de provarem que são tão solidários com os portugueses como estes foram com os finlandeses, em 1940 (ver no final do vídeo promovido pela Câmara de Cascais).

  • Desinvestimento no caminho-de-ferro Portugal em contra ciclo

    27 janeiro 2011

    Dois dos diversos boicotes às eleições presidenciais de 23 de janeiro tiveram um denominador comum: o protesto contra a falta de comboios. Em Serpins, no centro do país, protestou-se por causa duma situação caricata: a CP acabou com os comboios no Ramal da Lousã para os substituir pelo Metro. Desde há meses, não há comboio, nem metro e as pessoas que moram na Lousã e trabalham em Coimbra passaram a viajar de carro ou de camioneta. No Muro, freguesia da Trofa (Minho) o comboio de via estreita terminou há nove anos, também para se instalar uma linha de metro. Até hoje… São os casos mais mediáticos mas não passam da ponta do icebergue. A CP e a REFER que exploram, respetivamente, o material circulante e a infraestrutura, anunciam a iminente desativação de, pelo menos, 600 km de vias férreas, do Alentejo ao Norte do país. Como sempre são as linhas com interesse regional as mais sacrificadas. Com o pormenor caricato de a via estreita no Douro acabar de vez, sacrificando traçados ferroviários com enorme potencial turístico e interesse regional, caso das linhas do Corgo e do Tua (na primeira destas a circulação fora interrompida há um ano para obras de melhoramento). A crise, pelos vistos, é má conselheira e encoraja soluções de curto prazo em detrimento duma visão de futuro. Por um lado, faz-se o discurso ecológico, apelando às energias renováveis e às alternativas ao petróleo. Por outro sobre-investe-se na rodovia, nomeadamente nas autoestradas que, depois, têm de ser portajadas, e no automóvel que, embora cada vez mais evoluído tecnologicamente, continua a gastar petróleo importado e a emitir gases de estufa. Pelo preço de 1 km da autoestrada sob a serra do Marão repunha-se em funcionamento o troço final da Linha do Douro, do Pocinho a Barca d’Alva, com potencial turístico de ligação a Salamanca (Espanha). Fazer política é escolher e, infelizmente, as escolhas portuguesas em matéria de transportes são más. Não é só o TGV que é crítico para o desenvolvimento do país. Os comboios regionais, também. Contanto que sejam explorados de uma forma moderna e ao encontro dos interesses locais. E toda a política europeia de transportes vai no sentido de apostar na ferrovia, de alta, média ou baixa velocidade, por razões ambientais e energéticas. A vizinha Espanha não tem só TGV. Não só não acabou com a via estreita, como a modernizou e unificou a sua gestão numa empresa à escala nacional. Portugal arrisca-se a ficar famoso como o país das autoestradas… desertas.

  • EMBAIXADORA DA ARGÉLIA EM PORTUGAL “Mandela aprendeu a manejar armas na Argélia”

    14 junho 2010

    “Estive em Reguengos de Monsaraz e pareceu-me que estava na Argélia. Senti-me em casa. O vosso país está virado para o Atlântico, mas é mediterrânico”, diz Fatiha Selmane, embaixadora da Argélia em Portugal desde o início deste ano – falando um português já muito razoável: “É importante conhecer a língua do país onde se trabalha. Como existe uma proximidade cultural entre os nossos países, isso facilita a relação. Na década de 60, havia bastantes refugiados políticos portugueses em Argel; o meu pai conheceu alguns. Nesse tempo, a Argélia era uma espécie de Meca dos refugiados. Quando fui embaixadora na África do Sul, Nelson Mandela contou-me que foi na Argélia que aprendeu a manejar armas. A Argélia apoiou muito o ANC e a cantora Miriam Makeba até tinha passaporte argelino”.

    Filha de um professor universitário – doutorado na Sorbonne – , recorda o pai como um homem “privilegiado, porque teve oportunidade de estudar na época da colonização francesa, o que não aconteceu com a maioria dos argelinos. Fomos muito discriminados pelos franceses. Ao contrário da Tunísia e de Marrocos, a Argélia era considerada parte da França”.

    Chick Bouamrane, o pai de Fatiha, percorreu todas as etapas da carreira de professor: deu aulas no ensino primário, secundário, e terminou a carreira ensinando Filosofia na Universidade de Argel. “Eu e os meus dez irmãos concluímos todos a nossa formação universitária”. Depois de acabar o liceu, entrou para a Escola Nacional de Administração. Ao fim de dois anos, optou pela área da Diplomacia: “Quando entrei para o ministério dos Negócios Estrangeiros havia poucas mulheres. Fui promovida a embaixadora em 2001, quando o actual Presidente nomeou as primeiras mulheres” como representantes do país no estrangeiro.

    Foi uma das avós quem a ensinou a falar espanhol: “No tempo dela havia muitos refugiados da guerra de Espanha na Argélia. Estas bases foram-me úteis quando fui trabalhar para Madrid, em 1996: “Também gostei muito de viver em Espanha. Encontrei a mesma afinidade cultural que sinto em Portugal”.

    Mãe de duas filhas – uma com 17, outra com 21 anos – é casada com um auditor financeiro argelino, que suspendeu a actividade profissional para acompanhar a mulher, cuidar das filhas, e assumir as tarefas de cônjuge de embaixadora: “Como sou diplomata, o meu marido está proibido de trabalhar quando está comigo no estrangeiro. Mas tem muitas outras tarefas, incluindo as de organizar recepções...”.

    Texto de Manuela Goucha Soares