O melhor da imprensa europeia

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  • Um Estado predador

    18 janeiro 2012

    Foi anunciado na passada semana que 117 mil portugueses foram instados pela segurança social a devolver subsídios recebidos de forma alegadamente irregular desde 2004. Trata-se, em muitos casos, de pensionistas idosos que, de um momento para o outro, são confrontados com a obrigação de pagar centenas ou milhares de euros. Têm dez dias para contestar e um mês para pagar, posto o que entram em ação penhoras de bens ou descontos noutras prestações sociais que os atingidos porventura estejam a receber.

    O argumento oficial apresentado é que o dinheiro indevidamente pago, contabilizado em 570 milhões de euros faz falta para ajudar outras pessoas necessitadas. É dinheiro, mas nada que se compare, por exemplo, aos 4,6 mil milhões que o Estado português já injetou no Banco Português de Negócios (BPN) desde 2008 para o salvar da falência depois de uma sucessão de escândalos e episódios de má gestão e crime puro e simples.

    O Estado português parece ter-se transformado numa máquina predadora impiedosa quando se trata de cobrar dinheiro aos contribuintes individuais. Em novembro e dezembro foram cobradas milhares de multas de € 15 a automobilistas que, tendo pago o imposto de circulação, o fizeram fora de prazo, o que pode significar poucos dias ou até poucas horas de atraso.

    É fácil falar grosso com reformados, pensionistas e desempregados para lhes reclamar meia dúzia de tostões. Mas perante a banca que apostou em investimentos especulativos e agravou a crise financeira, quando não branqueou capitais ou desviou fundos, a atitude é a oposta: subserviência total.

    Para além do que este mesmo Estado que persegue os contribuintes até ao último tostão falha clamorosamente quando tem de prestar serviços àqueles que o sustentam: a lista de espera nos hospitais para intervenções cirúrgicas voltou a crescer, tanto em número de doentes, como em tempo de espera.

    A médio prazo a perceção de que só se exigem sacrifícios a quem menos pode e de que o Estado só funciona na vertente de cobrador coercivo de impostos vai alimentar ressentimentos que, de uma forma ou doutra vão explodir à luz do dia.

    Hoje parece-nos estranho que, em 1848, a revolta da Maria da Fonte tenha começado por o Governo ter proibido os enterros nos adros das igrejas. Mas para quem está triste, revoltado e descontente qualquer pretexto pode servir. Olhem para a História antes que seja tarde…

  • Poupar no farelo e gastar no bife

    29 novembro 2011

    Além de levar a cabo a maior e mais violenta alteração na distribuição do rendimento nacional de que há memória no Portugal democrático, reduzindo dramaticamente os rendimentos do trabalho a favor dos do capital, o Governo português insiste em cortes cegos na despesa.

    Um dos mais caricatos é o fim das entradas gratuitas nos museus públicos ao domingo. Quanto pode o Estado arrecadar com esta medida? Coisa de uns 200 mil euros, no máximo, ou seja sem qualquer impacto real nas contas.

    Em contrapartida, aquilo que poderia ser uma coisa boa em tempo de crise – visitar a rede de museus públicos – passa a ser desincentivada. Os avós poderiam levar os netos ao Museu de Arte Antiga e mostrar-lhes o melhor da pintura quinhentista portuguesa. Assim sai-lhes do bolso. Os desempregados ou os estudantes (a estes retiraram os descontos nos passes sociais) poderiam ser tentados a ver, ou rever, os azulejos setecentistas (no Museu do Azulejo) ou a memória do passado colonial português (Museu de Etnologia). Mas não. Passa a custar dinheiro, que já é pouco nos bolsos de boa parte dos portugueses.

    Perante as críticas, a Secretaria de Estado da Cultura (deixou de ser Ministério com este Governo) esgrime um argumento genial: os operadores turísticos já tinham percebido que havia borlas e concentravam as visitas dos estrangeiros, nomeadamente dos que desembarcam dos grandes paquetes, aos domingos. Se o problema fosse este, talvez fazer uma separação na bilheteira entre nacionais e estrangeiros que, podendo parecer desagradável ou xenófoba, já vigora, por exemplo para o Castelo de São Jorge (Câmara de Lisboa) ou para o Convento dos Capuchos (Parque de Sintra/Monte da Lua).

    Há múltiplos modelos de exploração e gestão dos museus por essa Europa fora. Por exemplo, todos os grandes museus britânicos são gratuitos, da National Gallery à Tate Gallery, do British Museum ao Imperial War Museum. Quando muito paga-se, apenas, a visita às exposições temporárias, o acervo geral é de acesso livre. Pelos vistos, os talibãs do liberalismo quando vão a Londres não passam das lojas de Oxford Street…

  • Tecnologia

    O estranho mundo de Jobs

    11 outubro 2011

    Com Bill Gates, Stephen Wozniak e outros, Steve Jobs fica para a História como um dos homens que mais mudou o mundo na viragem do milénio. Das suas mãos saíram os primeiros Apple, computadores pessoais muito mais versáteis e fáceis de usar que os outros. Depois veio o iPod, para a música, o iPhone para as comunicações móveis e por fim o iPad. Todos abriram novas dimensões no quotidiano, para não dizer que ajudaram a criar um universo virtual onde passámos, também, a ter existência e vida paralelas. 

    Mas, como escrevia recentemente Mike Daisey, Jobs notabilizou-se, ainda mais, pelos produtos que não criou. Se lhe parecia que um novo dispositivo, por muito avançado tecnologicamente que fosse, não tinha mercado, não hesitava em matá-lo à nascença. Deixou a Apple na liderança do mercado quando se afastou pela primeira vez e voltou para a salvar da ruína em 1997, com o sucesso que se sabe.

    A grande ironia é que os pioneiros de Sillicon Valley eram idealistas e sonhavam com um mundo melhor. Os primeiros Apple funcionavam praticamente como um sistema aberto, no qual o Windows de Gates se viria a inspirar. A ideia dos jovens génios em ascensão era levar o conhecimento e a capacidade de comunicar a todos, fossem velhos ou novos, ricos ou pobres.

    Um ideal fraterno que não retrata a forma como a companhia evoluiu. Os smartphones, computadores e similares passaram a ser fabricados na China, em condições laborais (para não dizer de direitos humanos) pavorosas. E, em vez de sistemas abertos e partilhados, vigora uma ditadura da Apple sobre os utilizadores, taxando todas as aplicações e vigiando todos os seus passos.

    A grande ironia, como escreveu Daisey é que hoje em dia não existe nenhuma empresa de tecnologia que se pareça mais com a sociedade concentracionária e totalitária do “Big Brother” imaginado por George Orwell do que a Apple.

  • Madeira

    A vitória à Pirro de Alberto João Jardim

    10 outubro 2011

    Quando, no ensino secundário, ainda se ensinava História Universal, aprendíamos a história de Pirro, rei de Épiro que veio socorrer as colónias gregas do sul de Itália, ameaçadas pela expansão romana. Pirro era um adepto da ofensiva a todo o custo e usava elefantes que aterrorizavam os legionários romanos que nunca tinham visto tais monstros, muito menos no campo de batalha.

    Numa das suas ofensivas mais brilhantes, em Ásculo (279 a.C.) destruiu completamente os exércitos romanos mas à custa de tantas perdas do seu próprio lado que acabaria por ficar sem forças para continuar a guerra.

    Apesar do dilúvio de críticas, da sucessão de revelações sobre a manipulação das finanças e o incumprimento dos limites ao endividamento da Madeira, Alberto João Jardim conquistou a maioria absoluta nas eleições regionais de 9 de Outubro.

    Mas a que custo! O Governo de Lisboa já fez saber que pondera passar a condicionar a autorização prévia todas as despesas do Governo Regional acima dum determinado montante. Os mesmos eleitores que vitoriaram Jardim poderão, nos próximos meses, ser confrontados com um cenário que lhes fizeram crer que nunca aconteceria: portagens nas auto-estradas e túneis, fim das isenções de taxas e impostos, cortes na Função Pública, ou seja, a receita da Troika tal como tem sido servida aos contribuintes do Continente, de cujos bolsos tem saído o pagamento do regabofe madeirense.

    Alberto João ganhou no imediato mas comprometeu o futuro: Pirro deve estar a rir-se na cova.

     

  • Crise da dívida

    A culpa é dos guarda-freios...

    10 outubro 2011

    Ouvimos recentemente um ex-líder do partido governamental fazer na televisão uma diatribe contra os responsáveis pelo estado em que as finanças do país se encontram. E a quem apontou Marques Mendes um dedo acusador: Aos banqueiros que especularam sem pensar nos riscos? Aos empresários que não modernizaram tecnologias nem processos de gestão? Ao sistema de ensino que não forma mão-de-obra qualificada? Ao sistema judicial que leva anos a julgar um processo, quando não o deixa, pura e simplesmente, prescrever?

    Nada disso! Os verdadeiros culpados da crise são os maquinistas do Metro porque têm um prémio de condução. Os marinheiros da Transtejo porque têm prémios de assiduidade. Os guarda-freios da Carris porque as suas irmãs solteiras podem ser transportadas gratuitamente.

    Finalmente se percebeu a raiz da crise portuguesa e, quem sabe, mundial. É por um pobre de Cristo levar para casa mais 50 ou 100 euros em subsídios ao fim do mês que o país se endividou. Suspeito, aliás, que os lucros destas inqualificáveis mordomias tenham sido aplicados em Wall Street ou em «offshores», contribuindo para a bolha especulativa e para a falência da Lehman Brothers e quejandas.

    Nada mal as observações de Marques Mendes num país onde, desde que o atual Governo começou a aplicar o programa de ajustamento financeiro, se assistiu à mais violenta e brusca transferência de rendimentos do trabalho a favor do capital de que há memória no Portugal democrático.

    Um dia depois das extraordinárias declarações de Marques Mendes percebeu-se ao que vinham: depois de ter aumentado indiscriminadamente os preços dos bilhetes sem proteger o passe social, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira ia ao Parlamento, supostamente para anunciar novas medidas no setor dos transportes. Não o fez porque, segundo disse, ainda não tinha o dossiê suficientemente estudado mas deu uma resposta lapidar quando um deputado lhe perguntou que pensava das mordomias dos marinheiros, maquinistas e guarda-freios zurzidas na véspera pelo seu correligionário: «haverá alguma coisa que estará mal nesse campo mas estou mais ralado com as mordomias dos gestores das empresas dos transportes...»

  • Crise da dívida

    Os ricos que paguem a crise

    02 setembro 2011

    Numa altura em que os governos europeus preparam os orçamentos de Estado para 2012 e em que é pedida mais austeridade à classe média para equilibrar as contas públicas, eis que os “super-ricos” viram beneméritos e decidem pagar a crise do seu bolso. 

    O norte-americano Warren Buffett abriu as hostilidades ao sugerir que que os impostos sobre os rendimentos e sobre os investimentos deviam ser aumentados para quem tiver mais de um milhão de dólares de rendimento coletável. E, de repente, os “super-ricos” europeus sugeriram o mesmo. Primeiros os franceses, depois os italianos e até os alemães. A notícia correu o mundo e depressa chegou ao nosso país. Questionado pelos jornalistas sobre as intenções dos seus congéneres europeus, Américo Amorim (o “super-rico” de Portugal) limitou-se a responder que não era rico, mas sim trabalhador. A polémica instalou-se. Nas televisões, jornais e rádios multiplicaram-se os comentários às declarações de Amorim. Então, os milionários europeus tomam a iniciativa de ajudar a pagar a crise e os nossos renunciam à condição de “super-ricos”? 

    Entretanto, ao contrário de outros governos, o senhor primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, já anunciou que em Portugal, pelo menos para já, não haverá lugar a nenhum imposto extraordinário sobre as grandes fortunas. Afinal de contas, é do interesse nacional atrair os grandes capitais e não repeli-los. Haja bom senso! 

    Esta polémica trouxe-me à memória um professor dos meus tempos de liceu. Segundo ele, a grande diferença entre um pequeno empresário e um empresário de sucesso estava na forma como estes investiam o seu capital. Enquanto o empresário de sucesso recapitaliza os seus ativos em novos negócios, o pequeno empresário compra um Mercedes para si e um Vison para a madame. Uma história que ilustrava perfeitamente, na altura, o conceito de capitalismo. Mas o que têm o Mercedes e o Vison que ver com o Américo Amorim e com as grandes fortunas europeias? Tudo!

    A melhor contribuição dos “super-ricos” para o bem comum reside em continuar a investir na criação de emprego, na produção de riqueza. Não é através da cobrança de mais impostos sobre os ricos que os pobres ficam menos pobres. Aliás, o nível de riqueza da Europa não foi produto da redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres através dos impostos. Foi produto da criação de riqueza num ambiente de liberdade económica. Portanto, o que devemos exigir aos “super-ricos” não é mais impostos, mas TRABALHO.

    Autor: Eduardo Gomes Madeira

  • Entrevista

    Paolo Rumiz: "o coração da Europa bate a Este”

    05 agosto 2011

     Para o autor de Aux frontières de l’Europe [Nas fronteiras da Europa], os únicos lugares onde ainda é possível encontrar a alma do Velho Continente é em alguns antigos países comunistas e ao longo da fronteira externa da União Europeia.

    Como surgiu a ideia de percorrer toda a fronteira oriental da União Europeia?

    PAOLO RUMIZ: Estava à procura de uma fronteira que ainda desempenhasse esse papel. Venho de Trieste, sou um filho da fronteira. Nasci no mesmo dia em que foi estabelecida a fronteira à volta de Trieste, a 20 de dezembro de 1947. Esta fronteira foi derrubada após sessenta anos de existência [quando vários países da Europa Oriental entraram no espaço Schengen], o que coincide com o meu sexagésimo aniversário. Nessa noite, eu e a minha companheira polaca [a fotógrafa Monika Bulaj], olhámos um para o outro e dissemos: “Após sessenta anos a querer derrubar as fronteiras, o que vamos fazer, agora que as fronteiras já não existem?” Esta situação abriu uma porta para novos horizontes: o que acontecera ao sentido misterioso que a fronteira representava? Nesse dia, estava um pouco embriagado, um pouco eufórico, enquanto serrávamos a velha barreira da fronteira jugoslava, no meio de um bosque do Vale de Rosandra, onde se encontrava a última pousada italiana antes da Jugoslávia. Decidi que iria partir em busca desta verdadeira fronteira: um lugar ainda vigiado por verdadeiros guardas de fronteiras. 

    Conseguiu encontrá-los? 

    E de que maneira! Estão a imaginar? Se tivesse feito esta viagem há 25 anos, [já depois de regressar à Eslovénia], nunca teria sido necessário mostrar o meu passaporte, por ainda estar no espaço do Pacto de Varsóvia e da antiga URSS. Desta vez, aconteceu o oposto, as constantes entradas e saídas do espaço Schengen e da União Europeia (UE) fizeram com que me deparasse – sobretudo entre a Noruega e a Rússia, e entre a Letónia e a Rússia – com fronteiras com uma rigidez incrível, superior ao período anterior à queda do Muro. Queria ver o que existia por detrás dessa barreira, desse limite. Mas rapidamente se consegue perceber que, apesar dessas barreiras absurdas, não há qualquer diferença entre os dois lados da fronteira, e que na realidade a linha de fronteira da União Europeia atravessa várias regiões transfronteiriças com nomes maravilhosos, como a Curlândia [Lituânia], a Bótnia [Escandinávia], ou ainda a Dobrudja [Roménia/Bulgária], que já existiam antes do grande fervor nacionalista do século XIX e que constituem o verdadeiro coração do Continente.

    Consta-se que o centro geográfico da Europa se situa a oeste da Ucrânia…

    A Europa tem vários centros: um na Lituânia, um nos Cárpatos, um na Polónia… Depende da forma como se mede a Europa. Não há dúvidas de que tem mais altura do que largura. O centro da Europa não passa, por enquanto, de uma mera imitação do Ocidente, apesar de ter traços muito semelhantes aos do Oriente. Esta combinação entre o eslavismo e o judaísmo, que é a alma profunda da Europa, só a encontrei nessas regiões fronteiriças. A feminilidade maternal e os grandes rios que encontrei na Rússia, na Ucrânia e na Polónia são tal e qual o que eu imaginava e procurava. Para mim, é lá que bate o coração da Europa. 

    Do seu livro emana um amor quase descomedido pelo espírito eslavo e o estilo de vida das pessoas que conheceu. E uma espécie de desgosto perante alguns aspetos da Europa Ocidental. Qual é o problema?

    É um mundo mais homogéneo, mais falso, de celuloide, onde o tempo passa cada vez mais depressa e se consome numa troca frenética e constante de correios eletrónicos e mensagens via telemóvel. Um mundo onde se perdeu o contacto com a terra – “zemljia”, em russo; um nome que, juntamente com “voda”, a água, esteve presente ao longo de todo o meu percurso. 

    No seu livro, elogia a autenticidade dos habitantes dessas regiões fronteiriças. No entanto, a maioria deles tem apenas um desejo, o de viver na Europa Ocidental ou adotar o seu estilo de vida. 

    É óbvio que não nos podemos esquecer disso. No entanto, podemos relembrar-lhes, sem lhes dizer que estão profundamente enganados, que nem tudo é um mar de rosas deste lado da fronteira. Os idosos têm consciência disso: apercebem-se de que a solidariedade que marcava as relações entre as pessoas deixou de existir nos jovens ocidentalizados. 

    Evoca frequentemente “a alma eslava” no seu livro. Como a definiria? 

    Os eslavos têm consciência de que não são o cérebro do Continente, mas de certa a forma as tripas. Manifestam abertamente os seus instintos, o que pode resultar numa agressividade incrível ou, noutras situações, numa ternura inesquecível. No meu livro, relato uma situação em Minsk, onde um acordeonista é abordado por um grupo de mulheres que lhe dizem: “Força Igor, faz-nos chorar!”. Um pedido que nunca teria sido feito por um ocidental. Teria pedido em vez disso, uma canção para anestesiar a sua vida demasiado tumultuosa e sem sentido. O que eu adoro nos eslavos é esta partilha do lado tenebroso e melancólico da vida.

    Será que a Europa mudou, com a adesão de uma dezena de países ex-comunistas?

    Mudou, porque contribuíram com uma injeção de nacionalismo impressionante: desse ponto de vista, os polacos são um desastre. Transmitem aquela sensação de que são um povo mártir, que resistiu ao Moloch comunista. Redescobriram o nacionalismo, quando este terminou. Na Polónia, esta é uma reação patológica. É um mundo autocentrado. O que aconteceu ao avião do presidente Lech Kaczynski [que se despenhou em Smolensk, em abril de 2010] serve de exemplo: está fora de questão fazer figuras tristes perante os russos!

    Na sua obra, parece criticar a Europa e as suas instituições…

    Acuso a Europa e a Itália de estarem a dormir e não não verem as forças nacionalistas e centrífugas que as dividem. Não retiramos qualquer lição dos Balcãs: basta indicar um inimigo a uma população desorientada, para esta o considerar como tal. Hoje em dia, uma classe dirigente em declínio que pretenda transformar um braço de ferro político em braço de ferro étnico, não terá qualquer dificuldade em fazê-lo. Já não temos anticorpos antifascistas, tal como não temos anticorpos da crítica. Desse ponto de vista, a Itália – assim como a Bélgica – é uma zona de risco, onde se pode encontrar uma vitimização regionalista exasperada. Uma forma de rancor da parte da periferia para com o centro. 

     

    Entrevista de Gian Paolo Accardo.

  • Mercado Único

    Mario Monti: "Os Estados devem assumir as suas responsabilidades"

    23 maio 2011

    Antigo Comissário Europeu, primeiro responsável pelo Mercado Interno, Serviços Financeiros e Política Fiscal e depois pela Concorrência, Mario Monti é um dos grandes especialistas – e defensores – do Mercado Único europeu. Foi nessa qualidade que, em 2010, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, lhe encomendou um relatório sobre "Uma nova estratégia para o Mercado Único". O Presseurop falou com ele em Florença, por ocasião do Festival d'Europa.

    Será que Mario Monti considera que o facto de serem postos em causa alguns princípios do Mercado Único, como a livre circulação, resulta da crise atual ou revela uma tendência mais profunda? "As presentes dificuldades económicas contribuem evidentemente para isso", responde. Também lamenta a "tendência para se viver com menos aceitação, com menos entusiasmo" do que no início do Mercado Único.

    O presidente da Universidade Bocconi, em Milão, refere a existência de um "cansaço da integração", que se manifestou designadamente quando dos referendos de 2005, em França e na Holanda, e de um "cansaço do mercado enquanto tal". Por causa da crise financeira, "muitas pessoas interrogaram-se sobre se a economia de mercado seria a solução ideal". Para o antigo comissário, "essa é, evidentemente, a única solução", ainda que o seu funcionamento e a sua supervisão precisem de ser aperfeiçoadas.

    A complexidade do Mercado Único e, também, dos processos políticos e legislativos europeus contribui em muitos casos para o desinteresse ou mesmo para o euroceticismo dos europeus. "É difícil explicar os benefícios frequentemente invisíveis mas reais do Mercado Único", admite Mario Monti. É por isso que, em seu entender, é preciso "alterar de forma controlada algumas políticas para o Mercado Único". "Muitas das minhas sugestões foram objeto de propostas específicas da Comissão", congratula-se o autor da Nova Estratégia para o Mercado Único.

    Falta obter o apoio dos Estados-membros e dos seus dirigentes, que enfrentam desafios eleitorais ou dificuldades económicas. Mario Monti não tem ilusões e considera que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, deveria dedicar uma sessão do Conselho ao Mercado Único, "para fazer com que fosse assumida uma responsabilidade visível, ao mais alto nível dos nossos governos". O antigo comissário pensa que, nesse caso, "seria um pouco mais difícil alguém demarcar-se e ficar na sombra" perante "o esforço comum requerido pelo crescimento, pelo emprego e pela solidez do euro a longo prazo".

    Alguns dias após o anúncio do plano de ajuda a Portugal e num momento em que a situação da Grécia suscita muita preocupação e muitos boatos sobre uma eventual saída da moeda única, deverá a Europa recear o agravamento da crise?

    "Espero que o pior já tenha passado", diz Mario Monti. E acrescenta: "Aconteça o que acontecer, a Europa está agora numa melhor situação para lhe fazer face". O antigo comissário congratula-se por a Europa ter "recuperado os seus atrasos com uma rapidez notável" e dispor agora de uma governação "muito mais eficaz".

  • Portugal-Finlândia

    Do panorama económico ao despique virtual

    17 maio 2011

    Enquanto Portugal aguarda, ansioso, pelo "sim" finlandês ao plano de ajuda financeira já acordado com a troika, os internautas de Portugal e da Finlândia dão a conhecer os feitos de ambos os países. A troca de mimos começou com a exibição de um vídeo intitulado "O que os finlandeses devem saber sobre Portugal", exibido na semana passada, nas Conferências do Estoril 2011.

    A iniciativa da Câmara Municipal de Cascais teve como objetivo levantar o moral português, contou ao Expresso o presidente da autarquia, Carlos Carreiras.

    A resposta ao vídeo não tardou. Da Finlândia chegou "O que os portugueses devem saber sobre a Finlândia" e, à semelhança do vídeo português, exaltam-se os feitos históricos alcançados pela república escandinava. Mas numa clara demonstração de que os finlandeses até têm fair-play, a mensagem final do vídeo revela o amor da Finlândia por Portugal: "Podíamos gozar com a difícil situação financeira em Portugal. Mas não o fazemos, porque o nosso coração e a nossa mente estão convosco. Com amor, Finlândia".

    Portugal agradece e espera agora que este amor possa tocar os corações dos políticos finlandeses que se opõem à ajuda financeira a Portugal. Está na hora de provarem que são tão solidários com os portugueses como estes foram com os finlandeses, em 1940 (ver no final do vídeo promovido pela Câmara de Cascais).

  • Desinvestimento no caminho-de-ferro

    Portugal em contra ciclo

    27 janeiro 2011

    Dois dos diversos boicotes às eleições presidenciais de 23 de janeiro tiveram um denominador comum: o protesto contra a falta de comboios. Em Serpins, no centro do país, protestou-se por causa duma situação caricata: a CP acabou com os comboios no Ramal da Lousã para os substituir pelo Metro. Desde há meses, não há comboio, nem metro e as pessoas que moram na Lousã e trabalham em Coimbra passaram a viajar de carro ou de camioneta. No Muro, freguesia da Trofa (Minho) o comboio de via estreita terminou há nove anos, também para se instalar uma linha de metro. Até hoje…

    São os casos mais mediáticos mas não passam da ponta do icebergue. A CP e a REFER que exploram, respetivamente, o material circulante e a infraestrutura, anunciam a iminente desativação de, pelo menos, 600 km de vias férreas, do Alentejo ao Norte do país. Como sempre são as linhas com interesse regional as mais sacrificadas. Com o pormenor caricato de a via estreita no Douro acabar de vez, sacrificando traçados ferroviários com enorme potencial turístico e interesse regional, caso das linhas do Corgo e do Tua (na primeira destas a circulação fora interrompida há um ano para obras de melhoramento).

    A crise, pelos vistos, é má conselheira e encoraja soluções de curto prazo em detrimento duma visão de futuro. Por um lado, faz-se o discurso ecológico, apelando às energias renováveis e às alternativas ao petróleo. Por outro sobre-investe-se na rodovia, nomeadamente nas autoestradas que, depois, têm de ser portajadas, e no automóvel que, embora cada vez mais evoluído tecnologicamente, continua a gastar petróleo importado e a emitir gases de estufa.

    Pelo preço de 1 km da autoestrada sob a serra do Marão repunha-se em funcionamento o troço final da Linha do Douro, do Pocinho a Barca d’Alva, com potencial turístico de ligação a Salamanca (Espanha).

    Fazer política é escolher e, infelizmente, as escolhas portuguesas em matéria de transportes são más. Não é só o TGV que é crítico para o desenvolvimento do país. Os comboios regionais, também. Contanto que sejam explorados de uma forma moderna e ao encontro dos interesses locais. E toda a política europeia de transportes vai no sentido de apostar na ferrovia, de alta, média ou baixa velocidade, por razões ambientais e energéticas.

    A vizinha Espanha não tem só TGV. Não só não acabou com a via estreita, como a modernizou e unificou a sua gestão numa empresa à escala nacional. Portugal arrisca-se a ficar famoso como o país das autoestradas… desertas.

  • EMBAIXADORA DA ARGÉLIA EM PORTUGAL

    “Mandela aprendeu a manejar armas na Argélia”

    14 junho 2010

    “Estive em Reguengos de Monsaraz e pareceu-me que estava na Argélia. Senti-me em casa. O vosso país está virado para o Atlântico, mas é mediterrânico”, diz Fatiha Selmane, embaixadora da Argélia em Portugal desde o início deste ano – falando um português já muito razoável: “É importante conhecer a língua do país onde se trabalha. Como existe uma proximidade cultural entre os nossos países, isso facilita a relação. Na década de 60, havia bastantes refugiados políticos portugueses em Argel; o meu pai conheceu alguns. Nesse tempo, a Argélia era uma espécie de Meca dos refugiados. Quando fui embaixadora na África do Sul, Nelson Mandela contou-me que foi na Argélia que aprendeu a manejar armas. A Argélia apoiou muito o ANC e a cantora Miriam Makeba até tinha passaporte argelino”.

    Filha de um professor universitário – doutorado na Sorbonne – , recorda o pai como um homem “privilegiado, porque teve oportunidade de estudar na época da colonização francesa, o que não aconteceu com a maioria dos argelinos. Fomos muito discriminados pelos franceses. Ao contrário da Tunísia e de Marrocos, a Argélia era considerada parte da França”.

    Chick Bouamrane, o pai de Fatiha, percorreu todas as etapas da carreira de professor: deu aulas no ensino primário, secundário, e terminou a carreira ensinando Filosofia na Universidade de Argel. “Eu e os meus dez irmãos concluímos todos a nossa formação universitária”.

    Depois de acabar o liceu, entrou para a Escola Nacional de Administração. Ao fim de dois anos, optou pela área da Diplomacia: “Quando entrei para o ministério dos Negócios Estrangeiros havia poucas mulheres. Fui promovida a embaixadora em 2001, quando o actual Presidente nomeou as primeiras mulheres” como representantes do país no estrangeiro.

    Foi uma das avós quem a ensinou a falar espanhol: “No tempo dela havia muitos refugiados da guerra de Espanha na Argélia. Estas bases foram-me úteis quando fui trabalhar para Madrid, em 1996: “Também gostei muito de viver em Espanha. Encontrei a mesma afinidade cultural que sinto em Portugal”.

    Mãe de duas filhas – uma com 17, outra com 21 anos – é casada com um auditor financeiro argelino, que suspendeu a actividade profissional para acompanhar a mulher, cuidar das filhas, e assumir as tarefas de cônjuge de embaixadora: “Como sou diplomata, o meu marido está proibido de trabalhar quando está comigo no estrangeiro. Mas tem muitas outras tarefas, incluindo as de organizar recepções...”.

    Texto de Manuela Goucha Soares

     

  • EMBAIXADORA DE MARROCOS EM PORTUGAL

    "Lisboa é a capital mais próxima de Rabat"

    01 junho 2010

    Fadel Benyaich, médico do rei Hasan II, tinha 37 anos quando foi assassinado – no Palácio de Verão de Skhirat – numa tentativa de golpe de Estado que tinha por objectivo eliminar o monarca. Hassan sobreviveu, e Fadel deixou viúva uma espanhola baptizada como Carmen, nome que usou até casar e se converter ao Islão – passando a chamar-se Karima – e órfãos os seus quatro filhos. Karima, a mais velha dos irmãos a quem foi dado o novo nome da mãe, tinha dez anos quando perdeu o pai. Quatro décadas volvidas, é a embaixadora do reino de Marrocos em Portugal.

    “Lisboa é a capital mais próxima de Rabat mas, apesar dos múltiplos cruzamentos históricos e culturais que há entre Portugal e Marrocos, existe um grande desconhecimento entre os nossos dois povos. Penso que a cultura é um vector de aproximação muito forte, no qual acredito, e que é preciso fomentar este intercâmbio”, diz Karima – que se sente “honrada por ter merecido a confiança do rei Mohammed VI”, ao nomeá-la como sua representante para um país “amigo e vizinho, e que é um parceiro estratégico”, disse a embaixadora de Marrocos em Portugal ao EXPRESSO.

    Karima refere-se sempre ao rei como “Sua Majestade, o Rei” ou “o meu soberano”. Apesar de, depois da morte do pai, ter frequentado o Colégio Real onde Mohammed VI e seus quatros irmãos estudavam, e de ter apenas mais dois anos do que o monarca.

    Terminados os estudos liceais em Rabat, seguiu para a Universidade de Montreal, no Canadá, e há 21 anos que trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país: “Tive outras experiências profissionais – Portugal é a minha primeira nomeação – viajei muito, e graças a essas viagens verifico que o meu país tem feito avanços extraordinários, nomeadamente no que respeita à situação da mulher: já há mulheres que fazem prédicas nas mesquitas. Considero que é preciso avançar mas preservando a nossa cultura e tradição, para manter a nossa identidade”.

    Sem ser uma grande fã de futebol, trabalhou na Célula de Marrocos para a promoção dos Mundiais de 2006 e 2010: “o futebol une a juventude, quebra barreiras e, além de mais, Marrocos tem todas as condições para poder organizar um Mundial”.

    A poucos dias da XI Cimeira Luso-Marroquina, é um dado adquirido que a economia é o grande motor de aproximação entre os dois países: há 156 empresas portuguesas de construção a trabalhar em Marrocos – um país que já está e quer continuar a construir auto-estradas e infra-estruturas variadas a ritmo acelerado.

    Texto de Manuela Goucha Soares/EXPRESSO

     

  • EMBAIXADOR DA TURQUIA EM PORTUGAL

    A comunidade internacional tem de resolver a questão de Chipre do Norte

    17 maio 2010

    Filho e neto de diplomatas, teve o seu primeiro posto como embaixador em Portugal. No próximo mês, Kaya Türkmen, 53 anos, deixa o nosso país para chefiar a embaixada da Turquia na metade da cidade de Nicósia que é a capital da República Turca do Chipre do Norte.

    Um desafio difícil – mesmo para quem trabalhou no Afeganistão ocupado pelos soviéticos – pois, na prática, vai ser o único embaixador estrangeiro nesse país, que é reconhecido pela Turquia, mas inexistente aos olhos da comunidade internacional.

    “A questão cipriota tem quase meio século; começou em 1963 e já durou demasiado tempo. O mundo não pode permitir que este problema se mantenha. Na minha opinião, as duas comunidades (cipriotas gregos e cipriotas turcos) precisam de ajuda externa para negociar. E essa ajuda tem de vir da Grécia, da Turquia, da ONU e da UE", disse ao Expresso Kaya Türkmen.

    Chipre pertenceu ao império otomano entre os séculos XVI e XIX. A conferência de Berlim decidiu que a ilha seria um protectorado britânico e, em 1914, passou a ter o estatuto de colónia. Em 1960, tornou-se independente e, três anos mais tarde, surgiram os primeiros focos de violência entre as comunidades grega e turca: “Só tenho notícia de se terem realizado três casamentos mistos na ilha”, diz Türkmen para ilustrar o clima de tensão que sempre existiu entre as duas comunidades cipriotas.

    Kaya nasceu em Bruxelas, passou a primeira infância em Roma, e fez a escola primária na Alemanha – onde ficou a viver com os avós maternos, quando o pai foi colocado na embaixada turca no Paquistão. Depois disso, a mãe decidiu regressar à Turquia, para garantir que os dois filhos iriam viver a sua juventude e estudar no país da família – para conhecerem a cultura e tradições do seu povo.

    Cidadão do mundo e muçulmano não-praticante, reconhece que o meio onde nasceu foi decisivo para a escolha da profissão: “Ao fim de três ou quatro anos num sítio, já começo a pensar para onde vou a seguir. Tenho a sensação de que os cinco anos mais longos da minha vida foram aqueles que passei em Ancara antes de vir para Portugal”, em Janeiro de 2007.

    Quando chegou a Lisboa, tanto ele como a mulher, Nurdan – uma jornalista que suspendeu a carreira por escrever sobre assuntos europeus, incompatíveis com uma parte substancial da carreira do marido – tiveram “um caso de amor” com Portugal: “Os portugueses têm uma grande história e são um povo condescendente e simples; essas qualidades são difíceis de encontrar.

    Texto de Manuela Goucha Soares

     

  • EMBAIXADOR DE MOÇAMBIQUE EM PORTUGAL

    Filho de Makondes...

    10 maio 2010

    O embaixador de Moçambique em Portugal, Miguel Mkaima, tinha 38 anos quando se licenciou em História de Arte na Universidade Irmãos Humboldt, na velha e desaparecida Berlim-Leste. Não que Miguel fosse estroina ou cábula, mas porque o seu percurso reflecte os últimos 50 anos da história do seu país.

    O embaixador de Moçambique em Portugal nasceu no planalto de Mueda, em 1954, numa família Makonde – etnia que vive entre esta região e o sudeste da Tanzânia. O pai, Albino Mkaima, além de simpatizar pouco com o regime colonial, tinha duas mulheres que viviam mais ou menos juntas, na companhia dos sete filhos de uma e dos seis da outra.

    Em Setembro de 1964, quando começou a Luta Armada de Libertação Nacional com um ataque ao posto de Chai na província de Cabo Delgado – a mesma a que pertence Mueda – a vida dos Mkaima em Moçambique complicou-se e a grande família alargada mudou-se para a Tanzânia, país onde a Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique – tinha bases de apoio. Miguel já andava pelos 10 anos de idade, mas a sua vida ainda só tinha passado pelas lides da agricultura de subsistência e pastorícia.

    O novo país abriu-lhe as portas da escola, mas fechou para sempre o tempo em que vivera protegido no seio da família: fez a escola primária em regime de internato no Centro Educacional da Frelimo, em Tunduru, e começou o liceu na Escola da Frelimo, em Bagamoyo.

    A independência de Moçambique trouxe-o de volta ao país onde nascera, e à cidade da Beira onde frequentou o ensino médio na Escola Samora Machel.

    No seu jovem país, as oportunidades de carreira eram inversamente proporcionais à escassez de recursos humanos. Em 1975, ainda a faculdade era um sonho distante, foi nomeado director da Escola de Formação de Professores do Ensino Primário e, dois anos mais tarde, director provincial da Educação e Cultura de Cabo Delgado.

    Quando veio viver para Maputo matriculou-se em engenharia química na Universidade Eduardo Mondlane – mas a conjuntura foi-lhe adversa: “Foi numa época em que a Renamo tinha destruído muitas vias de comunicação e a situação do país era má”. O curso não foi para a frente mas o destino brindou-o com uma bolsa de estudo da ex-República Democrática Alemã.

    Em 1985, mudou-se para Berlim para estudar História de Arte: “A minha primeira opção era a química; a segunda, qualquer coisa ligada à arte, apesar de saber que não podia ir para Belas Artes porque não tinha estudado desenho”. Dez anos depois de ter emigrado, foi nomeado director do Museu Nacional de Arte e, em 2000, ministro da Cultura. Já embaixador em Portugal, fez um mestrado sobre a arte do seu povo: os Makondes, e vai publicar um livro sobre este tema, disse Miguel Mkaima, ao Expresso. 

    Texto de Manuela Goucha Soares

     

  • FUNDAÇÃO LUSO-AMERICANA PARA O DESENVOLVIMENTO

    Rui Machete deixa a FLAD ao fim de 22 anos

    04 maio 2010

    Ocupou vários cargos de primeira linha na sociedade portuguesa – como os de vice-primeiro ministro do Bloco Central, ministro da Defesa, da Justiça, secretário-geral adjunto do PPD, advogado com nome na praça – , mas dedicou os últimos 22 anos da sua vida à construção da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

    Ao longo deste caminho, procurou equilíbrios para combater “interferências nacionais e estrangeiras” na Fundação. É que, explica, “para garantir essa autonomia, precisava eu mesmo de ser autónomo. Foi por esta razão que fiz um esforço duplo e continuei a fazer advocacia e a dar aulas” na faculdade.

    Na semana em que deixa de estar à frente da FLAD – o homem que foi o primeiro presidente português desta instituição, ocupando o cargo desde Julho de 1988 – , diz que “as necessidades da vida obrigaram a FLAD a inventar-se a si própria, sem nunca fugir ao objectivo do desenvolvimento económico e cultural do país”.

    “No primeiro mandato tomei uma decisão importante: optar para que a Fundação fosse tendencialmente perpétua”, em vez  de durar sete anos como chegou a ser pensado. “Isso implicou que a gestão do património deixasse de ser feita em função da atribuição de subsídios e que a Fundação se transformasse num think-thank”. A FLAD colaborou com a SEDES e com o IPRI – Instituto Português de Relações Internacionais, “que tem sido um dos nossos braços-armados nas relações internacionais”.

    No momento em que sai, Machete lamenta o facto de “não ter conseguido alterar os estatutos, por forma a assegurar uma certa autonomia que não está juridicamente garantida”. Em compensação, regojiza-se por acreditar que fez “uma interpretação correcta” dos objectivos. “Se não fizesse uma interpretação correcta só gastaria dinheiro em Portugal”, refere.

    Existe um trabalho lento, mas importante, como a promoção da língua portuguesa nos EUA, os projectos desenvolvidos para levar os imigrantes nos EUA a adquirirem a nacionalidade americana, a integrarem-se e votarem. “Outro aspecto é a integração da nossa política de cooperação com África na actividade da Fundação, de modo a acentuar o seu carácter nacional”, salienta. Para a semana, Machete regressa à PLMJ advogados e à docência universitária – que diz ser a sua “vocação prioritária”.

    TEXTO de Manuela Goucha Soares – EXPRESSO, edição de 1 de Maio de 2010

  • 150 anos do Tratado de Paz

    Portugal abriu o Japão ao mundo

    27 abril 2010

    Botan e pan são duas palavras de origem portuguesa que os japoneses do século XXI ainda utilizam para designar um objecto e um alimento do seu quotidiano – o botão e o pão – dois elementos que desconheciam até ao dia em que os primeiros aventureiros portugueses desembarcaram no Japão, a bordo de navios asiáticos. Não se sabe ao certo quem foram os protagonistas deste primeiro encontro, nem em que data terá ocorrido: “1542, 1543”, adiantou, como datas possíveis, João Paulo Oliveira e Costa, director do CHAM – Centro de História de Além-Mar, em conversa com o EXPRESSO

    O aspecto mais importante desse legado é que “os meninos japoneses que frequentam as escolas primárias, aprendem que foram os portugueses que abriram o Japão ao mundo”, diz Oliveira e Costa. O impacto foi tão profundo que o publicista japonês Ken Takeuchi afirmou que a chegada dos portugueses ao Japão “foi o maior acontecimento desde que a cultura chinesa foi introduzida no Japão no século VI” [Takeuchi é citado pelo embaixador Martins Janeira no livro “O Impacto Português Sobre a Civilização Japonesa”]. 

    A relação entre estes dois povos foi essencialmente comercial, mas os portugueses acabaram por transmitir aos japoneses a consciência de que precisavam de construir uma unidade nacional, que substituísse a fragmentação quase feudal no país. Como não há bela sem senão, a introdução da espingarda e de outras armas de fogo, e da pólvora, foi uma consequência decisiva para o evoluir da guerra, e os armeiros nipónicos rapidamente aprenderam as técnicas do seu fabrico.

     

    O idílio luso-nipónico durou até 1639, altura em que os portugueses foram expulsos e decretada a proibição da entrada dos nossos barcos no país. O Japão voltou a ficar (quase) fechado ao mundo por mais 200 anos, restabelecendo relações em 1853 com os americanos. Em 1860, o País do Sol Nascente assinou um Tratado de Paz com Portugal – do qual se comemora este ano o 150º aniversário.

    Texto de Manuela Goucha Soares

     

     

  • Embaixador do México em Portugal

    "Crise e gripe A são ameaças globais"

    24 setembro 2009

    No início da década de 1970, Mauricio Toussaint tinha menos de 20 anos e muita vontade de conhecer o mundo. Viajou para Espanha com colegas da Universidade Nacional Autónoma do México, onde cursava Ciência Política, e o acaso de uma imprevista greve de professores fê-lo prolongar a estada na Europa e rumar a Portugal. Acresce que um dos companheiros de viagem tinha um familiar em Cascais, cuja residência foi utilizada como albergue pelo grupo de jovens que, no final de uma viagem pelo país vizinho, já estava quase falido.

    Numa conversa com o EXPRESSO, contou: "Entrámos pelo Norte (pela Beira), e corremos o país quase todo, quase sempre à boleia. Estive em Viseu, passei mais de uma semana na Nazaré... mas a ideia que guardei do Portugal desse tempo foi a de um país muito pobre, completamente diferente daquele onde estou a viver. Da primeira vez que cá estive, havia a Ponte Salazar e mais dez quilómetros de auto-estrada para cada lado da ponte...” No cenário desse Portugal que se despedia da ditadura, Mauricio e os amigos constataram que as roupas que usavam eram “muito fashion” e cobiçadas pelos jovens com quem se cruzavam. Falidos como estavam, decidiram vender uma boa parte do vestuário e continuar viagem.

    Mauricio começou a colaborar profissionalmente com o Governo Federal muito cedo na área da energia. Como ele próprio diz, é um homem da “diplomacia petroleira”, por ser um especialista no sector energético.

    Visitou Portugal em 2001, como secretário-geral do ministério das Relações Exteriores do México: “Nunca me esquecerei dessa visita. Estava cá no dia em que caíram as Torres gémeas...”

    Neste momento, está empenhado na Cimeira Ibero-Americana que se vai realizar em Portugal no final do ano. “Vão estar em cima da mesa temas como a inovação, o conhecimento, e é óbvio que a crise não vai escapar”. Todos os países andam à procura de um caminho seguro para sair da crise e o México também. Até porque foi o ‘berço’ dos primeiros casos de gripe A, e esse facto acabou por afectar os fluxos turísticos que são uma receita com alguma importância para o país.

    “Tanto a crise como a gripe provam que as ameaças são globais, que os assuntos têm de ser discutidos a nível global”. Daí a importância dos fóruns internacionais: “Todos juntos temos de desenvolver uma estratégia para ultrapassar a crise. E o México, por exemplo, é um país cuja economia depende em quase 80% dos EUA... embora seja o segundo parceiro de Portugal na América Latina.”

     

    Manuela Goucha Soares

  • EMBAIXADOR DA UCRÂNIA EM PORTUGAL

    URSS não gostava de Peter Pan

    03 setembro 2009

     Os ucranianos, em Portugal, são a segunda maior comunidade migrante, com 53 mil pessoas cuja situação está legalizada, e vêm sobretudo da Ucrânia ocidental. Pouco depois de este país ter comemorado 18 anos de independência [24 de Agosto, o EXPRESSO falou com o embaixador da Ucrânia em Portugal, Rostyslav Tronenko, um homem que nasceu num país que se diluiu quando ele já  tinha 29 anos Peter Pan, um dos mais famosos filmes de animação da Disney, aos 47. Não que a história do rapaz que esvoaçava pelas janelas fosse perigosa para o equilíbrio das crianças soviéticas, mas porque até à queda do Muro de Berlim os governantes das terras que ficavam para lá da 'cortina de ferro' olhavam a Disney como um símbolo do império americano, personae non gratae na velha Europa de leste.

    Diga-se em abono da verdade que o imaginário infantil de Rostyslav não permaneceu alheio às fantasias de James Matthew Barrie. O livro que conta a história de Peter Pan estava traduzido em russo e disponível para as crianças da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pátria do socialismo e da “igualdade na falta de muitas coisas”, como refere Rostyslav Volodymyrovych, embaixador da Ucrânia em Portugal, que conversou com o Expresso dois dias depois de ter visto o filme Peter Pan pela primeira vez, na companhia da filha de cinco anos.

    No tempo em que cresceu, “o Estado cuidava de tudo”. Rostyslav recorda com ternura os tempos da infância e juventude porque “temos sempre saudades dessas épocas. Mas agora há liberdade e os meus compatriotas são livres de poderem vir para o vosso país”, e aqui fazerem a sua vida. “A Ucrânia foi sempre uma ponte entre a Europa e a Ásia e um local de encontro de muitas culturas. Isso faz-nos parecidos com os portugueses. Na Ucrânia até temos uns lenços parecidos com os do Minho”, que lá devem ter chegado num desses movimentos de transumância humana.

    Na universidade, foi obrigado a decorar versos de Os Lusíadas: Grande parte da minha carreira está ligada à lusofonia. Trabalhei como intérprete em Moçambique nos anos 1980 e numa Associação de Amizade com Países Estrangeiros”. Tudo isso aconteceu antes de entrar para a carreira diplomática, e de o seu país recuperar a independência.

    O pai, doutorado em Economia, com uma tese sobre o socialismo em Cuba, não sai da Ucrânia há mais de três décadas, mas sempre disse ao filho que este deveria estar atento ao mundo. E nunca desistiu de o motivar para a área da diplomacia, mesmo quando Rostyslav escolheu cursar Línguas Modernas na Universidade Estatal de Kiev para, numa tímida contestação juvenil, picar os progenitores. Este Verão, o pai de Rostyslav vem visitar o filho, as netas e a nora brasileira, e conhecer Lisboa. A sua primeira viagem em 34 anos.

     

    Manuela Goucha Soares

  • NEGÓCIOS DE GUERRA

    Hitler comia peixe português

    27 agosto 2009

    Todos os anos, mais de 20 milhões de latas de conservas portuguesas viajam para 35 mercados, e até no bunker de Hitler foram encontradas três latas de sardinhas made in Portugal. Como relata o jornalista do Expresso, Abílio Ferreira – num texto publicado no Expresso Online (http://aeiou.expresso.pt/latas-de-conserva-da-ramirez-encontradas-na-despensa-de-hitler=f532559), as guerras, devastadoras para a maioria da população, representam oportunidades de negócio para alguns. Portugal testemunhou vários casos durante a II Guerra Mundial que vão do volfrâmio às conservas, passando pelo contrabando do bagaço de azeite.

    Voltando ao texto de Abílio Ferreira sobre as conservas Ramirez,«foi, todavia, com as guerras que o negócio da Ramirez e da generalidade da indústria conserveira portuguesa prosperou. Se no fim do século XIX Portugal tinha 76 fábricas, no fim da Primeira Guerra Mundial, o universo alarga-se para 300. A empresa percebeu que "o consumo era anormal e transitório" e, ao contrário de outros concorrentes, aguentou-se na ressaca dos anos 20. Ainda assim, sofreu com a pressão de preços e a depressão em que o sector mergulhou e que levaria até Oliveira Salazar a publicar um diagnóstico sobre as ameaças que as conservas enfrentavam.

    A Segunda Guerra Mundial ajuda à retoma. Portugal beneficia do facto de ser dos raros países com a produção a funcionar. A Ramirez fornece a Cruz Vermelha e exporta para mercados como a Bélgica, Reino Unido e Alemanha. Por isso, a família não estranhou um telefonema do seu agente em Hamburgo, no início dos anos 50, dando conta que tinham na sua posse três latas muito especiais. Eram conservas de sardinha em azeite que tinham sido recolhidas do bunker de Hitler. "Não sei como lhe foram parar às mãos, lembro-me que as enviou ao meu pai", recorda Manuel Ramirez. Meses depois, a família decidiu prová-las, verificando que estavam em perfeito estado de conservação. "Estavam óptimas", recorda o empresário que aproveita o episódio para troçar das leis europeias que impõem um prazo de caducidade a todos os produtos».

  • Perfil do Embaixador da França em Portugal

    "O francês tem de despertar curiosidade"

    22 julho 2009

     Denis Delbourg cursou Filosofia na Universidade, frequentou a ENA (École Nationale d’Administration) – instituição criada depois da II Guerra Mundial para formar quadros para a administração pública francesa – e, depois disso, concorreu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros porque queria “descobrir o mundo”. Gosta de ser diplomata, mas tem a lucidez suficiente para olhar para trás e constatar: “Quando se é jovem sonham-se muitas vidas... e eu até poderia ter gostado de ficar na Universidade. A filosofia é apaixonante.”

    Prestes a completar 57 anos, Denis Delbourg, embaixador de França em Portugal, conversou com o EXPRESSO ( http://aeiou.expresso.pt/) no dia em que o seu país comemorou um dos feitos mais importantes da sua História – a tomada da Bastilha, a 14 de Julho de 1789. Ciente de que França teve uma influência determinante no pensamento da Europa e do mundo nos séculos XVIII e XIX, e uma acção fundamental para a estabilização política da Europa no século XX, Delbourg afirma que um dos grandes desafios da língua francesa – que perdeu o seu lugar de grande língua de comunicação para o inglês – é o de encontrar um “espaço nos novos meios de comunicação. Para se aceder a conteúdos é preciso passar pela linguagem, mas para querer aprender uma língua” é necessário que o país que a tem como língua materna “seja capaz de despertar interesse e curiosidade”.

    Antes de vir para Lisboa, foi adido cultural em Nova Iorque, cônsul-geral no Rio de Janeiro e embaixador na Suécia. Diz que “Nova Iorque é um carrefour artístico fantástico. As elites culturais americanas têm um enorme conhecimento sobre a cultura francesa, que está presente nas Universidades – onde tanto a literatura francesa como a francófona são estudadas – no meio artístico e nos museus”. No quotidiano, a realidade é diferente, mas, apesar disso, “o cinema francês tem o seu lugar na América”.

    No Brasil, aprendeu português e apreciou “o orgulho que os brasileiros têm na mistura das suas múltiplas heranças. Estive lá na época do Presidente Fernando Henrique Cardoso e foi muito interessante, porque o país estava a modernizar-se economicamente”.

    Quando terminou as suas funções de embaixador em Estocolmo, Delbourg queria continuar na Europa. Portugal – de quem a França é o terceiro maior parceiro comercial – surgiu como um desafio interessante. “Já cá tinha estado no princípio dos anos 90, quando estava colocado no Ministério da Cultura. Vim assistir a parte das filmagens do ‘Soulier de Satin’ de Manoel de Oliveira”.

    O embaixador constatou que  "Portugal é um dos poucos países onde um francês pode fazer uma conferência ou palestra para uma plateia de 500 pessoas, sem ser necessário recorrer à tradução". A França é o terceiro maior parceiro económico de Portugal com um volume de exportações de 5,15 mil milhões de euros. A Alliance Française abriu a sua primeira escola em Lisboa em 1945 e neste momento tem 12 centros de ensino no país; para além destas escolas, existe um Instituto Franco-Português, em Lisboa.

    Manuela Goucha Soares

  • 6ª edição do "Summer Study Abroad in Lisbon"

    Americanos vêem Portugal como porta da Europa

    15 julho 2009

    "Apesar da nova geração" dos estudantes universitários norte-americanos "estar um pouco mais aberta a novas culturas, a chegada a Portugal continua a causar um certo choque nas suas expectativas", escreve Pedro Quedas no Diario Económico de 14 de Julho, na reportagem que dedica à 6ª edição do "Summer Study Abroad in Lisbon", uma "parceria entre o ISEG e a Universidade de Massachussetts-Dartmouth (UMass) que traz alunos norte-americanos a Portugal".

    "Este ano eles são 12. Nunca nenhum deles tinha vindo a Portugal e nunca nenhum deles tinha vindo à Europa. Como Portugal está neste processo de europeização acentuada, carrega consigo este duplo interesse de um país carregado de história mas também voltado para a Europa", explica António Goucha Soares, um dos dois professores responsáveis pela organização do "Summer Study Abroad in Lisbon".

    O outro responsável pelo "Summer Study Abroad in Lisbon", é o professor Michael Baum, da Universidade do Massachusetts. Os dois académicos conceberam este curso que dura um mês, e teve a sua 1ª edição em 2001, com o objectivo de "apresentar um lado diferente de Portugal. A abordagem é académica, com aulas dadas pelos dois docentes e palestras nas Universidades de Évora e Coimbra, e empresarial, com visitas a empresas com a Parque Expo ou a Herdade do Esporão. A vertente cultura e social não é esquecida, com visitas ao Palácio de Belém e ao seu Museu, à Assembleia da República e a monumentos históricos como o Mosteiro dos Jerónimos".

    Sendo um curso para jovens, a vida social também é contemplada: "é dado um grande destaque às relações entres os alunos internacionais e os colegas do ISEG, bem como às saídas às zonas históricas mais frequentadas da noite lisboeta. A diversidade do programa tem o grande objectivo de mostrar Portugal como um país moderno, diverso e com os olhos voltados para o futuro, explica o professora António Goucha Soares".

    A estudante da UMass, Christine Van Orden, 21 anos, disse ao jornalista Pedro Quedas: "Depois de aprender mais sobre Portugal, sobre Salazar e o regime da ditadura foi interessante perceber a rapidez com que as coisas mudaram, como Lisboa cresceu. É impressionante".

  • PERFIL DO EMBAIXADOR DA SUÉCIA EM PORTUGAL

    "Foi emocionante assistir à reunificação da Alemanha"

    03 julho 2009

    Bengt Lundborg nasceu na ”Veneza do Norte” – nome pelo qual (também) é conhecida a cidade de Estocolmo – a 27 de Dezembro de 1945. Filho de um diplomata de carreira, começou a viver por conta própria aos dez anos de idade, altura em que teve de deixar a companhia dos pais, que se encontravam em missão no estrangeiro, e regressou à Suécia para estudar num colégio interno.

    “Foi uma boa experiência, apesar de o primeiro embate não ser fácil para uma criança”, conta. “Mais tarde, na época em que já era eu a trabalhar como diplomata, os meus filhos não tiveram este problema porque já havia escolas internacionais em muitos países, coisa que não acontecia em meados dos anos 1950”.

    A vida profissional de Bengt tem-lhe proporcionado diversas oportunidades para reflectir sobre a evolução da geografia política: foi embaixador do seu país na Hungria entre 2003 e 2007, quase meio século depois de o pai ter ocupado esse posto, num tempo em que o mundo era um local muito diferente.

    Bengt, que se define como “um europeísta convicto”, teve o privilégio de estar colocado na Alemanha quando caiu o Muro de Berlim: “Foi fascinante assistir à reunificação das duas Alemanhas. Um processo muito emocionante, e foi também muito interessante” ver como a antiga Alemanha de Leste se foi integrando e adaptando às estruturas ocidentais, e a transformação que esta emblemática mudança política do final do século XX, permitiu operar na costa do Báltico. “No fundo, parte da costa era ocupada pela RDA, Polónia e pela Letónia, Estónia e Lituânia”. Vinte anos depois, “estes países são membros da UE”, o que permitiu grandes avanços em matéria de “ordenamento e protecção do ambiente”, tema muito caro à segunda presidência sueca da União Europeia, que começou na passada quarta-feira. “Os países do Báltico precisavam de ajuda para melhorar o ambiente e isso está a ser feito. Esta intervenção da UE nos ex-países comunistas é um dos seus maiores sucessos. Estocolmo vai ser a capital verde da Europa em 2010”.

    Bengt acredita na receptividade do seu país para com o euro. “Neste momento temos 43% a favor do euro, e 42 contra... um grande avanço, já que há poucos anos havia 68% contra”.

    Velejador na juventude, diz que a Suécia está a viver um novo baby-boom. “É normal os homens gozarem longas licenças de paternidade. Os meus dois filhos (homens) estiveram cada um deles quase seis meses em casa por causa do nascimento dos meus netos”.

    Manuela Goucha Soares

  • UNIÃO EUROPEIA

    Bruxelas 'liberta' consumo da fruta

    27 junho 2009

    A Europa trouxe-nos muitas vantagens e algumas bizarrias: impediu-nos de comer fruta saborosa só porque era pequena, impôs normas sobre galheteiros e saleiros nos restaurantes... e interveio de forma estranha noutros pequenos hábitos do quotidiano.

    Agora, sensatamente, Bruxelas revogou «as normas  as normas europeias que harmonizavam a calibragem das 36 frutas e legumes mais consumidos no continente, que estabeleciam, de Portugal à Lituânia, características idênticas para o diâmetro das melancias, a cor do tomate, a forma das maçãs ou a rectidão dos pepinos», de acordo com o EXPRESSO. Leia mais em http://aeiou.expresso.pt/tamanho-da-fruta-deixa-de-contar=f523071

     

  • PATRIMÓNIO DA UNESCO

    Fado na cisterna de El Jadida

    20 junho 2009

     A cisterna portugesa de El Jadida, o nome actual da antiga praça forte de Mazagão, foi o local escolhido para um concerto de fado, organizado pela embaixada de Portugal em Marrocos e pela Direcção de Cultura de Doukkala -Abda, daquele país do magrebe. O embaixador de Portugal em Marrocos, João Rosa Lã, disse ao Expresso que este "concerto de fado, interpretado por Cuca Roseta e Francisco Salvação Barreto, tem por objectivo promover o fado – como expressão da cultura portuguesa – e dar a conhecer a cisterna portuguesa de El Jadida, que foi distinguida com o segundo lugar" no concurso das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.

    O realizador Orson Welles filmou partes do filme Othello nesta sumptuosa cisterna, classificada como património mundial da Unesco em 2004. A Fortaleza de Mazagão foi fundada em 1513 como entreposto comercial e ponto de apoio para os navegadores da Rota do Cabo. É, provavelmente, o melhor exemplar da arquitectua militar portuguesa do século XVI.

    No século XVIII, o Marquês de Pombal -decidiu que a cidade de Mazagão devia ser tranferida para o Brasil, mais concretamente para a Amazónia, onde veio a ser fundada a cidade de Nova Mazagão. A fortaleza marroquina foi abandonada, e a maioria dos seus habitantes de então rumou ao Brasil.

  • A EUROPA A OLHAR PARA BARROSO

    Arranja-me um emprego!

    17 junho 2009

    David Cronin escreve no The Guardian que a permanência de Durão Barroso para um novo mandato como Presidente da Comissão Europeia é "uma vergonha". De acordo com este jornalista irlandês, a questão do emprego é a grande preocupação actual de boa parte dos eurocratas de Bruxelas. Pelo menos, daqueles que têm os cargos mais bem remunerados:"No decorrer das próximas semanas, o verdadeiro tema de conversa nos círculos políticos de Bruxelas deverá ser apenas um: empregos. Esta tagarelice pouco terá a ver com a triste litania dos despedimentos que se encontra facilmente nos boletins noticiosos do mundo exterior. Girará, antes, em torno de quais os cargos que os membros de um grupo arrogante de homens (e uma ou duas mulheres), amorfos e que auferem salários excessivos, conseguirão conquistar".

    A verdade, é que Barroso, o pragmático José Manuel Barroso, tem sido fortemente criticado por alguma imprensa europeia. No dia 8 de Junho, o 'day after' das eleições europeias, o Le Monde - no seu editorial – acusava Barroso de falta de "carisma político", e de total inoperância perante a crise económica que se abateu sobre a economia mundial e europeia:  "Não é o Parlamento que está em falta, é Barroso, desprovido de carisma político e de qualquer imaginação económica", escreveu o Le Monde.

    Tudo indica que Barroso se aguentará à frente da Comissão. Mesmo quando a opinião de alguns dos mais reputados jornais europeus está decididamente contra ele.

    M.G.S.